{"id":11332,"date":"2012-05-27T20:14:55","date_gmt":"2012-05-27T23:14:55","guid":{"rendered":"https:\/\/fenaprf.org.br\/?p=11332"},"modified":"2012-05-27T20:14:55","modified_gmt":"2012-05-27T23:14:55","slug":"trabalhar-sob-estresse-afeta-a-vida-familiar-diz-especialista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/trabalhar-sob-estresse-afeta-a-vida-familiar-diz-especialista\/","title":{"rendered":"Trabalhar sob estresse afeta a vida familiar, diz especialista"},"content":{"rendered":"<p><em>Para a m\u00e9dica do trabalho Margarida Barreto, o endurecimento nas rela\u00e7\u00f5es entre empregador e funcion\u00e1rio provoca desprazer e barra a criatividade do trabalhador, al\u00e9m do seu adoecimento<\/em><\/p>\n<p>O estresse provocado pelas jornadas prolongadas e crescentes exig\u00eancias por metas no trabalho interferem al\u00e9m da sa\u00fade, na vida familiar, na avalia\u00e7\u00e3o da m\u00e9dica do trabalho e pesquisadora da Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica de S\u00e3o Paulo (PUC-SP), Margarida Barreto. Categorias de trabalhadores acostumados a viver sob press\u00e3o ou de grande exig\u00eancia \u2013 como os psic\u00f3logos, assistentes sociais e profissionais da sa\u00fade em geral \u2013 buscam a redu\u00e7\u00e3o de jornada de trabalho por meio de projetos de lei em tr\u00e2mite no Congresso e tamb\u00e9m por mobiliza\u00e7\u00f5es p\u00fablicas junto aos sindicatos.<\/p>\n<p>A Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade (OMS) e a Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho (OIT) recomendam uma jornada m\u00e1xima de 30 horas para estes casos, e centrais sindicais fazem coro ao pedido. No entanto, ainda h\u00e1 resist\u00eancia dos setores p\u00fablicos e privados em adotar as medidas, que podem reduzir a incid\u00eancia de doen\u00e7as adquiridas no trabalho e melhorar o desempenho e produ\u00e7\u00e3o do funcion\u00e1rio. Em entrevista, Margarida relaciona a decis\u00e3o das empresas em n\u00e3o reduzir a carga hor\u00e1ria com um poss\u00edvel receio de ter de for\u00e7ar gastos para aumentar o quadro de funcion\u00e1rios para suprir as lacunas das jornadas.<\/p>\n<p>A intensidade do problema \u00e9 vis\u00edvel: dados da Previd\u00eancia Social mostram que no per\u00edodo de janeiro a mar\u00e7o de 2012 foram 511.564 aux\u00edlios-doen\u00e7a concedidos. O n\u00famero representa pouco mais de dez mil pedidos ante o total do mesmo per\u00edodo no ano passado. \u00c0 medida em que surgem mais vagas de emprego, segundo a m\u00e9dica, mais se torna indispens\u00e1vel a discuss\u00e3o sobre a qualidade dele para o trabalhador.<\/p>\n<p><strong>Quais os efeitos de uma jornada longa em uma profiss\u00e3o estressante?<\/strong><\/p>\n<p>A quest\u00e3o da sa\u00fade \u00e9 fundamental. Primeira coisa \u00e9 que as consequ\u00eancias de um trabalho sob estresse independe de categoria, de ser homem ou mulher. Tudo leva a uma fadiga mental e f\u00edsica, e consequentemente a diminui\u00e7\u00e3o da capacidade de produzir. E, claro, o patr\u00e3o insiste em n\u00e3o diminuir a jornada porque acha que seus gastos v\u00e3o aumentar tendo de contratar novos trabalhadores. Isso \u00e9 um engano total.<\/p>\n<p>Um trabalhador que exerce uma jornada prolongada tem de produzir cada vez mais e n\u00e3o pode cair de cama. Ele acaba adoecendo justamente por conta disso. \u00c9 uma rotina insuport\u00e1vel, e leva n\u00e3o s\u00f3 ao cansa\u00e7o mas tamb\u00e9m a outras complica\u00e7\u00f5es, como doen\u00e7as gastrointestinais como as gastrites, e psicol\u00f3gicas, como o des\u00e2nimo, pesadelos, ang\u00fastia. O trabalhador muitas vezes se sente incapaz de dar conta daquilo que lhe \u00e9 imposto, quando na verdade \u00e9 desumano. Um terreno permeado de contradi\u00e7\u00f5es. \u00c9 mais do que justo esta reivindica\u00e7\u00e3o dos trabalhadores na quest\u00e3o da redu\u00e7\u00e3o da jornada e, associado a isto, vem a quest\u00e3o da estabilidade no emprego.<\/p>\n<p><strong>Qual a argumenta\u00e7\u00e3o que trabalhador pode dar quanto ao que \u00e9 submetido?<\/strong><\/p>\n<p>Eu acredito que a argumenta\u00e7\u00e3o deve estar embasada n\u00e3o s\u00f3 nas quest\u00f5es de sa\u00fade, n\u00e3o s\u00f3 na quest\u00e3o \u00e9tica. Um trabalho prolongado e denso \u00e9 fonte de desprazer, de sofrimento. Barra a criatividade do trabalhador e possibilita um maior \u00edndice de acidentes e de adoecimento.<\/p>\n<p><strong>Qual seria a alternativa <\/strong><strong>para o trabalhador que n\u00e3o v\u00ea a sa\u00edda da redu\u00e7\u00e3o da jornada e tamb\u00e9m n\u00e3o encontra respaldo na lei?<\/strong><\/p>\n<p>A alternativa est\u00e1 nas lutas que exijam como um todo mudan\u00e7as na organiza\u00e7\u00e3o de trabalho. Quando voc\u00ea pensa na jornada, ou nas horas-extras, est\u00e1 dentro do acordo de trabalho.<\/p>\n<p>Mudar significa possibilitar a este trabalhador, fazer seu servi\u00e7o de forma digna, sem estresse, com autonomia. Se eu tenho uma rela\u00e7\u00e3o com o empregado que s\u00f3 exige metas cada dia maiores e n\u00e3o d\u00e1 possibilidades de micropausas quaisquer, n\u00e3o d\u00e1 para esperar muito.\u00a0 N\u00e3o querendo ser saudosista, mas antes os trabalhadores tinham ao menos a chance de sair para fumar um cigarro, bater um papo com um colega. Hoje voc\u00ea n\u00e3o tem esta possibilidade, porque poucos trabalhadores devem cumprir o que foi estipulado. Passa a ser um luxo pensar em conversar com o colega do lado.<\/p>\n<p>N\u00e3o ter tempo sequer para relaxar, para dar um bom dia sequer ao companheiro de trabalho, complica. Nas grandes empresas, apesar do ambiente bonito e <em>clean<\/em>, j\u00e1 s\u00e3o ambientes pesados. Imagine ent\u00e3o numa terceirizada, por exemplo. \u00c9 sobrecarga, exig\u00eancia, e explora\u00e7\u00e3o cada vez maiores. Isto acaba tendo repercuss\u00f5es at\u00e9 dentro da vida familiar.<\/p>\n<p><strong>Falando em funcion\u00e1rios terceirizados, a rotina de um funcion\u00e1rio de call center, por exemplo, \u00e9 totalmente controlada pelos empregadores. Inclusive os momentos de pausa, que s\u00e3o poucos&#8230; este modo de se relacionar com os empregados virou uma tend\u00eancia?<\/strong><\/p>\n<p>Claro, e \u00e9 chocante pensar que em pleno 2012 ainda vemos por a\u00ed problemas com intervalos at\u00e9 mesmo para ir ao banheiro. Geralmente, estes funcion\u00e1rios s\u00f3 podem ir quando tem algu\u00e9m para cobrir o servi\u00e7o no seu lugar. Uma hora a situa\u00e7\u00e3o entra em colapso. A forma atual de pensar pol\u00edticas para as empresas levam em considera\u00e7\u00e3o o per\u00edodo de crise, um pensamento neoliberal. Pensa-se na quantidade de trabalho, mas n\u00e3o no indiv\u00edduo. Todas as mudan\u00e7as econ\u00f4micas no mundo se refletem na quest\u00e3o do trabalho, e quem sempre paga a conta da gan\u00e2ncia \u00e9 o trabalhador.<\/p>\n<p>Desde o momento em que ele \u00e9 n\u00e3o somente superexplorado, mas quando ele s\u00f3 vale para a empresa enquanto tem sa\u00fade. Mas nesta condi\u00e7\u00e3o, me diga: como ele pode manter a sa\u00fade? H\u00e1 uma contradi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Certa vez, um trabalhador qu\u00edmico me disse algo que vale muito para o agora. Ele reclamou que a luta n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 pelos sal\u00e1rios, mas pela manuten\u00e7\u00e3o do trabalho. A preocupa\u00e7\u00e3o de conseguir se manter no emprego. Esperava que n\u00e3o cheg\u00e1ssemos a este ponto, mas chegamos.<\/p>\n<p><strong>E \u00e9 um desafio aos sindicatos&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 um desafio para cada categoria, aos trabalhadores como um todo. \u00c9 estar vendo n\u00e3o s\u00f3 a quest\u00e3o de sa\u00fade em si, mas o que est\u00e1 causando a deteoriza\u00e7\u00e3o da sa\u00fade dos trabalhadores. Por que h\u00e1 uma destrui\u00e7\u00e3o cada vez maior das rela\u00e7\u00f5es de trabalho? Se n\u00e3o tem sa\u00fade, ele (o trabalhador) vai perder o emprego. E vai ter uma rela\u00e7\u00e3o de precaridade dentro da pr\u00f3pria casa. \u00c9 um efeito domin\u00f3.<\/p>\n<p><strong>H\u00e1 uma discuss\u00e3o quanto ao crescimento constante do emprego e, ao mesmo tempo, a preocupa\u00e7\u00e3o sobre a qualidade deles ao trabalhador. Como voc\u00ea v\u00ea o assunto?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 uma quest\u00e3o que me incomoda muito ultimamente esta do pleno emprego. A\u00ed eu pergunto: que pleno emprego \u00e9 este que os trabalhadores est\u00e3o tendo e adoecendo cada vez mais? \u00c9 um ciclo depressivo tanto na quest\u00e3o do sistema capitalista mundial, mas tamb\u00e9m das rela\u00e7\u00f5es de trabalho. Para mim, a coisa \u00e9 muito cr\u00edtica e exige enquanto movimento organizado pensar al\u00e9m. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 esta a discuss\u00e3o, tudo envolve um sistema pol\u00edtico. Se eu fosse resumir em uma palavra, eu diria que nunca foi t\u00e3o necess\u00e1rio construir uma nova sociedade com um novo olhar, que n\u00e3o d\u00ea privil\u00e9gio a um grupo de fam\u00edlias que comandam o planeta.<\/p>\n<p>Fonte: <strong><a href=\"http:\/\/www.redebrasilatual.com.br\/temas\/trabalho\/2012\/05\/trabalhar-sob-estresse-afeta-a-vida-familiar-diz-medica\" target=\"_blank\">Rede Brasil Atual<\/a><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para a m\u00e9dica do trabalho Margarida Barreto, o endurecimento nas rela\u00e7\u00f5es entre empregador e funcion\u00e1rio provoca desprazer e barra a<span class=\"excerpt-hellip\"> [\u2026]<\/span><\/p>\n","protected":false},"author":6,"featured_media":11333,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[10],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11332"}],"collection":[{"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11332"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11332\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11332"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11332"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11332"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}