{"id":14728,"date":"2012-07-29T23:05:16","date_gmt":"2012-07-30T02:05:16","guid":{"rendered":"https:\/\/fenaprf.org.br\/?p=14728"},"modified":"2012-07-29T23:05:16","modified_gmt":"2012-07-30T02:05:16","slug":"nao-sirvo-sirvo-me","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/nao-sirvo-sirvo-me\/","title":{"rendered":"N\u00e3o sirvo, sirvo-me"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><em><strong>Por Jo\u00e3o Ubaldo Ribeiro<\/strong><\/em><\/p>\n<div id=\"attachment_14729\" style=\"width: 235px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"https:\/\/fenaprf.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/joao_ubaldo_ribeiro.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-14729\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-14729\" title=\"joao_ubaldo_ribeiro\" src=\"https:\/\/fenaprf.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/joao_ubaldo_ribeiro-225x300.jpg\" alt=\"\" width=\"225\" height=\"300\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-14729\" class=\"wp-caption-text\">Jo\u00e3o Ubaldo Ribeiro | Foto: Divulga\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<p>Acho que todo mundo j\u00e1 se intrigou, ou se intriga a cada dia, com a constata\u00e7\u00e3o de que a vida p\u00fablica, segundo os que exercem o poder pol\u00edtico, \u00e9 dur\u00edssima e exige todo tipo de sacrif\u00edcio e, n\u00e3o obstante, ningu\u00e9m que est\u00e1 no poder quer deix\u00e1-lo. \u00c9 um paradoxo curioso e n\u00e3o duvido que, entre parlamentares, por exemplo, exista quem tenha a cara de pau de afirmar que com isso se demonstra o esp\u00edrito c\u00edvico do brasileiro, disposto a doar a pr\u00f3pria vida \u00e0 na\u00e7\u00e3o, pois, conforme est\u00e1 no Hino Nacional, quem adora a p\u00e1tria n\u00e3o teme a pr\u00f3pria morte, quanto mais algumas inconveni\u00eancias perfeitamente suport\u00e1veis para um esp\u00edrito forte, determinado e norteado por ideais.<\/p>\n<p>Estamos fartos de saber que \u00e9 tudo mentira e enrola\u00e7\u00e3o safada e que, entre n\u00f3s, o habitual para quem chega ao poder, em qualquer dos n\u00edveis da federa\u00e7\u00e3o, \u00e9 furtar de todas as formas conceb\u00edveis, desde material de escrit\u00f3rio a verbas p\u00fablicas, direta ou indiretamente, ou se beneficiar de sua condi\u00e7\u00e3o de maneira indevida, seja por meio de privil\u00e9gios legais mas indecentes, imorais e abusivos, seja por tr\u00e1fico de influ\u00eancia. Ningu\u00e9m tem ideal nenhum e muito menos se organiza em grupos ou partidos para procurar fazer valer princ\u00edpios ou visar ao bem comum. O neg\u00f3cio aqui no Brasil \u00e9 se fazer e tirar do mandato ou cargo p\u00fablico o maior proveito pessoal poss\u00edvel e todos os partidos obedecem a um mesmo manual de conduta, partido aqui n\u00e3o quer dizer nada.<\/p>\n<p>O poder engorda e os poderosos vivem bem-dispostos e cevados, com todos os dentes. Nenhum deles, evidentemente, admite que se apropria criminosamente do que n\u00e3o lhe pertence ou se aproveita de vantagens ileg\u00edtimas. Mas a parentela viceja e o patrim\u00f4nio prospera. Quantos, por este nosso Brasil afora, n\u00e3o s\u00e3o conhecidos em suas cidades como habilidos\u00edssimos ladr\u00f5es, que nasceram em fam\u00edlias para l\u00e1 de mal remediadas e hoje est\u00e3o entre as grandes fortunas dos Estados de onde vieram, ou mesmo do Brasil? Ou, se n\u00e3o est\u00e3o entre as grandes fortunas, se encontram entre os mais bem aquinhoados, com terreninhos, fazendinhas, apartamentozinhos e a fam\u00edlia toda &#8220;colocada&#8221;.<\/p>\n<p>E tamb\u00e9m, apesar dos percal\u00e7os da vida p\u00fablica, o poder com toda a certeza libera endorfinas formid\u00e1veis, de modo que seus ocupantes t\u00eam o riso f\u00e1cil, s\u00e3o generosos e de boa conviv\u00eancia, em paz com a vida. N\u00e3o sei se contribui para isso o fato de que os mais poderosos entre eles n\u00e3o t\u00eam, nem nunca v\u00e3o ter, problemas de moradia, problemas de aposentadoria ou problemas de tratamento de sa\u00fade, nunca entraram numa fila, nunca precisaram penar \u00e0 porta de reparti\u00e7\u00e3o nenhuma, nunca tiveram que se preocupar com o futuro e ficar\u00e3o impunes, com a fortuna intacta, n\u00e3o importa em que falcatruas sejam pilhados. \u00c9, deve favorecer um pouco a calma e a tranquilidade deles.<\/p>\n<p>J\u00e1 nos acostumamos a ver os nossos governantes &#8211; e lembro que parlamentar, seja senador, seja deputado estadual ou federal, assim como vereadores, \u00e9 governante &#8211; serem qualificados de lar\u00e1pios e ningu\u00e9m mais se espantar, ou mesmo se interessar, quando algu\u00e9m comenta que o governador Fulano \u00e9 ladr\u00e3o, o deputado Sicrano levou comiss\u00e3o em todas as obras de seu reduto eleitoral, o prefeito Beltrano tomou uma grana pesada de empreiteiras e imobili\u00e1rias, o desembargador Como-\u00e9-nome vendeu duas d\u00fazias de senten\u00e7as a peso d&#8217;oiro, o vereador Unha Grande cobra por servi\u00e7os legislativos e por a\u00ed vai, qualquer compatriota sabe essas coisas de cor, parecem fazer parte de nossa identidade. Talvez simbolicamente, pelo menos um governante nosso, o lulista Paulo Maluf, est\u00e1 sendo procurado pela Interpol e, se sair do Brasil, vai preso. Em verdade lhes digo: N\u00e3o se far\u00e1 justi\u00e7a enquanto essa lista da Interpol n\u00e3o contiver alguns milhares de nomes genuinamente brasileiros.<\/p>\n<p>Somos assim desde o nosso come\u00e7o. Em nossa vida p\u00fablica, muito raramente servir foi a diretriz, servir-se tem sido a norma. Nos Estados Unidos, por exemplo, o governo, diferentemente daqui, n\u00e3o costuma ocupar as principais manchetes. E as capitais, para surpresa de muitos, n\u00e3o s\u00e3o, como no Brasil, as maiores cidades de cada Estado. Ao contr\u00e1rio, s\u00e3o cidades pequenas, destitu\u00eddas de qualquer glamour e sem nada do movimento das grandes metr\u00f3poles. Aqui n\u00e3o, aqui, como se gravita em torno do Estado e do poder, onde o Estado se mete em tudo e a burocracia paras\u00edtica e dispendiosa, a gan\u00e2ncia fiscal, a roubalheira e a inefici\u00eancia fazem parte de um aparato secularmente estabelecido, as capitais s\u00e3o de longe as maiores cidades.<\/p>\n<p>Hoje deve ser mais f\u00e1cil roubar do que h\u00e1 relativamente poucos anos. A m\u00e1quina do Estado tornou-se um Leviat\u00e3 disforme e teratoide, em que ningu\u00e9m de fato se entende, nem lhe conhece os labirintos institucionais e jur\u00eddicos. O dinheiro \u00e9 cada vez mais vol\u00e1til e port\u00e1vel pelos ares, ningu\u00e9m sabe o tamanho e as ramifica\u00e7\u00f5es dos tent\u00e1culos da corrup\u00e7\u00e3o e ainda moramos num pa\u00eds com muitos munic\u00edpios onde, se quiser, o prefeito saca o dinheiro do governo, enfia-o na algibeira e se pirulita para sempre, j\u00e1 aconteceu. Ou \u00e0s vezes \u00e9 pegado, mas n\u00e3o d\u00e1 em nada, o processo rola indefinidamente, o senador Esse-Menino \u00e9 padrinho do rapaz, o juiz \u00e9 gente do senador, a acusa\u00e7\u00e3o faz corpo mole e, sabem como s\u00e3o essas coisas, o pessoal acaba esquecendo e n\u00e3o \u00e9 nem imposs\u00edvel que o indigitado, munido da b\u00ean\u00e7\u00e3o do padrinho de um punhado de ordens judiciais, se eleja prefeito novamente.<\/p>\n<p>Por essas raz\u00f5es e por outras, n\u00e3o deve causar espanto anunciarem tanto dinheiro para conquistar prefeituras min\u00fasculas e inexpressivas. Compra-se em grosso, \u00e9 exig\u00eancia da economia criada em torno das elei\u00e7\u00f5es, que envolve muitas atividades. N\u00e3o tem nada a ver com o interesse p\u00fablico. Bem verdade que quem acaba pagando somos n\u00f3s, mas foi combinado que n\u00e3o faz parte da democracia brasileira dar palpite sobre como gastam nosso dinheiro.<\/p>\n<p>Fonte: <a href=\"http:\/\/www.estadao.com.br\/noticias\/impresso,nao-sirvo--sirvo-me-,907503,0.htm\" target=\"_blank\">Estado de S. Paulo<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Jo\u00e3o Ubaldo Ribeiro Acho que todo mundo j\u00e1 se intrigou, ou se intriga a cada dia, com a constata\u00e7\u00e3o<span class=\"excerpt-hellip\"> [\u2026]<\/span><\/p>\n","protected":false},"author":6,"featured_media":14729,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[9,1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14728"}],"collection":[{"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14728"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14728\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14728"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14728"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14728"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}