{"id":18204,"date":"2012-11-01T11:17:40","date_gmt":"2012-11-01T13:17:40","guid":{"rendered":"https:\/\/fenaprf.org.br\/?p=18204"},"modified":"2012-11-01T11:17:40","modified_gmt":"2012-11-01T13:17:40","slug":"engana-que-a-gente-paga","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/engana-que-a-gente-paga\/","title":{"rendered":"Engana que a gente paga"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong><em>Por\u00a0Carlos Alberto Sardenberg<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Coisa de 200 anos atr\u00e1s, jornalistas do &#8220;Times&#8221; de Londres j\u00e1 utilizavam um crit\u00e9rio original para saber o que deviam ou n\u00e3o apurar e publicar. &#8220;Not\u00edcia, diziam, \u00e9 tudo aquilo que algu\u00e9m n\u00e3o quer ver publicado; o resto \u00e9 propaganda.&#8221;<\/p>\n<p>Desse ponto de vista, tudo que o governo fala, em qualquer pa\u00eds, deve ser entendido como propaganda e marketing. Claro, n\u00e3o \u00e9 mesmo? Os governantes s\u00f3 falam aquilo que gostariam de ver publicado com o devido destaque.<\/p>\n<p>No Brasil de hoje, isso faz muito sentido. Os governos, em todos os n\u00edveis, carregam na propaganda, em volume e conte\u00fado. Reparem, por exemplo, nos an\u00fancios do Banco do Brasil e da Caixa.<\/p>\n<p>Tem financiamento barato para todo mundo, quem toma empr\u00e9stimo est\u00e1 felic\u00edssimo porque comprou seu carro ou abriu seu neg\u00f3cio, todos prosperam e por isso riem o tempo todo. Um espet\u00e1culo: n\u00e3o tem inadimpl\u00eancia, os juros s\u00e3o barat\u00edssimos. Parece que s\u00f3 os mais bobos, ou desconfiados, n\u00e3o correm l\u00e1 para pegar dinheiro f\u00e1cil.<\/p>\n<p>Pode-se dizer que aqueles bancos est\u00e3o no mercado, disputando clientes com as outras institui\u00e7\u00f5es. Mas n\u00e3o \u00e9 bem assim. A propaganda dos bancos federais, assim como da Petrobras, outras estatais e de minist\u00e9rios, n\u00e3o oferece propriamente um produto. Seu principal prop\u00f3sito \u00e9 passar uma imagem positiva do pa\u00eds e, sobretudo, das a\u00e7\u00f5es do governo.<\/p>\n<p>Regra do jogo, pode-se argumentar. Trata-se de propaganda paga, o governo, como qualquer outro anunciante, diz o que quer e ningu\u00e9m \u00e9 obrigado a acreditar.<\/p>\n<p>Sabemos que n\u00e3o \u00e9 bem assim. Nem precisa argumentar muito. \u00c9 intuitivo. Trata-se de dinheiro p\u00fablico, mesmo no caso dos bancos comerciais, como BB e Caixa. Eles n\u00e3o funcionam como os privados. Recebem dinheiro do governo, j\u00e1 foram resgatados com inje\u00e7\u00f5es de capital p\u00fablico mais de uma vez e todo mundo sabe que n\u00e3o v\u00e3o quebrar porque o governo, ou seja, o contribuinte, estar\u00e1 l\u00e1 para cobrir eventuais buracos.<\/p>\n<p>Necessariamente, portanto, deveriam agir de modo diferente, como institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, e estas, como todo governo, t\u00eam compromisso com a informa\u00e7\u00e3o correta.<\/p>\n<p>O que nos leva ao outro lado da hist\u00f3ria. Hoje em dia, entende-se que mesmo empresas privadas t\u00eam compromisso com o p\u00fablico. Propaganda enganosa n\u00e3o pode ser tolerada. Claro, \u00e9 dif\u00edcil definir e apurar a tentativa de ludibriar o consumidor, mas \u00e9 outro problema, de regula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E, se isso vale para empresas privadas, por que n\u00e3o se aplica ao governo, suas empresas e suas reparti\u00e7\u00f5es? Na verdade, a propaganda enganosa p\u00fablica \u00e9 mais grave, porque o governo tem tamb\u00e9m a obriga\u00e7\u00e3o de informar e, assim, orientar a sociedade.<\/p>\n<p>Isso \u00e9 especialmente importante no caso da pol\u00edtica econ\u00f4mica. O governo, ator decisivo em qualquer economia, precisa dizer claramente o que vai fazer, prestar contas regularmente sobre o que est\u00e1 fazendo, dar as regras do jogo, mostrar como v\u00ea o andamento da situa\u00e7\u00e3o e esclarecer o cen\u00e1rio com o qual trabalha.<\/p>\n<p>H\u00e1 rituais definidos para isso, aqui no Brasil e em toda parte. Os minist\u00e9rios da \u00e1rea econ\u00f4mica e o Banco Central divulgam regularmente suas mensagens. Assim, em qualquer pa\u00eds organizado, os agentes econ\u00f4micos, ao planejar e agir, consideram os cen\u00e1rios do governo para crescimento, infla\u00e7\u00e3o, arrecada\u00e7\u00e3o, gastos or\u00e7ament\u00e1rios etc.<\/p>\n<p>Por isso, quando o nosso Minist\u00e9rio da Fazenda sustenta que o pa\u00eds crescer\u00e1 4,5%, quando todo mundo j\u00e1 viu que n\u00e3o vai dar, isto \u00e9, sim, um tipo de propaganda enganosa. Idem quando o Banco Central diz que cumpriu a meta de infla\u00e7\u00e3o quando o \u00edndice bateu em 6,5%, dois pontos acima. H\u00e1 mesmo uma confus\u00e3o, que parece deliberada, entre meta, centro da meta e margem de toler\u00e2ncia. Resultado: ficamos sem saber se o objetivo de fato \u00e9 uma infla\u00e7\u00e3o de 4,5% (a meta ou o centro) ou qualquer coisa abaixo de 6,5% (o teto da margem de toler\u00e2ncia) ou at\u00e9 mais do que isso, como ocorreu recentemente.<\/p>\n<p>Do mesmo modo, \u00e9 uma informa\u00e7\u00e3o enganosa quando o governo jura que vai cumprir a meta de super\u00e1vit prim\u00e1rio sem truques. Nestes casos, a informa\u00e7\u00e3o do governo causa menos danos porque todo mundo j\u00e1 sabe que o cen\u00e1rio oficial n\u00e3o vai se realizar. Vale para todos os an\u00fancios do setor p\u00fablico, federal, estadual e municipal, que simplesmente afirmam que tudo vai maravilhosamente bem.<\/p>\n<p>Mas isso desmoraliza a informa\u00e7\u00e3o p\u00fablica e cria o ambiente, negativo, de que \u00e9 assim mesmo: o governo mente e a gente n\u00e3o acredita ou deixa pra l\u00e1. S\u00f3 que n\u00f3s, cidad\u00e3os e contribuintes, fazemos o papel de trouxas. N\u00f3s pagamos pela farsa.<\/p>\n<p>Fonte: O Globo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por\u00a0Carlos Alberto Sardenberg Coisa de 200 anos atr\u00e1s, jornalistas do &#8220;Times&#8221; de Londres j\u00e1 utilizavam um crit\u00e9rio original para saber<span class=\"excerpt-hellip\"> [\u2026]<\/span><\/p>\n","protected":false},"author":6,"featured_media":18205,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[9,1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18204"}],"collection":[{"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18204"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18204\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18204"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18204"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18204"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}