{"id":16441,"date":"2012-09-07T13:59:03","date_gmt":"2012-09-07T16:59:03","guid":{"rendered":"https:\/\/fenaprf.org.br\/?p=16441"},"modified":"2012-09-07T13:59:03","modified_gmt":"2012-09-07T16:59:03","slug":"mas-alguns-jornalistas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/mas-alguns-jornalistas\/","title":{"rendered":"Mas, alguns jornalistas&#8230;"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><em>Por *<strong>Celso Vicenzi<\/strong><\/em><\/p>\n<div id=\"attachment_16338\" style=\"width: 235px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"https:\/\/fenaprf.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/jornalista_celso-vicenzi.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-16338\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-16338\" title=\"jornalista_celso-vicenzi\" src=\"https:\/\/fenaprf.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/jornalista_celso-vicenzi-225x300.jpg\" alt=\"\" width=\"225\" height=\"300\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-16338\" class=\"wp-caption-text\">Celso Vicenzi | Foto: S\u00edtio da UFSC<\/p><\/div>\n<p>A palavra \u201cmas\u201d \u00e9 uma conjun\u00e7\u00e3o coordenada adversativa, utilizada, pelo que se l\u00ea nas boas gram\u00e1ticas, em situa\u00e7\u00f5es que indicam oposi\u00e7\u00e3o, sentido contr\u00e1rio. Tem sido empregada, tamb\u00e9m, com muita insist\u00eancia, por boa parte dos jornalistas, principalmente os mais conhecidos colunistas e comentaristas de jornais e tev\u00eas \u2013 nacionais e regionais \u2013, para turvar a realidade. Virou quase um mantra jornal\u00edstico. \u201cA greve \u00e9 um direito assegurado pela Constitui\u00e7\u00e3o ao trabalhador brasileiro, mas&#8230;\u201d n\u00e3o deveria prejudicar a popula\u00e7\u00e3o que necessita dos servi\u00e7os da categoria, n\u00e3o deveria impedir o direito de ir e vir da popula\u00e7\u00e3o (muito comum quando ocorre no transporte coletivo); \u00e9 justa, \u201cmas\u201d os alunos s\u00e3o os maiores prejudicados (e a culpa cai no colo do professor e nunca do prefeito, governador ou presidente). \u201cMas\u201d a crise na Europa preocupa e n\u00e3o \u00e9 hora de o governo brasileiro conceder reajuste de sal\u00e1rio aos servidores. Esta a desculpa mais recente. Como se conclui, a greve \u00e9 um direito do trabalhador, \u201cmas\u201d s\u00f3 poder\u00e1 ser exercida se n\u00e3o ocasionar problema para ningu\u00e9m, seja o empres\u00e1rio, seja o governo, seja o povo.<\/p>\n<p>Mas a greve \u00e9 um instrumento de press\u00e3o justamente pelos poss\u00edveis danos (financeiros) ou transtornos (\u00e0 popula\u00e7\u00e3o e aos usu\u00e1rios dos servi\u00e7os em quest\u00e3o) que \u00e9 capaz de provocar. Infelizmente. Toda a tens\u00e3o gerada, numa sociedade democr\u00e1tica e cidad\u00e3, deveria resultar em poder de press\u00e3o sobre os empregadores \u2013 privados ou p\u00fablicos \u2013, para que buscassem, o mais r\u00e1pido poss\u00edvel, um acordo justo com os grevistas. \u201cMas\u201d, com a ajuda determinante da m\u00eddia nacional, n\u00e3o \u00e9 assim que ocorre. O \u00f4nus recai somente sobre o grevista.<\/p>\n<p>A greve dos professores \u00e9 justa, \u201cmas\u201d os governos e os munic\u00edpios n\u00e3o t\u00eam como arcar com as despesas. A simples declara\u00e7\u00e3o de um presidente da Rep\u00fablica, de um governador ou de um prefeito \u00e9 prova cabal dessa impossibilidade. Nenhum rep\u00f3rter se interessa em vasculhar os gastos do poder p\u00fablico, para conferir se existe mesmo essa impossibilidade.<\/p>\n<p>Nenhum rep\u00f3rter parece se escandalizar quando o STJ determina que os servidores da Anvisa e do Minist\u00e9rio da Agricultura devem manter 70% do seu pessoal trabalhando. Mais um pouco e a Justi\u00e7a brasileira h\u00e1 de determinar que, sim, podem fazer greve, \u201cmas\u201d que continuem trabalhando&#8230; Ningu\u00e9m discute que a pr\u00f3pria lei de greve da iniciativa privada \u2013 depois estendida para o servi\u00e7o p\u00fablico, por falta de uma regulamenta\u00e7\u00e3o espec\u00edfica \u2013 prev\u00ea apenas 30% dos trabalhadores atuando em servi\u00e7os essenciais. Esta ilegalidade flagrante n\u00e3o interessa \u00e0 m\u00eddia discutir. Como tamb\u00e9m n\u00e3o interessa abordar a inconstitucionalidade de transferir atividades exclusivas do funcionalismo p\u00fablico federal para estados e munic\u00edpios, como se fosse poss\u00edvel, de uma hora para outra, substituir profissionais com conhecimentos muito espec\u00edficos sobre atividades em portos, aeroportos e fronteiras, sem p\u00f4r em risco a pr\u00f3pria seguran\u00e7a da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Cabe aos trabalhadores lutar, sempre, para manter os direitos conquistados, entre eles, o poder de compra do sal\u00e1rio, sob pena de v\u00ea-lo diminuir gradativamente, aumentando na outra ponta o \u201clucro\u201d do empregador, seja ele governo ou iniciativa privada. No caso dos governos, dinheiro que geralmente \u00e9 transferido, em boa parte, para a iniciativa privada, sob as mais variadas formas de concess\u00f5es (empr\u00e9stimos subsidiados, isen\u00e7\u00f5es fiscais etc.). N\u00e3o precisa ser nenhum g\u00eanio em economia ou hist\u00f3ria para saber qual \u00e9 o lado mais fraco nessa disputa e o quanto \u00e9 leg\u00edtimo lutar para mudar essa correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as. E \u00e9 exatamente nessa hora crucial que boa parte dos jornalistas, sobretudo colunistas e comentaristas, n\u00e3o t\u00eam d\u00favida em ficar do lado do mais forte. Basta sacar do bolso um \u201cmas\u201d e n\u00e3o contextualizar informa\u00e7\u00f5es que seriam fundamentais para saber se determinado pleito pode ou n\u00e3o ser atendido. Geralmente, \u00e9 um festival de clich\u00eas, afirma\u00e7\u00f5es n\u00e3o comprovadas, que v\u00e3o se legitimando e influenciando a opini\u00e3o p\u00fablica pela simples repeti\u00e7\u00e3o. N\u00e3o importa que o n\u00famero de servidores p\u00fablicos federais se mantenha praticamente o mesmo h\u00e1 20 anos, a m\u00eddia sempre vai alertar para o aumento dos gastos p\u00fablicos, como se n\u00e3o houvesse nenhuma rela\u00e7\u00e3o entre n\u00famero de servidores, sal\u00e1rios, \u00f3rg\u00e3os bem equipados e a qualidade no atendimento \u00e0 popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A forma mais comum de falsear a realidade \u00e9 trabalhar com n\u00fameros absolutos. No caso recente da greve do servi\u00e7o p\u00fablico federal, para citar um exemplo, diz o governo que, se fosse atender a tudo o que pedem os servidores, iria onerar o caixa do governo em cerca de R$ 92 bilh\u00f5es. N\u00fameros atirados a esmo, sem contextualiza\u00e7\u00f5es, sempre parecem eloquentes e induzem \u00e0 conclus\u00e3o da impossibilidade de estender o benef\u00edcio aos trabalhadores.<\/p>\n<p>No entanto, esses mesmos jornalistas, colunistas, comentaristas n\u00e3o ousam perguntar para onde vai o dinheiro que o pa\u00eds produz, com o suor de todos os trabalhadores. Por que o governo abriu m\u00e3o, desde 2008, de R$ 26 bilh\u00f5es em impostos para a ind\u00fastria automotiva? Que, por sua vez, enviou quase R$ 15 bilh\u00f5es ao exterior, na forma de lucros e dividendos? O \u201cfator previdenci\u00e1rio\u201d retirou mais de R$ 21 bilh\u00f5es dos trabalhadores. Quem mais se beneficia, h\u00e1 s\u00e9culos, \u00e9 justamente a elite econ\u00f4mica e a classe pol\u00edtica do pa\u00eds, que atuam em parceria. Se isso n\u00e3o fosse verdade, o Brasil n\u00e3o seria um dos pa\u00edses com a pior distribui\u00e7\u00e3o de renda do planeta.<\/p>\n<p>Valores nominais, insisto, n\u00e3o explicam muita coisa. \u00c9 preciso sempre comparar. Ao contr\u00e1rio do que diz a m\u00eddia, os gastos do governo federal com os servidores, em 2000, eram de 4,8% do Produto Interno Bruto (PIB). Doze anos depois, \u00e9 menor ainda. A proje\u00e7\u00e3o \u00e9 que feche o ano de 2012 em 4,15%. O pa\u00eds tem hoje praticamente o mesmo n\u00famero de servidores do in\u00edcio do governo FHC, e a popula\u00e7\u00e3o que demanda por servi\u00e7os cresceu. E h\u00e1 um agravante: quase 50% deve se aposentar nos pr\u00f3ximos dez anos. Como manter servi\u00e7os de qualidade com \u00f3rg\u00e3os sucateados e sem profissionais treinados e motivados para o exerc\u00edcio da fun\u00e7\u00e3o? Se isso vale para a iniciativa privada, deve valer tamb\u00e9m para a administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica.<\/p>\n<p>Somente em isen\u00e7\u00e3o fiscal, nos \u00faltimos dois anos, o pa\u00eds concedeu mais de R$ 150 bilh\u00f5es a pouco mais de uma d\u00fazia de ramos industriais. E o cofre continua aberto, pois, nas palavras do pr\u00f3prio ministro da Fazenda Guido Mantega, \u201cqualquer setor que estiver interessado na desonera\u00e7\u00e3o da folha, representado por sua entidade, deve entrar em contato conosco\u201d (Ag\u00eancia Brasil). Tudo em nome de boas causas: a manuten\u00e7\u00e3o de empregos e o aumento da competitividade industrial. Sobre lucros que tornam o Brasil um dos campe\u00f5es da desigualdade na distribui\u00e7\u00e3o de renda, nenhuma linha, nenhuma palavra. Porque por tr\u00e1s do discurso das \u201cdificuldades\u201d sempre est\u00e1 a transfer\u00eancia de renda dos trabalhadores para os empregadores.<\/p>\n<p>O mito de que se gasta demais com os servidores p\u00fablicos federais tamb\u00e9m n\u00e3o resiste \u00e0 observa\u00e7\u00e3o correta dos n\u00fameros. Quaisquer que sejam os valores apresentados por quem tenta defender a tese de que o gasto \u00e9 excessivo \u2013 diferente de se \u00e9 bem aplicado, porque esta seria uma boa discuss\u00e3o \u2013, n\u00e3o d\u00e1 para se contrapor a uma evid\u00eancia: a Receita Corrente L\u00edquida, ou seja, o que o governo arrecada em impostos, comparado com o que o governo paga ao funcionalismo p\u00fablico federal, diminuiu de 56,2% em 1995 para 32,1% em 2011, conforme registra o Boletim Estat\u00edstico de Pessoal do Minist\u00e9rio do Planejamento.<\/p>\n<p>A m\u00eddia, que bate forte na greve do funcionalismo p\u00fablico federal \u2013 como \u00e9 de praxe em greves de quaisquer trabalhadores \u2013, n\u00e3o demonstra nenhum interesse em trazer para a opini\u00e3o p\u00fablica do pa\u00eds o tema que \u00e9 central para esclarecer um \u201crombo\u201d nas finan\u00e7as da Uni\u00e3o, que enriquece um grupo muito pequeno de investidores e amplia a desigualdade no pa\u00eds: a d\u00edvida p\u00fablica, superior a R$ 2,1 bilh\u00f5es por dia! Em 2011 foram destinados R$ 708 bilh\u00f5es para a d\u00edvida p\u00fablica que, ali\u00e1s, nunca foi auditada, apesar de v\u00e1rios ind\u00edcios de ilegalidades e ilegitimidades desde os anos 70, conforme denuncia Maria L\u00facia Fattorelli, da Auditoria Cidad\u00e3 da D\u00edvida.<\/p>\n<p>Para concluir: no Brasil, a greve \u00e9 um direito do trabalhador, \u201cmas\u201d s\u00f3 pode ser exercida se n\u00e3o vier a causar nenhum tipo de preju\u00edzo ou problema a quem quer que seja. E tem sido cada vez mais regulamentada \u2013 favoravelmente ao capital \u2013 pelo Judici\u00e1rio. Uma esp\u00e9cie de ditadura da democracia, com jurisprud\u00eancia legal. N\u00e3o \u00e9 sem raz\u00e3o que, historicamente, quando a justi\u00e7a n\u00e3o mereceu este nome, grandes avan\u00e7os sociais foram feitos, inicialmente, \u00e0 margem da legalidade.<\/p>\n<p><strong><em>*Celso Vicenzi<\/em><\/strong>\u00a0\u00e9<em>\u00a0Jornalista, assessor de imprensa do Sindicato dos Trabalhadores no Servi\u00e7o P\u00fablico Federal no Estado de SC (Sintrafesc).<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por *Celso Vicenzi A palavra \u201cmas\u201d \u00e9 uma conjun\u00e7\u00e3o coordenada adversativa, utilizada, pelo que se l\u00ea nas boas gram\u00e1ticas, em<span class=\"excerpt-hellip\"> [\u2026]<\/span><\/p>\n","protected":false},"author":6,"featured_media":15055,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[9,2,1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16441"}],"collection":[{"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16441"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16441\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16441"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16441"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16441"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}