{"id":16337,"date":"2012-09-04T14:44:30","date_gmt":"2012-09-04T17:44:30","guid":{"rendered":"https:\/\/fenaprf.org.br\/?p=16337"},"modified":"2012-09-04T14:44:30","modified_gmt":"2012-09-04T17:44:30","slug":"os-caes-de-guarda-estao-soltos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/os-caes-de-guarda-estao-soltos\/","title":{"rendered":"Os &#8216;c\u00e3es de guarda&#8217; est\u00e3o soltos"},"content":{"rendered":"<p>Por *Celso Vicenzi<\/p>\n<div id=\"attachment_16338\" style=\"width: 235px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"https:\/\/fenaprf.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/jornalista_celso-vicenzi.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-16338\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-16338\" title=\"jornalista_celso-vicenzi\" src=\"https:\/\/fenaprf.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/jornalista_celso-vicenzi-225x300.jpg\" alt=\"\" width=\"225\" height=\"300\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-16338\" class=\"wp-caption-text\">Celso Vicenzi | Foto: S\u00edtio da UFSC<\/p><\/div>\n<p>A reportagem de capa da revista Isto\u00c9, edi\u00e7\u00e3o 2.233, de 29 de agosto\u00a0 (\u201dQuem s\u00e3o os grevistas que desafiam o Brasil\u201d) \u00e9 reveladora do modelo de jornalismo praticado em solo nacional, aquele que j\u00e1 sai das reda\u00e7\u00f5es com a tese pronta, s\u00f3 faltando encaixar os personagens. O \u201dgancho\u201d que sustenta praticamente toda a reportagem s\u00e3o os altos sal\u00e1rios das lideran\u00e7as sindicais do servi\u00e7o p\u00fablico federal. Agora virou crime ser profissional qualificado e ganhar bem. E com um detalhe: concursado, ou seja, por m\u00e9rito! A tese \u00e9 lapidar: quem ganha bons sal\u00e1rios n\u00e3o pode fazer greve!<\/p>\n<p>Primeiro, \u00e9 preciso corrigir a distor\u00e7\u00e3o. A maior parte dos servidores recentemente em greve \u00e9 formada pelos que menos ganham no funcionalismo p\u00fablico federal, mas a revista preferiu buscar exemplos de categorias que ganham mais, para caracterizar o servi\u00e7o p\u00fablico federal como uma casta de privilegiados. Desde o governo Fernando Henrique Cardoso, a maior parte dos servidores acumula perdas substanciais para a infla\u00e7\u00e3o (e o arrocho vai continuar, pois o governo pressionou \u2013 com o apoio da m\u00eddia \u2013 e p\u00f4s fim \u00e0 greve). Ofereceu 15,8% a ser pago em tr\u00eas anos. Menos do que a infla\u00e7\u00e3o prevista para o per\u00edodo.<\/p>\n<p>H\u00e1 outras categorias profissionais, com menor poder aquisitivo e que mereceriam reajustes? Certamente! Cabe a cada categoria de trabalhadores saber como se organizar e reivindicar. E ao governo compete a tarefa pol\u00edtica de ter uma pol\u00edtica econ\u00f4mica e social muito mais transformadora do que a atual \u2013 que tem por m\u00e9rito ser melhor do que as anteriores, mas longe ainda de superar os desafios abissais da concentra\u00e7\u00e3o de renda no pa\u00eds.<\/p>\n<p>A reportagem de Isto\u00c9 acusa o \u201dnovo sindicalismo\u201d de \u201daus\u00eancia de conte\u00fado pol\u00edtico nas manifesta\u00e7\u00f5es\u201d porque busca resultados financeiros. Ora, ora, para que servem os sindicatos? E pensar que no passado acusavam os sindicalistas justamente pelo conte\u00fado pol\u00edtico! E n\u00e3o vamos nos esquecer dos sindicatos patronais, que atuam muito bem, obrigado! E n\u00e3o \u00e9 pouco o que conseguem do caixa do governo, embora suas demandas nem sempre s\u00e3o divulgadas e, muito menos, criticadas. S\u00f3 a hipocrisia da m\u00eddia parece n\u00e3o mudar nunca.<\/p>\n<p>O final da reportagem \u00e9 clich\u00ea: \u201cReivindicar melhores sal\u00e1rios \u00e9 leg\u00edtimo, o que n\u00e3o \u00e9 certo \u00e9 deixar um pa\u00eds inteiro ref\u00e9m do movimento\u201d. Ou seja, repetem sempre que a greve \u00e9 um direito constitucional, mas n\u00e3o pode causar problemas a ningu\u00e9m, nem ao governo, nem aos empres\u00e1rios, nem \u00e0 popula\u00e7\u00e3o. Sobre a responsabilidade do governo, nenhuma palavra. Neste pa\u00eds dos absurdos, \u00e9 garantido o direito \u00e0 greve, s\u00f3 n\u00e3o se pode exerc\u00ea-lo (sem ser duramente atacado pela m\u00eddia). O governo sinaliza com um projeto de lei no Congresso para regulamentar as greves no servi\u00e7o p\u00fablico. N\u00e3o era sem tempo. Mas algu\u00e9m a\u00ed duvida que sobrar\u00e1 para os trabalhadores apenas \u00f4nus e nenhum b\u00f4nus? As consequ\u00eancias, para a qualidade do servi\u00e7o p\u00fablico, com os servidores, na pr\u00e1tica, impedidos de fazer greve, n\u00e3o tardar\u00e1 por se fazer sentir, em preju\u00edzo da popula\u00e7\u00e3o. E da democracia!<\/p>\n<p>Enquanto isso, ningu\u00e9m debate os lucros em benef\u00edcios de poucos que fazem do Brasil um dos pa\u00edses com a pior distribui\u00e7\u00e3o de renda. Como se entre uma coisa e outra n\u00e3o houvesse rela\u00e7\u00e3o de causa e efeito. Para se chegar a tanta explora\u00e7\u00e3o, o que se faz, basicamente, \u00e9 transferir a renda (de todos os n\u00edveis de trabalhadores) para uma pequena parcela da popula\u00e7\u00e3o. \u00c9 por isso que, cada vez que os trabalhadores \u2013 p\u00fablicos ou privados \u2013 tentam reivindicar uma maior participa\u00e7\u00e3o na distribui\u00e7\u00e3o da riqueza nacional, s\u00e3o duramente atacados, sob pretextos que n\u00e3o se sustentam numa an\u00e1lise mais apurada dos fatos. An\u00e1lise que a m\u00eddia nunca faz com a isen\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria, ou ter\u00edamos um outro pa\u00eds.<\/p>\n<p>Se os servi\u00e7os p\u00fablicos \u2013 no todo ou em parte \u2013 s\u00e3o essenciais, precisam de uma legisla\u00e7\u00e3o que igualmente os trate assim. No entanto, at\u00e9 hoje, o governo n\u00e3o reconhece uma data-base para negociar e n\u00e3o tem por h\u00e1bito repor a infla\u00e7\u00e3o anual aos sal\u00e1rios, como se o funcionalismo p\u00fablico federal n\u00e3o tivesse contas a pagar (que obviamente acompanham a infla\u00e7\u00e3o, ou, mesmo, aumentam acima dela). Alguns \u201cpatr\u00f5es\u201d, tanto da esfera privada quanto p\u00fablica, s\u00f3 negociam de fato com greve. Antes disso, as negocia\u00e7\u00f5es costumam ser apenas um jogo de apar\u00eancias. Desde mar\u00e7o, houve mais de 200 reuni\u00f5es de v\u00e1rias categorias de servidores com o governo federal; no\u00a0 linguajar dos grevistas, praticamente s\u00f3 \u201denrola\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>E para quem ainda n\u00e3o entendeu esse jogo, \u00e9 bom esclarecer que o governo \u00e9 parte atuante nesse modelo de pa\u00eds excludente. Transfere a maior parte do que arrecada para alimentar uns poucos tubar\u00f5es: somente em 2011 foram gastos R$ 708 bilh\u00f5es com a \u201dd\u00edvida p\u00fablica\u201d (leia-se ganhos dos bancos e outros aplicadores, principalmente em pap\u00e9is). Isso sem falar em isen\u00e7\u00f5es, subs\u00eddios, perd\u00e3o de d\u00edvidas, doa\u00e7\u00f5es de terrenos e im\u00f3veis, financiamentos a juros \u201despeciais\u201d etc. etc.<\/p>\n<p>E antes que algu\u00e9m se desinforme ainda mais: em 1995 o governo federal gastava, com a folha de sal\u00e1rios do funcionalismo, 56% do que arrecadava; em 2011 gastou 32%. Esse \u201cesc\u00e2ndalo\u201d a m\u00eddia n\u00e3o v\u00ea, porque distorce os fatos. E continua a falar em gastos excessivos do governo com os trabalhadores. \u00c9 f\u00e1cil enganar a opini\u00e3o p\u00fablica com exemplos isolados e descontextualizados. Ainda mais para uma popula\u00e7\u00e3o que se informa basicamente pela TV e pelos grandes jornais e revistas \u2013 que demonstram cada vez menos independ\u00eancia pol\u00edtica e apre\u00e7o por uma informa\u00e7\u00e3o mais abrangente dos fatos, mais verdadeira.\u00a0 S\u00e3o os \u201dc\u00e3es de guarda\u201d do grande capital, a servi\u00e7o da explora\u00e7\u00e3o m\u00e1xima do planeta e dos trabalhadores.<\/p>\n<p><em><strong>*Celso Vicenzi<\/strong> \u00e9 Jornalista, Assessor de Imprensa do Sindicato dos Trabalhadores no Servi\u00e7o P\u00fablico Federal no Estado de Santa Catarina.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por *Celso Vicenzi A reportagem de capa da revista Isto\u00c9, edi\u00e7\u00e3o 2.233, de 29 de agosto\u00a0 (\u201dQuem s\u00e3o os grevistas<span class=\"excerpt-hellip\"> [\u2026]<\/span><\/p>\n","protected":false},"author":6,"featured_media":16339,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[9,2,1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16337"}],"collection":[{"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16337"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16337\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16337"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16337"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16337"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}