{"id":17123,"date":"2012-10-03T16:29:14","date_gmt":"2012-10-03T19:29:14","guid":{"rendered":"https:\/\/fenaprf.org.br\/?p=17123"},"modified":"2012-10-03T16:29:14","modified_gmt":"2012-10-03T19:29:14","slug":"projeto-automotivo-vanguarda-do-que","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/projeto-automotivo-vanguarda-do-que\/","title":{"rendered":"Projeto automotivo, vanguarda do qu\u00ea?"},"content":{"rendered":"<p>Fernando Pimentel, ministro do Desenvolvimento,\u00a0 Ind\u00fastria e Com\u00e9rcio Exterior, explicitou o projeto nacional da\u00a0 administra\u00e7\u00e3o da presidente Dilma, quando declarou a Guilherme Barros,\u00a0 jornalista da &#8220;Isto \u00c9 Dinheiro&#8221; (25\/9), que &#8220;est\u00e1 havendo uma grande\u00a0 mudan\u00e7a estrutural na matriz econ\u00f4mica brasileira&#8221;. Segundo o ministro, a\u00a0 ordem de Dilma seria &#8220;reduzir o custo Brasil e incentivar o\u00a0 investimento das empresas, garantindo a competitividade internacional e,\u00a0 claro, os empregos dos brasileiros no futuro&#8221;.<\/p>\n<p>O regime\u00a0 automotivo que ir\u00e1 vigorar de 2013 a 2017 \u00e9 uma pe\u00e7a significativa nesta\u00a0 &#8220;grande mudan\u00e7a estrutural&#8221;. Foi aplicado um aumento de 30% do IPI,\u00a0 tanto para os ve\u00edculos importados quanto para os montados internamente.\u00a0 As empresas ter\u00e3o descontos, se atingirem as metas de redu\u00e7\u00e3o de consumo\u00a0 de combust\u00edvel e utilizarem componentes produzidos no Brasil.<\/p>\n<p>Estou\u00a0 perplexo com a confian\u00e7a microecon\u00f4mica ministerial. O ministro\u00a0 pretende modificar nossa ind\u00fastria automobil\u00edstica, &#8220;que \u00e9 muito boa,\u00a0 pujante, s\u00f3lida, mas \u00e9 atrasada&#8221;. Retoma, com delicadeza, a declara\u00e7\u00e3o\u00a0 do presidente Collor de Melo, de que o autom\u00f3vel feito no Brasil &#8220;\u00e9 uma\u00a0 carro\u00e7a&#8221;.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil antever um caos urbano que faz da avenida Paulista, num dia de domingo, um espa\u00e7o engarrafado<\/p>\n<p>\u00c9\u00a0 \u00fatil reativar a mem\u00f3ria quanto ao nascimento e trajet\u00f3ria da ind\u00fastria\u00a0 automobil\u00edstica. Na segunda metade dos anos 50, JK aprovou um plano que\u00a0 outorgava incentivos tribut\u00e1rios, financeiros e cambiais \u00e0s empresas\u00a0 montadoras que cumprissem um plano de montagem de ve\u00edculos e ampliassem a\u00a0 participa\u00e7\u00e3o de componentes e servi\u00e7os produzidos no Brasil. No\u00a0 segmento das montadoras, se instalaram a Mercedes, Volkswagen e Scania. A\u00a0 ades\u00e3o das multis europeias provocou a aceita\u00e7\u00e3o do programa pela\u00a0 General Motors e Ford. Houve a tentativa de instalar montadoras\u00a0 brasileiras, mas nenhuma sobreviveu. Por\u00e9m, o plano previa que, na\u00a0 fabrica\u00e7\u00e3o de autope\u00e7as somente seriam incentivadas empresas sob\u00a0 controle acion\u00e1rio de brasileiros.<\/p>\n<p>Nos anos 60, houve a\u00a0 progressiva desnacionaliza\u00e7\u00e3o das empresas brasileiras fabricantes de\u00a0 autope\u00e7as e aconteceu uma nova e massiva migra\u00e7\u00e3o de outras multis,\u00a0 tendo in\u00edcio com a Fiat, seguida pela entrada de outras filiais de\u00a0 multis europeias e asi\u00e1ticas. Agora, o regime automotivo do governo\u00a0 Dilma anuncia a chegada de duas empresas chinesas &#8211; JAC e Cherry &#8211; e da\u00a0 alem\u00e3 BMW.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 nada de novo no regime proposto pelo atual\u00a0 governo. \u00c9 rid\u00edculo imaginar que algumas poucas novas filiais\u00a0 estrangeiras modifiquem o padr\u00e3o comportamental da constela\u00e7\u00e3o estelar\u00a0 de multis no territ\u00f3rio brasileiro. N\u00f3s dever\u00edamos colocar algumas\u00a0 perguntas: por que n\u00e3o existe nenhuma marca nacional? Por que a\u00a0 competi\u00e7\u00e3o intermonop\u00f3lica das filiais, com mais de meio s\u00e9culo, n\u00e3o\u00a0 gerou inova\u00e7\u00f5es significativas? Por que, no Brasil, a contribui\u00e7\u00e3o\u00a0 lucrativa embutida \u00e9 de 10% do valor do ve\u00edculo, enquanto a m\u00e9dia\u00a0 mundial fica em 5% (3% nos EUA)? Por que somos perdedores de divisas,\u00a0 tanto na balan\u00e7a comercial quanto no balan\u00e7o de capitais?<\/p>\n<p>O\u00a0 crescimento da frota de automotores foi de 9% ao ano, na malha urbana\u00a0 brasileira, durante os \u00faltimos 15 anos. Aparentemente, o governo aposta\u00a0 que os brasileiros continuar\u00e3o se endividando para comprar ve\u00edculos e\u00a0 que haver\u00e1 uma deprecia\u00e7\u00e3o acelerada dos modelos bebedores de gasolina<\/p>\n<p>O\u00a0 mercado automobil\u00edstico brasileiro apresenta algumas caracter\u00edsticas\u00a0 singulares. \u00c9 enorme o endividamento para a compra do ve\u00edculo novo e,\u00a0 geralmente, isso vai associado \u00e0 venda do carro usado. O carro usado\u00a0 pode passar por muitas m\u00e3os e ser restaurado por magn\u00edficos\u00a0 artes\u00e3os-lanterneiros e suprido de pe\u00e7as de reposi\u00e7\u00e3o criadas\u00a0 artesanalmente, muitos anos ap\u00f3s a retirada dos modelos de linha. H\u00e1,\u00a0 por conseguinte, um mercado de primeira m\u00e3o que se sustenta, em parte,\u00a0 com o da segunda m\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 imediata a desvaloriza\u00e7\u00e3o do ve\u00edculo novo.\u00a0 Ap\u00f3s a primeira liga\u00e7\u00e3o de chave do primeiro comprador, isto \u00e9, entre o\u00a0 sal\u00e3o da revendedora e o pre\u00e7o na &#8220;cal\u00e7ada&#8221;, o ve\u00edculo perde de 15 a\u00a0 20% de seu valor. O objeto de sonho de consumo dos brasileiros \u00e9 um bem\u00a0 de exibi\u00e7\u00e3o, quando de primeira m\u00e3o, que se converte, progressivamente,\u00a0 em bem patrimonial aos adquirentes subsequentes. Esse mercado pode ser\u00a0 perverso, pois a perda do valor, compensada pelo prest\u00edgio exibido com o\u00a0 carro novo, \u00e9 apenas redu\u00e7\u00e3o de patrim\u00f4nio para o adquirente do carro\u00a0 usado. Associando vendas em longo prazo com juros embutidos, quase\u00a0 sempre o valor residual do ve\u00edculo \u00e9 inferior \u00e0 d\u00edvida residual. Se\u00a0 houver uma pol\u00edtica de acentuada desvaloriza\u00e7\u00e3o dos carros usados,\u00a0 haver\u00e1 um aumento exponencial da inadimpl\u00eancia.<\/p>\n<p>N\u00e3o resisto a\u00a0 afirmar que o modo brasileiro de organizar esse mercado dessa forma\u00a0 singular amplia o universo dos propriet\u00e1rios de ve\u00edculos, gera cadeias\u00a0 empresariais e faz renascer um original artesanato. Por\u00e9m, pelo seu lado\u00a0 perverso, pode estimular uma crise setorial com implica\u00e7\u00f5es graves para\u00a0 a atividade econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>Com o crescimento da popula\u00e7\u00e3o\u00a0 automobil\u00edstica a 9% ao ano, \u00e9 f\u00e1cil entender o apetite das montadoras\u00a0 para estar no Brasil. N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil antever um caos urbano que faz da\u00a0 avenida Paulista, num dia de domingo, um espa\u00e7o engarrafado. \u00c0\u00a0 virtuosidade patrimonial do endividamento para a compra da casa pr\u00f3pria,\u00a0 que \u00e9, na verdade, uma capitaliza\u00e7\u00e3o dos alugu\u00e9is que deixam de\u00a0 existir, se contrap\u00f5e um risco familiar patrimonial, um risco\u00a0 existencial com o tr\u00e2nsito congestionado, um risco macroecon\u00f4mico de uma\u00a0 bolha de d\u00edvida sem lastro num sucateamento dos ve\u00edculos de segunda\u00a0 m\u00e3o.<\/p>\n<p>Apostar na microeconomia \u00e9, em ultima inst\u00e2ncia, reiterar a\u00a0 firme ades\u00e3o brasileira ao Consenso de Washington, e permanecemos \u00e0\u00a0 espera de respostas \u00e0s quest\u00f5es aqui enunciadas.<\/p>\n<p>P.S.: O modelo de\u00a0 primeira e segunda m\u00e3o aplicado \u00e0 motocicleta est\u00e1 produzindo a\u00a0 elimina\u00e7\u00e3o do animal de transporte e trabalho &#8211; cavalo e jegue &#8211; e\u00a0 aumentando a viuvez com o uso sem qualquer controle de motos usadas,\u00a0 inclusive, em trabalhos agr\u00edcolas.<\/p>\n<p><em><strong>*Carlos Francisco Theodoro\u00a0 Machado Ribeiro de Lessa<\/strong> \u00e9 professor em\u00e9rito de economia brasileira e\u00a0 ex-reitor da UFRJ. Foi presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento\u00a0 Econ\u00f4mico e Social &#8211; BNDES.<\/em><\/p>\n<p>Fonte: Valor Econ\u00f4mico<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fernando Pimentel, ministro do Desenvolvimento,\u00a0 Ind\u00fastria e Com\u00e9rcio Exterior, explicitou o projeto nacional da\u00a0 administra\u00e7\u00e3o da presidente Dilma, quando declarou<span class=\"excerpt-hellip\"> [\u2026]<\/span><\/p>\n","protected":false},"author":6,"featured_media":15314,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[9,1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17123"}],"collection":[{"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17123"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17123\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17123"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17123"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17123"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}