{"id":17750,"date":"2012-10-25T17:16:33","date_gmt":"2012-10-25T19:16:33","guid":{"rendered":"https:\/\/fenaprf.org.br\/?p=17750"},"modified":"2012-10-25T17:16:33","modified_gmt":"2012-10-25T19:16:33","slug":"vira-latas-e-mascarados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/vira-latas-e-mascarados\/","title":{"rendered":"Vira-latas e mascarados"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Por\u00a0Carlos Alberto Sardenberg<\/p>\n<p>Qual \u00e9 o oposto do complexo de vira-lata que Nelson Rodrigues encontrou nos brasileiros? \u00c9 a m\u00e1scara, com duas vari\u00e1veis. O brasileiro mascarado que vive achando por aqui o\/a melhor do mundo; e aquele que despreza a sabedoria, digamos, universal e a troca pelas &#8220;nossas&#8221; solu\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Normal, se poderia dizer. Se cada um de n\u00f3s alterna momentos de depress\u00e3o e euforia, por que isso n\u00e3o poderia ocorrer com um povo inteiro? E n\u00e3o apenas com o brasileiro. Pesquisas mostram que todas as popula\u00e7\u00f5es oscilam entre confian\u00e7a e baixo-astral, isso dependendo, em grande parte, da situa\u00e7\u00e3o real em que se encontram.<\/p>\n<p>Os americanos, por exemplo, est\u00e3o no &#8220;maior baixo-astral&#8221;.<\/p>\n<p>Compreende-se. J\u00e1 s\u00e3o quatro anos de uma crise que chegou, devastadora, depois de um per\u00edodo que parecia o melhor de todos.<\/p>\n<p>J\u00e1 os brasileiros est\u00e3o mais animados. O pa\u00eds cresce pouco, mas ainda preserva os benef\u00edcios das mudan\u00e7as estruturais dos \u00faltimos 20 anos.<\/p>\n<p>De todo modo, \u00e9 preciso admitir que h\u00e1 povos mais espertos do que outros. H\u00e1 pa\u00edses cujas sociedades resolvem melhor as situa\u00e7\u00f5es e, assim, tornam-se mais pr\u00f3speras e ricas. Sim, h\u00e1 na\u00e7\u00f5es aben\u00e7oadas com riquezas naturais, mas isso n\u00e3o \u00e9 a vari\u00e1vel determinante.<\/p>\n<p>O Jap\u00e3o tem escassas fontes naturais de energia, mas construiu uma ind\u00fastria poderosa. Israel n\u00e3o tem uma gota de petr\u00f3leo, nem de \u00e1gua, ali\u00e1s, mas \u00e9 a sociedade mais desenvolvida, de maior renda per capita e a \u00fanica democracia est\u00e1vel de uma regi\u00e3o onde jorra petr\u00f3leo e sobram ditaduras e pobreza.<\/p>\n<p>Cingapura e Jamaica eram col\u00f4nias brit\u00e2nicas at\u00e9 1960, igualmente pobres. Hoje, a na\u00e7\u00e3o asi\u00e1tica \u00e9 rica, desenvolvida e moderna. A Jamaica tem quase nada al\u00e9m de Usain Bolt e seus colegas velocistas. Todo mundo celebra o bicampe\u00e3o ol\u00edmpico, mas as pessoas vivem melhor em Cingapura.<\/p>\n<p>E, para chegar do nosso lado, nos anos 60 a Coreia do Sul era muito mais pobre que o Brasil. Hoje, nem d\u00e1 para comparar.<\/p>\n<p>Portanto, a altern\u00e2ncia tristeza\/alegria e mesmo a depress\u00e3o\/euforia pode ser normal, desde que leve e rara. Do contr\u00e1rio, a doen\u00e7a aparece. E talvez a pior seja mascarar a realidade de um extremo a outro. O complexo de vira-lata s\u00f3 mostra coisa ruim. O mascarado dan\u00e7a nas ruas e tira sarro dos outros. Isso tem atrapalhado o Brasil.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos tempos, temos sido mais mascarados do que vira-latas. \u00c9 uma caracter\u00edstica da era Lula. Na verdade, ele come\u00e7ou, em 2003, mais complexado e com medo da rea\u00e7\u00e3o mundial \u00e0 sua elei\u00e7\u00e3o. Tanto que adotou a pol\u00edtica econ\u00f4mica que ele e seu partido haviam condenado e deixou de lado as propostas de &#8220;solu\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias, n\u00e3o as do FMI&#8221;.<\/p>\n<p>Depois, quando o mundo ajudou e as pol\u00edticas ortodoxas finalmente funcionaram, Lula transformou tudo em coisa pr\u00f3pria, incluindo a bonan\u00e7a global (os fant\u00e1sticos pre\u00e7os das comodities e alimentos).<\/p>\n<p>Como diz mesmo um amigo do governo petista, a mar\u00e9 subiu para todo mundo, mas o ex-presidente acha que ele puxou a mar\u00e9. E um monte de gente concordou.<\/p>\n<p>Assim, tudo virou solu\u00e7\u00e3o brasileira para problemas que o mundo e gera\u00e7\u00f5es nacionais anteriores n\u00e3o sabiam resolver. Exemplo, o Bolsa Fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Ser\u00e1? Sugiro uma pesquisa no site do Banco Mundial, item &#8220;Conditional Cash Transfer&#8221;, &#8220;Transfer\u00eancia de Renda com Condicionalidades&#8221;. Pois \u00e9, o programa, dinheiro em troca de colocar a crian\u00e7a na escola, \u00e9 uma ideia desenvolvida por tecnocratas do Banco Mundial nos anos 90. Entre n\u00f3s, Cristovam Buarque estudou e aplicou. Nos anos 2000, cerca de 30 pa\u00edses j\u00e1 aplicavam o programa (M\u00e9xico Oportunidades, Chile Solid\u00e1rio, por exemplo).<\/p>\n<p>Aqui, por sinal, o Bolsa Fam\u00edlia foi criado pelo decreto 5.209, de 17\/09\/04, especificamente com a unifica\u00e7\u00e3o dos programas Bolsa Escola, Vale G\u00e1s e Bolsa Alimenta\u00e7\u00e3o, que vinham do governo FHC.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que, no mundo, se fala com mais entusiasmo do Bolsa Fam\u00edlia brasileiro e de Lula. E por qu\u00ea? Porque \u00e9 o maior e porque o Brasil tem mais pobres&#8230;.<\/p>\n<p>Todos os principais pa\u00edses emergentes, latino-americanos inclu\u00eddos, se deram muito bem neste s\u00e9culo 21: crescimento forte, infla\u00e7\u00e3o controlada, surgimento das novas classes m\u00e9dias e acumula\u00e7\u00e3o de reservas.<\/p>\n<p>Pelo complexo de vira-lata, dir\u00edamos que o Brasil s\u00f3 pegou a onda e copiou o que todo mundo fez. Na outra ponta, mascarados, dir\u00edamos que o mundo todo copia e inveja o Brasil.<\/p>\n<p>Nos dois casos, n\u00e3o estamos vendo a hist\u00f3ria real. N\u00e3o foi pouca coisa pegar a onda certa. Mas ainda levamos uns bons tombos na areia. Voltaremos ao assunto.<\/p>\n<p>Fonte: O Globo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por\u00a0Carlos Alberto Sardenberg Qual \u00e9 o oposto do complexo de vira-lata que Nelson Rodrigues encontrou nos brasileiros? \u00c9 a m\u00e1scara,<span class=\"excerpt-hellip\"> [\u2026]<\/span><\/p>\n","protected":false},"author":6,"featured_media":16438,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[9,1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17750"}],"collection":[{"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17750"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17750\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17750"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17750"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17750"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}