{"id":16327,"date":"2012-09-04T11:20:05","date_gmt":"2012-09-04T14:20:05","guid":{"rendered":"https:\/\/fenaprf.org.br\/?p=16327"},"modified":"2012-09-04T11:20:05","modified_gmt":"2012-09-04T14:20:05","slug":"o-sindicato-mac-donalds","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/o-sindicato-mac-donalds\/","title":{"rendered":"O sindicato Mac-Donalds"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><em>Por <strong>*Roberto Ponciano<\/strong><\/em><\/p>\n<div class=\"mceTemp\">\n<dl id=\"attachment_16329\" class=\"wp-caption alignright\" style=\"width: 235px;\">\n<dt class=\"wp-caption-dt\"><a href=\"https:\/\/fenaprf.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/fenajufe_roberto_ponciano.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-16329\" title=\"fenajufe_roberto_ponciano\" src=\"https:\/\/fenaprf.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/fenajufe_roberto_ponciano-225x300.jpg\" alt=\"\" width=\"225\" height=\"300\" \/><\/a><\/dt>\n<dd class=\"wp-caption-dd\">Roberto Ponciano | Foto: Fenajufe<\/dd>\n<\/dl>\n<p>Que os sindicatos est\u00e3o burocratizados, \u00e9 lugar comum. Que os sindicatos t\u00eam dificuldades em se referenciar na base e mobiliz\u00e1-la, \u00e9 sabido at\u00e9 no reino mineral, que est\u00e3o perdendo o norte de um processo emancipat\u00f3rio e de uma pol\u00edtica classista, que v\u00e1 al\u00e9m do umbigo da categoria e carregue uma plataforma mais geral, que abarque a pol\u00edtica de toda a classe para toda a sociedade, tamb\u00e9m \u00e9 sabido e consabido. Todavia, h\u00e1 que se fazer reflex\u00e3o sobre o bloco hist\u00f3rico que est\u00e1 atravessando a classe trabalhadora, o caldo de cultura, \u201ccultura de massa\u201d, no sentido cr\u00edtico de Adorno, de Cultura feita pela ind\u00fastria cultural em que se insere esta base de trabalhadores (e, de certa forma, tamb\u00e9m, muitas vezes, acriticamente, as dire\u00e7\u00f5es sindicais), o que eu vou chamar neste ensaio de \u201csindicato Mac-Donalds\u201d.<\/p>\n<\/div>\n<p>Algu\u00e9m lembra da chegada do Mac-Donalds no Brasil? Eu era crian\u00e7a, e lembro at\u00e9 hoje da propaganda, do jingle, grudou no meu c\u00e9rebro, infelizmente, vou morrer e lembrar eternamente desta porcaria: \u201cdois hamb\u00fargueres, alface, queijo, molho especial, cebola, picles num p\u00e3o com gergelim\u201d. Era eficiente a propaganda, dava \u00e1gua na boca. Aparecia sempre uma menina simp\u00e1tica, sorridente, com uma uniforme limp\u00edssimo do Mac-Donalds, e tinha mais na propaganda: se em 3 minutos seu lanche n\u00e3o estivesse entregue, o Bic-Mac, as batatas fritas e a infal\u00edvel coca-cola, voc\u00ea n\u00e3o pagava; consumidor satisfeito, e sempre com a raz\u00e3o, acima de tudo. Corta a cena, 10 anos depois, uma das minhas primeiras namoradas trabalhava no Mac-Donalds. Sal\u00e1rio m\u00ednimo, sem direito \u00e0 Vale-Refei\u00e7\u00e3o (o \u201calmo\u00e7o\u201d era uma das porcarias de lanche do Mac-Donalds), 30 minutos de almo\u00e7o, correndo, suando, aprendendo \u201ctudo\u201d (que era um nada), um ser \u201cmulti-tarefa\u201d, fritar, obedecer, limpar, obedecer, sorrir, obedecer, cortar salada, obedecer, tomar esporro, obedecer, ter foto de funcion\u00e1rio do m\u00eas, obedecer. Os piores pesadelos de \u201cAdmir\u00e1vel mundo novo\u201d s\u00e3o reais na verdade. O ser Kafkaniano do <em>Castelo<\/em>, do <em>Processo<\/em> e da <em>Metamorfose<\/em>, existe. Se algu\u00e9m se filia a um sindicato no Mac-Donalds, em todo mundo, \u00e9 demitido, se reclama, \u00e9 demitido, se se atrasa, \u00e9 demitido. American <em>1984 Orwelliano<\/em> way off life.<\/p>\n<p>Mas os consumidores est\u00e3o satisfeitos. A coisa mais interessante no mundo moderno \u00e9 a redu\u00e7\u00e3o <em>ad absurdum<\/em> das pessoas a consumidores. Se o seu Big-mac atrasar, caro leitor consumidor est\u00fapido (\u201cnossa, que \u00e9 isto, o ensa\u00edsta est\u00e1 me chamando de est\u00fapido, de idiota, ele n\u00e3o pode fazer isto, o cliente tem sempre raz\u00e3o!!! Afinal, eu pago o sindicato!!!!\u201d, voc\u00ea me responder\u00e1), a culpa ser\u00e1 sempre de algum trabalhador explorado, mal pago, morador de favela, e com ele voc\u00ea ir\u00e1 gritar, colocar o dedo na cara, exigir o lanche infal\u00edvel do M do Palha\u00e7o em 3 minutos. A culpa nunca ser\u00e1 dos acionistas multimilion\u00e1rios e invis\u00edveis do Mac-Donalds, ou da sua pr\u00f3pria \u00e2nsia voraz, leitor alienado, de comer algo que \u00e9 bem mais propaganda que comida.<\/p>\n<p>Corta novamente, sindicato, 2012. Encontro de Comunica\u00e7\u00e3o da Fenajufe, escutei diversas vezes a frase: temos que agradar nossa clientela. Temos que agradar nossa clientela&#8230; temos que agradar nossa clientela. Vejam, na Fenajufe n\u00e3o h\u00e1 nenhum sindicato filiado \u00e0 For\u00e7a Sindical, \u00e0 UGT ou \u00e0s centrais ditas \u201cpelegas\u201d, os sindicatos que s\u00e3o filiados, ou s\u00e3o filiados \u00e0 CUT, ou \u00e0 Conlutas, em tese, duas centrais classistas. N\u00e3o, n\u00e3o precisam se assustar com o lugar comum, fiquem tranquilos, este ensaio n\u00e3o \u00e9 um daqueles enfadonhos artigos que vai falar da crise de representa\u00e7\u00e3o do sindicalismo, ou se o diretor da Central \u201cA\u201d tem a cueca mais vermelha que o diretor da Central \u201cB\u201d.<\/p>\n<p>Este artigo inverte o jogo, e vai analisar a categoria, sim, a categoria. Voc\u00ea, caro leitor est\u00fapido que me l\u00ea agora, homem branco est\u00fapido de classe m\u00e9dia, que l\u00ea Veja, escuta Bonner Simpson e acredita que o Jornal Nacional \u00e9 imparcial e fala a verdade. Nosso \u201cp\u00fablico alvo\u201d, nossos \u201cclientes em potenciais\u201d, que no caso dos sindicatos cada vez e mais se comportam como clientes do Mac-Donalds consumindo seus Big Macs. N\u00e3o conseguimos compreender o comportamento das dire\u00e7\u00f5es se n\u00e3o compreendemos que base esta dire\u00e7\u00e3o trabalha. Somos seres humanos hist\u00f3ricos, criados pelo caldo de cultura de nosso bloco hist\u00f3rico. Que seres humanos est\u00e3o sendo formados neste in\u00edcio de s\u00e9culo XXI, que \u201ccultura de massa\u201d os sindicatos enfrentam, que rela\u00e7\u00f5es se podem criar a partir da\u00ed? A declara\u00e7\u00e3o de que temos que \u201cagradar nossa clientela\u201d, \u201catingir nosso p\u00fablico alvo\u201d ou coisas afins, que seriam bastante estranhas a um dirigente de um sindicato da d\u00e9cada de 60, 70 ou 80.<\/p>\n<p>\u201cEnquanto brincam no gramado as mo\u00e7as chiques\/ Eu quero chuvas pra estragar o piquenique\/Eu n\u00e3o provei aquele tipo de xarope\/ Que est\u00e1 por cima nas pesquisas do IBOPE\/ Eu estou remando rio acima por prazer\/ N\u00e3o h\u00e1 nada a desculpar, foi por querer\/ Me passe o sal pra botar na sobremesa\/ O Grande P\u00fablico cansou minha beleza\u201d, esta m\u00fasica da dupla Aldir Blanc\/Jo\u00e3o Bosco, revela o caldo de cultura de uma outra \u00e9poca hist\u00f3rica. N\u00e3o te chamei, caro leitor, de est\u00fapido, bo\u00e7al, idiota, alienado, imbecil, consumidor ac\u00e9falo \u00e0 toa. Deve estar com vontade de fechar este texto no seu lap-top\/computador, ou de rasgar o papel e me chamar para a porrada, ou melhor, me processar por danos morais. A inten\u00e7\u00e3o era esta. Te perturbar, te molestar, colocar formigas e moscas varejeiras no teu piquinique chique. Enquanto na d\u00e9cada de 60, no auge da contracultura, n\u00e3o havia por parte nem dos escritores, nem dos m\u00fasicos, nem das lideran\u00e7as de \u201cagradar a clientela\u201d, as lideran\u00e7as sindicais passaram por uma metamorfose\/adapta\u00e7\u00e3o e agora precisam \u201cagradar a clientela\u201d, atingir o \u201cp\u00fablico alvo\u201d. Pesquisas de markenting e aulas com marqueteiros muitas vezes substituem os livros de Gramsci, Lenin, Rosa Luxemburgo, Marx, etc. O trabalhador virou consumidor e seu sindicato \u00e9 cada vez mais uma institui\u00e7\u00e3o, cada vez menos sindicato.<\/p>\n<p>Sindicato \u00e9 \u00f3rg\u00e3o de media\u00e7\u00e3o de classe, \u00f3rg\u00e3o de luta Capital x Trabalho, \u00f3rg\u00e3o de regula\u00e7\u00e3o da explora\u00e7\u00e3o da for\u00e7a-de-trabalho e da mais-valia. \u00c9 \u00f3rg\u00e3o pol\u00edtico. N\u00e3o \u00e9 partido pol\u00edtico, n\u00e3o faz a disputa de hegemonia na sociedade, quem faz isto \u00e9 outro sujeito coletivo, os partidos. \u00c9 fato que partidos que n\u00e3o conseguem se representar na sociedade utilizam os sindicatos como correias de transmiss\u00e3o e tentam us\u00e1-los para tentar passar suas pol\u00edticas, de forma sub-rept\u00edcia, isto foge, todavia, ao escopo deste ensaio. Todavia, afirmo que sequer os sindicatos hegemonizados por estes partidos de extrema-esquerda, que sequer tem 1% do eleitorado brasileiro, escapam da sina do sindicato Mac-donalds. Nos sindicatos Mac-donalds, o investimento em lazer, sede campestre, festas, conv\u00eanios s\u00e3o dezenas de vezes maiores que em forma\u00e7\u00e3o. N\u00e3o falo em luta pol\u00edtica, porque a luta por maiores sal\u00e1rios n\u00e3o retira do sindicato o r\u00f3tulo de sindicato Mac-donalds. Querer ganhar mais para consumir mais, ainda que esteja de forma direta relacionado \u00e0 quest\u00e3o da regula\u00e7\u00e3o capital x trabalho, est\u00e1 completamente subsumido a um estilo pol\u00edtico de manuten\u00e7\u00e3o do <em>status quo<\/em>, que faz do sindicato a correia de transmiss\u00e3o do estilo de vida ganhar mais para consumir mais e assim ser um consumidor voraz melhor adaptado. Isto nada tem que ver com pol\u00edtica emancipat\u00f3ria, seja o sindicato da CUT, Conlutas, For\u00e7a Sindical, UGT, PQP, etc&#8230;<\/p>\n<p>A l\u00f3gica \u00e9 perversa. Aqueles sindicatos que conseguem organizar a categoria para lutar, efetivamente s\u00f3 conseguem lutar por melhores sal\u00e1rios ou benef\u00edcios. N\u00e3o h\u00e1 nestes sindicatos nenhuma discuss\u00e3o de classe, consci\u00eancia de classe, conte\u00fado de classe, vis\u00e3o para al\u00e9m do umbigo sindical. A l\u00f3gica \u00e9 de fazer melhores acordos coletivos com ganhos salariais maiores e ponto final. Em muitos sindicatos os aposentados e pensionistas chegam a ser sacrificados, numa l\u00f3gica de se fazer acordo somente para os trabalhadores \u201cativos\u201d, seja na famigerada pol\u00edtica de \u201cdivis\u00e3o de lucros\u201d (que faz o trabalhador realmente acreditar que \u00e9 poss\u00edvel um acordo entre lobos e ovelhas), ou em aumentos em valores que s\u00f3 s\u00e3o pagos durante a vida ativa do trabalhador, apenado os aposentados e pensionistas (no caso de servidores p\u00fablicos que teriam direito a estes aumentos) ou aos licenciados por sa\u00fade, no caso das empresas privadas. \u00c9 perversa, porque pervertida. Como n\u00e3o h\u00e1 mais discuss\u00e3o de classe, de pertencer, de fazer parte, n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para discuss\u00f5es classistas.<\/p>\n<p>Afinal de contas, o que diabos \u00e9 \u201cdivis\u00e3o de lucros\u201d? \u00c9 o supra sumo do entreguismo de classe. \u00c9 garantir para os trabalhadores que \u00e9 poss\u00edvel sim, numa sociedade capitalista, dividida por classes, nos quais as barreiras invis\u00edveis de classe s\u00e3o fort\u00edssimas e n\u00e3o s\u00e3o quebradas por acordos trabalhistas, \u201cdividir os lucros\u201d entre patr\u00f5es e trabalhadores.<\/p>\n<p>Assim, os trabalhadores, em lugar de lutar por melhores sal\u00e1rios, que n\u00e3o s\u00e3o quota-parte do lucro e tem de ser pagos haja lucro ou preju\u00edzo, s\u00e3o levados a hipotecar uma solidariedade de classe a seus patr\u00f5es, se na l\u00f3gica fraudulenta da contabilidade das empresas capitalistas, os patr\u00f5es usarem 99,99% do lucro da empresa para fazerem \u201creinvestimentos\u201d na produ\u00e7\u00e3o e destinarem aos trabalhadores, 0,01% do lucro restante, para ser partilhado entre as centenas ou os milhares de trabalhadores, os sindicato Mac-Donalds, que assim usurpou o direito aos trabalhadores de incorporarem estes ganhos ao seu sal\u00e1rio ou aposentadoria e de ter definitivo avan\u00e7ado na quest\u00e3o da luta contra a explora\u00e7\u00e3o de classe, vai celebrar isto como avan\u00e7o. No fim das contas \u00e9 mais dinheiro que entra, mais consumo, algo mais que se compra e o trabalhador rebaixado novamente \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de mero consumidor, confundindo sua rela\u00e7\u00e3o com o patr\u00e3o, que \u00e9 de explora\u00e7\u00e3o e de luta, numa rela\u00e7\u00e3o de ganho e consumo. Nesta linha, a substitui\u00e7\u00e3o de sal\u00e1rios por ganhos, nos quais os trabalhadores ficam instigados a trabalhar mais, para ganhar mais. Nesta linha do sindicato Mac-Donalds, os direitos v\u00e3o sendo mitigados e os trabalhadores cada vez mais sentem-se quota-parte da classe burguesa. Descanso aos Domingos? N\u00e3o, hora-extra! Em lugar de o sindicato lutar para garantir um sal\u00e1rio igual sem trabalho dominical, o sindicato alardeia que com o trabalho aos domingos e 100% de hora extra o trabalhador que virou um pequeno-patr\u00e3o-consumidor (na ilus\u00e3o pueril de sua fantasia oligofr\u00eanica) vai ganhar mais, trabalhando mais. Assim, em lugar de se tirar um sal\u00e1rio maior da luta e da conten\u00e7\u00e3o da explora\u00e7\u00e3o, o sal\u00e1rio maior vem de uma explora\u00e7\u00e3o e de um sacrif\u00edcio maiores. Jornadas de trabalho de 10, 12 horas, revivendo os piores momentos da Revolu\u00e7\u00e3o Industrial, com o benepl\u00e1cito t\u00e1cito dos pr\u00f3prios trabalhadores silenciados por este caldo de cultura, j\u00e1 que, por exemplo, no Com\u00e9rcio de Shopping Centers e afins, o sal\u00e1rio foi dilu\u00eddo e os ganhos proveem da venda de cada produto. O trabalhador, na pior l\u00f3gica da Avon, fica ele respons\u00e1vel pelo seu pr\u00f3prio sal\u00e1rio e destino. Assim, uma semana ruim, ou um m\u00eas ruim de trabalho, n\u00e3o \u00e9 debitado na conta do patr\u00e3o, que teria de diminuir seu lucro para pagar o sal\u00e1rio averbado, mas sim da sorte-rev\u00e9s do pr\u00f3prio trabalhador, que vira competidor desigual de seus pares, haja vista que o \u00fanico objetivo de sua vida \u00e9 conseguir vender, para lucrar, para novamente consumir.<\/p>\n<p>Alguns v\u00e3o me obliterar e dizer que esta l\u00f3gica s\u00f3 vale para sindicatos que trabalham com lucro por venda. Reafirmo que n\u00e3o \u00e9 verdade, j\u00e1 coloquei aqui claramente ramos sindicais que trabalham o PLR, que tem uma gama infinita, que passa por sindicatos de produ\u00e7\u00e3o de diversos setores, auto-pe\u00e7as, petr\u00f3leo, qu\u00edmica, banc\u00e1rios e que basicamente v\u00e3o abarcando toda a cadeia de produ\u00e7\u00e3o basicamente com exce\u00e7\u00e3o do setor informal. No setor p\u00fablico, a l\u00f3gica da luta apenas pelo sal\u00e1rio, com partes da categoria sacrificando conquistas hist\u00f3ricas (veja o movimento pr\u00f3-subs\u00eddio no Judici\u00e1rio e MPU que \u00e9 capaz de sacrificar conquistas hist\u00f3ricas para privilegiar apenas uma parte da categoria), com aumentos s\u00f3 em gratifica\u00e7\u00f5es, que n\u00e3o s\u00e3o repassadas ao aposentados ou de setores da categoria (quando o Governo sinaliza aumento s\u00f3 para os professores das universidades, sacrificando todo o restante dos trabalhadores da base universit\u00e1ria), mostra que a l\u00f3gica \u00e9 puramente monet\u00e1ria.<\/p>\n<p>A grande verdade \u00e9 que por baixo da ret\u00f3rica \u201cclassista\u201d tudo que \u201cincomode\u201d a categoria, tudo que cause pol\u00eamica, tudo que perturbe a rela\u00e7\u00e3o de consumo, a rela\u00e7\u00e3o, trabalhador sindicalizado\/consumidor x Mac-donalds \u00e9 sacrificada. Temas pol\u00eamicos nas revistas, nas p\u00e1ginas ou nos debates internos s\u00e3o abafados. As pautas chamadas transversais, como o racismo, a homofobia, o machismo, o aborto, as quotas, em geral aparecem nas plen\u00e1rias e ou congressos, que mais parecem movimentos cat\u00e1rticos. Nestes momentos de culto, a vanguarda da categoria esbo\u00e7a seus altos v\u00f4os te\u00f3ricos e se digladia duelando sobre temas que no dia seguinte \u00e0 plen\u00e1ria ser\u00e3o sacrificados, jogados \u00e0s tra\u00e7as, para reaparecerem em outras plen\u00e1rias, novamente. Qualquer pol\u00edtica de controle da explora\u00e7\u00e3o do trabalho, com redu\u00e7\u00e3o da jornada, enquanto a l\u00f3gica for de sindicato Mac-donalds, fica fadada ao fracasso. No sindicato Mac-donalds, as rela\u00e7\u00f5es com a categoria n\u00e3o prev\u00eaem nenhuma contradi\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica, nenhum embate. A vanguarda, que \u00e9 vanguarda s\u00f3 de nome, tem uma posi\u00e7\u00e3o vanguardista ol\u00edmpica, n\u00e3o indo para a disputa na base das concep\u00e7\u00f5es da plataforma dos trabalhadores. Assim, em tese, os sindicatos defendem a redu\u00e7\u00e3o da jornada, a luta pelas seis horas, mas todas as vezes que sentam para sentar e negociar, a primeira coisa que \u00e9 sacrificada \u00e9 a redu\u00e7\u00e3o\/regula\u00e7\u00e3o de jornada, ora por conta dos aumentos, para n\u00e3o \u201catrapalhar os aumentos \u201c (ainda que redu\u00e7\u00e3o de jornada seja aumento salarial direto), ora para n\u00e3o atrapalhar as \u201cdivis\u00f5es anuais de lucro\u201d (ou seja, o direito \u00e9 vendido na mesa de negocia\u00e7\u00e3o), ora trocado por aumento nos percentuais de horas extras (novamente um direito vendido na l\u00f3gica de trabalhador como pequeno-patr\u00e3o co-respons\u00e1vel pela empresa).<\/p>\n<p>Vanguardismo n\u00e3o \u00e9 vanguarda. Os sindicatos Mac-donalds, de todas as matizes, trabalham na l\u00f3gica da popularidade, elei\u00e7\u00e3o, manuten\u00e7\u00e3o das m\u00e1quinas sindicais. Assim, qualquer tema pol\u00eamico, que porventura atrapalhe a hegemonia (vista apenas e t\u00e3o somente como hegemonia eleitoral) tem que ser sacrificado \u00e0 base. Num basismo contradit\u00f3rio da l\u00f3gica da ind\u00fastria cultural. Base a\u00ed n\u00e3o \u00e9 vista como o conjunto dos trabalhadores de base, que necessita do sindicato como \u00f3rg\u00e3o de intermedia\u00e7\u00e3o para entender e despertar para a luta de classes, base a\u00ed \u00e9 vista como o senso-comum dilu\u00eddo, que vota de tempos em tempos para manter um grupo na m\u00e1quina sindical. N\u00e3o \u00e9 \u00e0-toa que nos eventos culturais dos diversos sindicatos, que vivem reclamando da hegemonia da Globo, mas que reproduzem em suas festas a cultura hegemonizada de massa, e \u00e9 um tal de Michel Tel\u00f3, \u201ceu quero tchu, eu quero tch\u00e1\u201d, nos momentos em que o sindicato deveria ter uma cara de defesa da cultura popular contra-hegem\u00f4nica. E a\u00ed daqueles que levantarem estas contradi\u00e7\u00f5es, correm o risco de serem chamados de \u201celitistas\u201d na pior vers\u00e3o \u201cFaust\u00e3o\/Boninho\u201d de ind\u00fastria cultural, de que o povo gosto mesmo \u00e9 de porcaria. Os sindicatos introjetam as vis\u00f5es hegem\u00f4nicas e nem se d\u00e3o conta.<\/p>\n<p>Assim, qualquer trabalho de contra-hegemonia e de consci\u00eancia de classe pode ser contraproducente eleitoralmente e deixado de lado. Por isto se gasta dez vezes mais em sede campestre que em forma\u00e7\u00e3o, por isto se gasta dez vezes mais que em num setor jur\u00eddico de resultados do que numa imprensa de forma\u00e7\u00e3o, por isto que as grandes pautas de classe, e qualquer luta contra-hegem\u00f4nica \u00e9 sempre sacrificada na l\u00f3gica de n\u00e3o assustar o eleitor para daqui a dois ou tr\u00eas anos. N\u00e3o se falar\u00e1, por exemplo, na persegui\u00e7\u00e3o aos cultos afro-brasileiros e na necessidade de defesa do Estado Laico, numa base com perfil religioso cat\u00f3lico ou protestante conservador e se deixar\u00e1 de lado a pauta da emancipa\u00e7\u00e3o feminina ou do aborto. N\u00e3o se pode molestar a clientela.<\/p>\n<p>No sindicato Mac-Donalds, os dirigentes sindicais abrem m\u00e3o de ser vanguarda e viram administradores viciados na m\u00e1quina e preocupados que esta mesma m\u00e1quina funcione como uma empresa. Assim, na rela\u00e7\u00e3o de respostas, por e-mail, facebook, ou de qualquer maneira de abordagem direta, o dirigente vira uma esp\u00e9cie de ombusdman, que n\u00e3o tem voz ou opini\u00e3o, mas como um atendente de telemarkenting deve sempre dar a maior satisfa\u00e7\u00e3o ao cliente (diga-se de passagem que n\u00e3o h\u00e1 nenhum trabalhador mais explorado que o trabalhador de telemarketing, a vers\u00e3o moderna e sem direitos de uma senzala). Qualquer resposta provocativa, cr\u00edtica, ir\u00f4nica, sarc\u00e1stica do diretor o torna um p\u00e9ssimo ombusman. Ele n\u00e3o \u00e9 mais dirigente, n\u00e3o est\u00e1 ali para disputar cora\u00e7\u00f5es e mentes, para fazer o debate, ele est\u00e1 ali para entregar o hamb\u00farguer, o big-mac em tr\u00eas minutos. E na l\u00f3gica pervertida do trabalhador-consumidor, qualquer coisa que d\u00ea errado no big-mac a culpa passa a ser do dirigente. Como n\u00e3o raciocina, n\u00e3o se v\u00ea, n\u00e3o tem pertencimento de classe, n\u00e3o faz an\u00e1lise de nenhuma conjuntura, este trabalhador-consumidor quer apenas seu aumento, nada mais. Assim, o diretor, agora vendedor de big-macs tem que apenas entregar o aumento. Ser\u00e1 bom ou ruim se entregar o aumento ao trabalhador, seja na forma que for, tudo o mais pouco importa. Poder\u00e1 ser pelego, de direita ou de esquerda, desonesto, o que for, a rela\u00e7\u00e3o com ele \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o de consumo, n\u00e3o uma rela\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de media\u00e7\u00e3o-consci\u00eancia, ou sindicato deixou de ser um ente-pol\u00edtico, agora \u00e9 uma empresa como qualquer outra que tem de entregar seu produto (o aumento) no momento em que o consumidor pedir. As lutas n\u00e3o s\u00e3o coletivas, s\u00e3o delegadas, constroem-se greves ausentes, em que a vanguarda \u00e9 substitu\u00edda por profissionais contratados pelo sindicato e a rela\u00e7\u00e3o com o sindicato \u00e9 sazonal, restrita apenas \u00e0 \u00e9poca do aumento\/diss\u00eddio.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel sindicatos constru\u00edrem lutas emancipat\u00f3rias de quaisquer tipos enquanto n\u00e3o tiverem a coragem de se tornarem impopulares num primeiro momento e destru\u00edrem a l\u00f3gica de sindicato Mac-Donalds. Para isto a constru\u00e7\u00e3o de uma vanguarda real, que dispute cora\u00e7\u00f5es e mentes na base, no cotidiano, \u00e9 fundamental. Sem o vanguardismo est\u00fapido de se construir pol\u00edticas de vanguarda s\u00f3 para as plen\u00e1rias e congressos, mas disputar estas pol\u00edticas no dia a dia, construindo uma s\u00f3lida consci\u00eancia de classe. Sem o basismo obreirista de ver a base como intoc\u00e1vel, na verdade, a base reduzida ao mero papel de consumidora votante, que oferta o voto e em lugar recebe o aumento, mas na vis\u00e3o de base de categoria como trabalhadores nos quais se constr\u00f3i a consci\u00eancia de classe. Ou enfrentamos e revertemos, com contracultura de classe a ideia de sindicato de consumidores para construirmos uma emancipat\u00f3ria de trabalhadores co-participantes, constituintes de consci\u00eancia e unidade de classe, ou n\u00e3o conseguiremos construir qualquer pol\u00edtica emancipat\u00f3ria e projeto de pa\u00eds. Esta organiza\u00e7\u00e3o de sindicatos Mac-Donalds n\u00e3o nos serve, necessitamos de outra, de sindicatos formadores e combatentes construtores de um perfil classsista e emancipat\u00f3rio.<\/p>\n<p><strong><em>*Roberto Ponciano <\/em><\/strong><em>\u00e9 diretor do Sisejufe-RJ, escritor, mestre em filosofia, com especialidade na \u00e1rea da \u00e9tica.<\/em><\/p>\n<p>Fonte: <a href=\"http:\/\/fenajufe.org.br\/index.php\/imprensa\/artigos\/454-o-sindicato-mac-donalds\" target=\"_blank\">Fenajufe<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por *Roberto Ponciano Roberto Ponciano | Foto: Fenajufe Que os sindicatos est\u00e3o burocratizados, \u00e9 lugar comum. 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