{"id":21962,"date":"2013-03-20T00:30:33","date_gmt":"2013-03-20T03:30:33","guid":{"rendered":"https:\/\/fenaprf.org.br\/?p=21962"},"modified":"2013-03-20T00:30:33","modified_gmt":"2013-03-20T03:30:33","slug":"namorando-com-o-suicidio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/namorando-com-o-suicidio\/","title":{"rendered":"Namorando com o suic\u00eddio"},"content":{"rendered":"<p>Se nada piorar neste ano de 2013, cerca de 250 policiais ser\u00e3o assassinados no Brasil at\u00e9 o pr\u00f3ximo dia 31 de dezembro. \u00c9 uma hist\u00f3ria de horror, sem paralelo em nenhum pa\u00eds do mundo civilizado. Mas estes foram os n\u00fameros de 2012, com as varia\u00e7\u00f5es devidas \u00e0s diferen\u00e7as nos crit\u00e9rios de contagem, e n\u00e3o h\u00e1 nenhuma raz\u00e3o para imaginar que as coisas fiquem melhores em 2013 \u2014 ao contr\u00e1rio, o fato de que um agente de pol\u00edcia \u00e9 morto a cada 35 horas por criminosos, em algum lugar do pa\u00eds, \u00e9 aceito com indiferen\u00e7a cada vez maior pelas autoridades que comandam os policiais e que t\u00eam a obriga\u00e7\u00e3o de ficar do seu lado. A tend\u00eancia, assim, \u00e9 que essa matan\u00e7a continue sendo considerada a coisa mais\u00a0 natural do mundo \u2014 algo que \u201cacontece\u201d, como as chuvas de ver\u00e3o e os engarrafamentos de tr\u00e2nsito de todos os dias.<\/p>\n<p>Raramente, hoje em dia, os bar\u00f5es que mandam nos nossos govemos, mais as estrelas do mundo intelectual, os meios de comunica\u00e7\u00e3o e a sociedade em geral se incomodam em pensar no tamanho desse desastre. Deveriam, todos, estar fazendo justo o contr\u00e1rio, pois o desastre chegou a um extremo incompreens\u00edvel para qualquer pa\u00eds que n\u00e3o queira ser classificado como selvagem. Na Fran\u00e7a, a ficar em um exemplo de entendimento r\u00e1pido, 620 policiais foram assassinados por marginais nos \u00faltimos quarenta anos \u2014 isso mesmo, quarenta anos, de 1971 a 2012. S\u00e3o cifras em queda livre. Na d\u00e9cada de 80, a Fran\u00e7a registrava, em m\u00e9dia, 25 homic\u00eddios de agentes de pol\u00edcia por ano, mais ou menos um padr\u00e3o para na\u00e7\u00f5es desenvolvidas do mesmo porte. Na d\u00e9cada de 2000 esse n\u00famero caiu para seis \u2014 apenas seis, nem um a mais, contra os nossos atuais 250. O que mais seria preciso para admitir que estamos vivendo no meio de uma completa aberra\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>H\u00e1 alguma coisa profundamente errada com um pa\u00eds que engole passivamente o assass\u00ednio quase di\u00e1rio de seus policiais \u2014 e, com isso, diz em voz baixa aos bandidos que podem continuar matando \u00e0 vontade, pois, no fundo, est\u00e3o numa briga particular com &#8220;a pol\u00edcia&#8221;, e ningu\u00e9m vai se meter no meio. Essa degenera\u00e7\u00e3o \u00e9 o resultado direto da pol\u00edtica de covardia a que os governos estaduais brasileiros obedecem h\u00e1 d\u00e9cadas diante da criminalidade. Em nenhum lugar a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 pior do que em S\u00e3o Paulo, onde se registra a metade dos assassinatos de policiais no Brasil; com 20% da popula\u00e7\u00e3o nacional, tem 50% dos crimes cometidos nessa guerra. \u00c9 coisa que vem de longe. Desde que Franco Montoro foi eleito governador, em 1982, nas primeiras elei\u00e7\u00f5es diretas para os governos estaduais permitidas pelo regime militar, criou-se em S\u00e3o Paulo, e dali se espalhou pelo Brasil, a ideia de que reprimir delitos \u00e9 uma postura antidemocr\u00e1tica \u2014 e que a principal fun\u00e7\u00e3o do estado \u00e9 combater a viol\u00eancia da pol\u00edcia, n\u00e3o o crime. De l\u00e1 para c\u00e1, pouca coisa mudou. A consequ\u00eancia est\u00e1 a\u00ed: mais de 100 policiais paulistas assassinados em 2012.<\/p>\n<p>O jornalista Andr\u00e9 Petry, num artigo recente publicado nesta revista, apontou um fato francamente patol\u00f3gico: o governador de S\u00e3o Paulo, Geraldo Alckmin, conseguiu o prod\u00edgio de n\u00e3o comparecer ao enterro de um \u00fanico dos cento e tantos agentes da sua pol\u00edcia assassinados ao longo do ano de 2012. A atitude seria considerada monstruosa em qualquer pa\u00eds s\u00e9rio do mundo. Aqui ningu\u00e9m sequer percebe o que o homem fez, a come\u00e7ar por ele pr\u00f3prio. Se lesse essas linhas, provavelmente ficaria surpreso: &#8220;N\u00e3o, n\u00e3o fui a enterro nenhum. Qual \u00e9 o problema?&#8221;. A oposi\u00e7\u00e3o ao governador n\u00e3o disse uma palavra sobre sua aus\u00eancia nos funerais. As dezenas de grupos prontos a se indignar 24 horas por dia contra os delitos da pol\u00edcia, reais ou imagin\u00e1rios, nada viram de anormal na conduta do governador. A m\u00eddia ficou em sil\u00eancio. \u00c9 o aberto descaso pela vida, quando essa vida pertence a um policial. \u00c9, tamb\u00e9m, a capitula\u00e7\u00e3o diante de uma insensatez: a de ficar neutro na guerra aberta que os criminosos declararam contra a pol\u00edcia no Brasil.<\/p>\n<p>H\u00e1 mais que isso. A moda predominante nos governos estaduais, que vivem apavorados por padres, jornalistas, ONGs, advogados criminais e defensores de minorias, viciados em crack, mendigos, vadios e por a\u00ed afora, \u00e9 perseguir as suas pr\u00f3prias pol\u00edcias \u2014 com corregedorias, ouvidorias, procuradorias e tudo o que ajude a mostrar quanto combatem a &#8220;arbitrariedade&#8221;. Sua \u00faltima inven\u00e7\u00e3o, em S\u00e3o Paulo, foi proibir a pol\u00edcia de socorrer v\u00edtimas em cenas de crime, por desconfiar que fa\u00e7a alguma coisa errada se o ferido for um criminoso; com isso, os policiais paulistas tornam-se os \u00fanicos cidad\u00e3os brasileiros proibidos de ajudar pessoas que estejam sangrando no meio da rua. \u00c9 crescente o n\u00famero de promotores que n\u00e3o veem como sua principal obriga\u00e7\u00e3o obter a condena\u00e7\u00e3o de criminosos; o que querem \u00e9 lutar contra a \u201chigieniza\u00e7\u00e3o&#8221; das ruas, a \u201cpostura repressiva\u201d da pol\u00edcia e a\u00e7\u00f5es que incomodem os \u201cexclu\u00eddos\u201d. Muitos juizes seguem na mesma prociss\u00e3o. Dentro e fora dos governos continua a ser aceita, como verdade cient\u00edfica, a fic\u00e7\u00e3o de que a culpa pelo crime \u00e9 da mis\u00e9ria, e n\u00e3o dos criminosos. Ignora-se o fato de que n\u00e3o existe no Brasil de hoje um \u00fanico assaltante que roube para matar a fome ou comprar o leite das crian\u00e7as. Roubam, agridem e matam porque querem um rel\u00f3gio Rolex; n\u00e3o aceitam viver segundo as regras obedecidas por todos os demais cidad\u00e3os, a come\u00e7ar pela que manda cada um ganhar seu sustento com o pr\u00f3prio trabalho. Come\u00e7am no crime aos 12 ou 13 anos de idade, estimulados pela certeza de que podem cometer os atos mais selvagens sem receber nenhuma puni\u00e7\u00e3o; aos 18 ou 19 anos j\u00e1 est\u00e3o decididos a continuar assim pelo resto da vida.<\/p>\n<p>Essa trag\u00e9dia, obviamente, n\u00e3o \u00e9 um \u201cproblema dos estados\u201d, fantasia que os governos federais inventaram h\u00e1 mais de 100 anos para o seu pr\u00f3prio conforto \u2014 \u00e9 um problema do Brasil. A presidente Dilma Rousseff acorda todos os dias num pa\u00eds onde h\u00e1 50000 homic\u00eddios por ano; ao ir para a cama de noite, mais 140 brasileiros ter\u00e3o sido assassinados ao longo de sua jomada de trabalho. Dilma parece n\u00e3o sentir que isso seja um absurdo. No m\u00e1ximo, faz uma ou outra reuni\u00e3o in\u00fatil para discutir \u201cpol\u00edticas p\u00fablicas\u201d de seguran\u00e7a, em que s\u00f3 se fala em verbas e todos ficam tentando adivinhar o que a presidente quer ouvir. N\u00e3o tem paci\u00eancia para lidar com o assunto; quer voltar logo ao seu computador, no qual se imagina capaz de montar estrat\u00e9gias para desproblematizar as problematiza\u00e7\u00f5es que merecem a sua aten\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se d\u00e1 conta de que preside um pa\u00eds ocupado, onde a tropa de ocupa\u00e7\u00e3o s\u00e3o os criminosos.<\/p>\n<p>Muito pouca gente, na verdade, se d\u00e1 conta. Os militares se preocupam com tanques de guerra, ca\u00e7as e fragatas que n\u00e3o servem para nada; est\u00e3o \u00e0 espera da invas\u00e3o dos t\u00e1rtaros, quando o inimigo real est\u00e1 aqui dentro. N\u00e3o podem, por lei. fazer nada contra o crime \u2014\u00a0 n\u00e3o conseguem nem mesmo evitar que seus quart\u00e9is sejam regularmente roubados por criminosos \u00e0 procura de armas. A classe m\u00e9dia, frequentemente em luta para pagar as contas do m\u00eas, se encanta porque tamb\u00e9m ela, agora, come\u00e7a a poder circular em carros blindados: noticia-se, para orgulho geral, que essa maravilha estar\u00e1 chegando em breve \u00e0 classe C. O n\u00famero de seguran\u00e7as de terno preto plantados na frente das escolas mais caras, na hora da sa\u00edda, est\u00e1 a caminho de superar o n\u00famero de professores. As autoridades, enfim, parecem dizer aos policiais: \u201cDamos verbas a voc\u00eas. Damos carros. Damos armas. Damos coletes salva-vidas. Virem-se\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 perturbadora, no Brasil de hoje, a facilidade com que governantes e cidad\u00e3os passaram a aceitar o conv\u00edvio di\u00e1rio com o mal em estado puro. \u00c9 um &#8220;tudo bem\u201d crescente, que aceita cada vez mais como normal o que \u00e9 positivamente anormal \u2014 \u201ctudo bem\u201d que policiais sejam assassinados quase todos os dias, que 90% dos homic\u00eddios jamais cheguem a ser julgados, que delinquentes privatizem para seu uso \u00e1reas inteiras das grandes cidades. E da\u00ed? Estamos t\u00e3o bem que a \u00faltima grande ideia do governo, em mat\u00e9ria de seguran\u00e7a, \u00e9 uma campanha de propaganda que recomenda ao cidad\u00e3o: \u201cProteja a sua fam\u00edlia. Desarme-se\u201d. \u00c9 uma bela maneira, sem d\u00favida, de namorar com o suic\u00eddio.<\/p>\n<p>Fonte: Veja<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Se nada piorar neste ano de 2013, cerca de 250 policiais ser\u00e3o assassinados no Brasil at\u00e9 o pr\u00f3ximo dia 31<span class=\"excerpt-hellip\"> [\u2026]<\/span><\/p>\n","protected":false},"author":6,"featured_media":14381,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[9],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21962"}],"collection":[{"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21962"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21962\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21962"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21962"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21962"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}