{"id":21964,"date":"2013-03-20T12:59:53","date_gmt":"2013-03-20T15:59:53","guid":{"rendered":"https:\/\/fenaprf.org.br\/?p=21964"},"modified":"2013-03-20T12:59:53","modified_gmt":"2013-03-20T15:59:53","slug":"o-idh-e-o-conto-do-imperador-sem-roupa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/o-idh-e-o-conto-do-imperador-sem-roupa\/","title":{"rendered":"O IDH e o conto do imperador sem roupa"},"content":{"rendered":"<p>Na f\u00e1bula de Hans Christian Andersen apenas as pessoas inteligentes poderiam ver o tecido especial (que n\u00e3o existia) com o qual se faria a &#8220;roupa nova do imperador&#8221;. Mas sem ser avisada, uma crian\u00e7a notou que o imperador estava sem roupa. Desde a sua cria\u00e7\u00e3o em 1990, o \u00cdndice de Desenvolvimento Humano (IDH) tem feito o papel da crian\u00e7a na f\u00e1bula ao chamar a aten\u00e7\u00e3o das sociedades para como elas est\u00e3o &#8220;vestindo-se&#8221; com as pe\u00e7as b\u00e1sicas do desenvolvimento humano.<\/p>\n<p>Com a not\u00edcia oficial de que o Brasil continua est\u00e1vel no ranking do IDH, parece que o imperador continua vestido, mas uma olhada mais detalhada nos n\u00fameros trazidos pelo IDH e sua nova metodologia sugere pelo menos a exist\u00eancia de tr\u00eas conjuntos de raz\u00f5es para preocupar-nos com a roupa do imperador, mesmo correndo o risco de parecermos pouco inteligentes para a corte.<\/p>\n<p>O primeiro conjunto de raz\u00f5es \u00e9 sobre a tend\u00eancia agregada do ranking do Brasil no longo-prazo. Quando comparamos a evolu\u00e7\u00e3o do IDH desde a sua cria\u00e7\u00e3o notamos que o Brasil j\u00e1 esteve muito melhor posicionado no ranking, por exemplo 51\u00ba em 1990, 58\u00ba em 1996 e 63\u00ba em 2005. De fato, desde esse \u00faltimo ano, o ranking do Brasil no IDH vem caindo, atingindo o seu ranking mais baixo de toda a hist\u00f3ria justamente em 2012. Pode-se contra-argumentar que em outros anos n\u00e3o foram inclu\u00eddos 187 pa\u00edses como em 2012 e 2011 (a m\u00e9dia hist\u00f3rica \u00e9 de 175 pa\u00edses), mas o fato \u00e9 que a maior parte das inclus\u00f5es ao longo do tempo foram abaixo do Brasil.<br \/>\nEnquanto o pa\u00eds n\u00e3o investir pesadamente em sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o haver\u00e1 evolu\u00e7\u00e3o relativa no ranking.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos 10 anos, o Peru ultrapassou o Brasil no ranking e em 2012 o Brasil ultrapassou o Equador. Outros pa\u00edses, aparte das quedas da Argentina e Costa Rica, se mantiveram est\u00e1veis no ranking, o que n\u00e3o \u00e9 uma boa not\u00edcia para o Brasil: a desacelera\u00e7\u00e3o do crescimento do IDH do pa\u00eds \u00e9 mais significativa do que a de outros pa\u00edses latino-americanos e n\u00e3o se vislumbra possibilidades do Brasil alcan\u00e7ar o IDH de pa\u00edses como Chile, Argentina, Uruguai, Cuba, Panam\u00e1, M\u00e9xico, Costa Rica e mesmo Venezuela no m\u00e9dio prazo.<br \/>\nArgumentos do tipo &#8220;a taxa de crescimento do IDH brasileiro de 1990 a 2012 foi de 24%, maior que a do Chile, Argentina e M\u00e9xico&#8221; infelizmente ignoram que se considerados outros per\u00edodos, por exemplo nos \u00faltimos 5 anos, a taxa de crescimento do IDH da Argentina e de outros 7 pa\u00edses latino-americanos \u00e9 superior a do Brasil. O problema n\u00e3o \u00e9 que o Brasil n\u00e3o tenha melhorado no longo-prazo, o problema \u00e9 a desacelera\u00e7\u00e3o recente do crescimento do IDH brasileiro, principalmente levando-se em considera\u00e7\u00e3o que pa\u00edses como o Brasil na 85\u00ba posi\u00e7\u00e3o deveriam crescer mais do que pa\u00edses como Chile (40\u00ba) e Argentina (45\u00ba) pela simples raz\u00e3o que t\u00eam mais espa\u00e7o para crescer dentro da escala zero a um do IDH.<\/p>\n<p>O segundo conjunto de raz\u00f5es \u00e9 sobre as defici\u00eancias estruturais que seguem no pa\u00eds, principalmente nas \u00e1reas da sa\u00fade e da educa\u00e7\u00e3o. Dentro de um conjunto de 12 pa\u00edses latino-americanos que est\u00e3o no mesmo grupo de desenvolvimento do Brasil, mais Chile e Argentina, pode-se notar que o Brasil \u00e9 o pa\u00eds que tem a taxa de expectativa de vida mais baixa de todos. Enquanto vivemos em m\u00e9dia 74 anos, pessoas que vivem no Chile vivem 79,3 anos, na Argentina 76,1 anos, no Uruguai 77,2 anos, etc. O Brasil \u00e9 um dos pa\u00edses latino-americanos onde a distribui\u00e7\u00e3o da expectativa de vida \u00e9 mais desigual, com perdas de 14,4% no IDH-sa\u00fade. Tamb\u00e9m \u00e9 o pa\u00eds com o pior \u00edndice de satisfa\u00e7\u00e3o com a sa\u00fade, com apenas 44% de aprova\u00e7\u00e3o. Na educa\u00e7\u00e3o, temos a maior taxa de abandono do prim\u00e1rio (24,3%) e uma das menores taxas de matr\u00edcula no terci\u00e1rio (36,1%) dentre os pa\u00edses latino-americanos no mesmo grupo de desenvolvimento. O dados do IDH revelam que enquanto o pa\u00eds n\u00e3o investir pesadamente em sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o deve haver evolu\u00e7\u00e3o relativa no ranking do IDH. Associado ao primeiro conjunto de raz\u00f5es, n\u00e3o deve haver converg\u00eancia tamb\u00e9m em rela\u00e7\u00e3o aos pa\u00edses latino-americanos melhor posicionados no ranking.<\/p>\n<p>O terceiro conjunto de raz\u00f5es \u00e9 metodol\u00f3gico. Atualmente h\u00e1 muita dificuldade para se entender e interpretar o \u00edndice. Existem dois problemas principais que explicam essa dificuldade: o IDH passou a ser calculado em 2010 a partir de &#8220;postos vari\u00e1veis&#8221;, isto \u00e9, com base nos valores m\u00e1ximos e m\u00ednimos observ\u00e1veis anualmente para todos pa\u00edses. Com isso, o valor absoluto per se do IDH deixou de ter valor. \u00c9 preciso agora um rec\u00e1lculo do \u00edndice para que ele possa ser comparado ano a ano. E a\u00ed vem o segundo problema. Quando esse rec\u00e1lculo \u00e9 feito, grande parte da varia\u00e7\u00e3o do IDH que poderia ser observada esse ano (j\u00e1 que n\u00e3o foi registrada no ano anterior), fica computada no ano contra-factual, ou seja, no ano ajustado, que de fato nunca existiu e nem vai existir. O rec\u00e1lculo do valor absoluto do \u00edndice em si n\u00e3o \u00e9 o problema, mas o do ranking sim. Com isso passa desapercebida a queda do Brasil no ranking do IDH no longo prazo. Por que n\u00e3o dizemos que ca\u00edmos uma posi\u00e7\u00e3o no ranking em 2012 e ca\u00edmos 11 posi\u00e7\u00f5es em 2011? (parcialmente pela entrada de 7 novos pa\u00edses a frente do Brasil?) Fica o medo talvez de dizermos que o imperador est\u00e1 sem roupa.<\/p>\n<p>Seria injusto qualificar os programas sociais brasileiros de uma &#8220;linda roupa&#8221; feita com o tecido especial do alfaiate de Christian Andersen. H\u00e1 muita coisa boa feita no pa\u00eds e elogios s\u00e3o devidos \u00e0s v\u00e1rias pol\u00edticas p\u00fablicas nacionais, principalmente as que se preocupam com as pessoas mais pobres. A quest\u00e3o n\u00e3o parece ser &#8220;o qu\u00ea&#8221;, mas o &#8220;como&#8221; dessas pol\u00edticas, porque vistas sob a \u00f3tica do IDH elas t\u00eam produzido o impacto do imperador sem roupa. Possivelmente os programas sociais focam demais na renda como crit\u00e9rio de sele\u00e7\u00e3o e avalia\u00e7\u00e3o de impacto dos mesmos. Moral da hist\u00f3ria: olhe, olhe de novo, olhe de novo, de novo, precisamos da coragem das crian\u00e7as e do que \u00e9 dito pelo IDH para que enfrentar o \u00f3bvio e para que todos tenhamos um futuro melhor no nosso pa\u00eds.<\/p>\n<p>Flavio Comim \u00e9 professor de economia da UFRGS e da Universidade de Cambridge.<\/p>\n<div>Fonte: Clipping Minist\u00e9rio do Planejamento<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na f\u00e1bula de Hans Christian Andersen apenas as pessoas inteligentes poderiam ver o tecido especial (que n\u00e3o existia) com o<span class=\"excerpt-hellip\"> [\u2026]<\/span><\/p>\n","protected":false},"author":6,"featured_media":16438,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[9],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21964"}],"collection":[{"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21964"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21964\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21964"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21964"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21964"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}