{"id":23423,"date":"2013-05-20T12:03:24","date_gmt":"2013-05-20T15:03:24","guid":{"rendered":"https:\/\/fenaprf.org.br\/?p=23423"},"modified":"2013-05-20T12:03:24","modified_gmt":"2013-05-20T15:03:24","slug":"desafios-do-movimento-sindical-no-brasil-e-no-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/desafios-do-movimento-sindical-no-brasil-e-no-mundo\/","title":{"rendered":"Desafios do movimento sindical no Brasil e no mundo"},"content":{"rendered":"<p>A absurda concentra\u00e7\u00e3o de renda contrasta com a igualmente absurda da mis\u00e9ria que ainda existe no mundo e desafia a raz\u00e3o, pois coloca em risco a pr\u00f3pria humanidade. Trata-se, aqui, de reconhecer a din\u00e2mica suicida que os detentores do poder econ\u00f4mico imp\u00f5em ao planeta. Se \u00e9 inaceit\u00e1vel que 1% da popula\u00e7\u00e3o mundial imponha aos demais tal estado de opress\u00e3o e exclus\u00e3o, mais inaceit\u00e1vel \u00e9 que os outros 99% se submetam a isto. At\u00e9 quando?<\/p>\n<p>Considerando que a consci\u00eancia emana da experi\u00eancia concreta, ent\u00e3o, a organiza\u00e7\u00e3o sindical \u00e9 um dos principais instrumentos para a forma\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia de classe e transforma\u00e7\u00e3o social. Para tanto, precisamos retomar alguns princ\u00edpios b\u00e1sicos e desmistificar conceitos que est\u00e3o sendo incorporados ao nosso pr\u00f3prio discurso, mas que merecem uma reflex\u00e3o especial para evitarmos que se transformem no &#8220;canto da sereia&#8221;.<\/p>\n<p>O princ\u00edpio b\u00e1sico \u00e9 que n\u00e3o existe gera\u00e7\u00e3o de riqueza sem trabalho. A crise financeira internacional de 2008 \u00e9 a prova mais contundente disto. O capital por si s\u00f3 n\u00e3o gera riqueza. A desregulamenta\u00e7\u00e3o do fluxo de capitais e a especula\u00e7\u00e3o financeira que culminaram na crise serviram apenas para concentrar ainda mais a riqueza mundial, na medida em que os preju\u00edzos foram transferidos para a classe trabalhadora. Entramos aqui em outro conceito fundamental que \u00e9 a divis\u00e3o social em classes: a classe dominante, detentora do capital, e a classe trabalhadora que gera riqueza e conhecimento com seu trabalho. Embora as caracter\u00edsticas de ambas tenham mudado ao longo do \u00faltimo s\u00e9culo, em fun\u00e7\u00e3o do desenvolvimento dos meios de produ\u00e7\u00e3o e de comunica\u00e7\u00e3o, a din\u00e2mica da luta de classes est\u00e1 ainda no centro da organiza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e social, e nunca foi t\u00e3o atual quanto neste per\u00edodo ap\u00f3s 2008.<\/p>\n<p>Por outro lado, nos defrontamos com conceitos novos que v\u00eam sendo incorporados em nosso discurso como di\u00e1logo social, trabalho decente e tripartismo, mas que precisam ser muito bem entendidos e contextualizados. Tanto o di\u00e1logo social, quanto a conquista do trabalho decente pressup\u00f5em atores fortes, em condi\u00e7\u00f5es de igualdade num processo de negocia\u00e7\u00e3o, da mesma forma que o tripartismo s\u00f3 promove avan\u00e7os quando o Estado (o terceiro componente, al\u00e9m do capital e do trabalho) assume seu papel na defesa do bem estar social. \u00c9 neste contexto que a organiza\u00e7\u00e3o sindical assume um papel central.<\/p>\n<p>\u2022 O seu primeiro desafio \u00e9, a partir da realidade concreta, da experi\u00eancia di\u00e1ria do trabalhador, reconstruir a consci\u00eancia de classe. O trabalhador precisa se reconhecer como ator no processo social, agente na gera\u00e7\u00e3o de riqueza, mas precisa se reconhecer tamb\u00e9m como sujeito alienado de seus direitos, expropriado da parte que lhe \u00e9 devida neste mesmo processo. Os trabalhadores no Brasil e no mundo precisam se apropriar desta consci\u00eancia, no dia-a-dia, no seu local de trabalho, nas campanhas salariais, nos processos de negocia\u00e7\u00e3o permanente. Mas isto s\u00f3 ser\u00e1 poss\u00edvel quando eles forem atores tamb\u00e9m da a\u00e7\u00e3o sindical. O primeiro desafio, ent\u00e3o, \u00e9 levar o sindicato para a vida do trabalhador, para o dia-a-dia no local de trabalho. A constru\u00e7\u00e3o das pautas e do processo de negocia\u00e7\u00e3o deve ser dialogada com o trabalhador. Esta participa\u00e7\u00e3o gera comprometimento e se constitui em uma etapa fundamental na forma\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia de classe.<\/p>\n<p>\u2022 Como segundo desafio, o movimento sindical deve construir um novo discurso a partir do conhecimento profundo da realidade da classe trabalhadora, precisa falar para os cora\u00e7\u00f5es e as mentes dos trabalhadores e trabalhadoras, conhecer seus sofrimentos e seus sonhos, resgatar a esperan\u00e7a de viver em um mundo melhor. Precisamos inverter a pauta que atualmente domina os interesses e o debate dentro dos nossos sindicatos, federa\u00e7\u00f5es e confedera\u00e7\u00e3o que diz respeito \u00e0s disputas internas e externas. Nossas entidades sindicais hoje consomem a maior parte de suas energias na manuten\u00e7\u00e3o da sua estrutura, nas elei\u00e7\u00f5es sindicais e nas brigas internas. Precisamos nos consumir com o trabalho de base. O trabalhador deve confiar em seu sindicato e nos dirigentes que o representam, deve reconhecer em sua a\u00e7\u00e3o o poder do coletivo.<\/p>\n<p>\u2022 O terceiro desafio \u00e9 buscar a unidade. Precisamos resgatar a solidariedade de classe, ter uma pauta m\u00ednima que unifique todos os trabalhadores e trabalhadoras. As nossas entidades sindicais devem colocar esta pauta de classe acima dos interesses corporativos. A fragmenta\u00e7\u00e3o sindical que vivemos hoje, para al\u00e9m da responsabilidade da nossa estrutura legal, \u00e9 tamb\u00e9m responsabilidade nossa na medida em que colocamos os interesses corporativos acima dos interesses de classe, o que explica boa parte de nossas divis\u00f5es internas e disputas de poder. Neste sentido, devemos caminhar para processos de negocia\u00e7\u00e3o em conjunto que ser\u00e3o o primeiro passo para a constru\u00e7\u00e3o de entidades de ramo e o fortalecimento dos processos de negocia\u00e7\u00e3o coletiva.<\/p>\n<p>Como quarto desafio, destaco a luta por pol\u00edticas p\u00fablicas. Se cabe ao movimento sindical a defesa dos interesses da classe trabalhadora, precisamos considerar que uma das melhores formas de distribuir renda hoje no Brasil, e em muitos outros pa\u00edses no mundo, \u00e9 avan\u00e7ar em pol\u00edticas p\u00fablicas nas \u00e1reas de educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade, habita\u00e7\u00e3o, saneamento e prote\u00e7\u00e3o social. T\u00e3o importantes quanto o aumento de sal\u00e1rio, a redu\u00e7\u00e3o da jornada e o fim do ass\u00e9dio moral s\u00e3o o acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o e \u00e0 sa\u00fade p\u00fablica de qualidade, bem como viver em uma cidade sem viol\u00eancia e com transporte p\u00fablico eficiente. Estas conquistas de cidadania s\u00e3o tamb\u00e9m um mecanismo poderoso de inclus\u00e3o social. Cabe ao movimento sindical assumir a frente nestas lutas tamb\u00e9m, ao lado de outras entidades da sociedade organizada.<\/p>\n<p>\u2022 O quinto desafio, mas com certeza n\u00e3o o \u00faltimo, \u00e9 impedir a flexibiliza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es de trabalho. Nos \u00faltimos dez anos, avan\u00e7amos no processo de retomada do crescimento no Brasil, reduzimos a informalidade e o desemprego a taxas quase de pleno emprego, promovemos a inclus\u00e3o social de mais de 40 milh\u00f5es de brasileiros e de brasileiras. Por outro lado, a rotatividade nunca foi t\u00e3o alta e o subemprego, com o avan\u00e7o da terceiriza\u00e7\u00e3o, rebaixa os padr\u00f5es de remunera\u00e7\u00e3o e de direitos da classe trabalhadora. Ser\u00e1 que este crescimento est\u00e1 resultando em desenvolvimento? O Brasil precisa avan\u00e7ar em dire\u00e7\u00e3o e outro padr\u00e3o de desenvolvimento que s\u00f3 ser\u00e1 alcan\u00e7ado com a valoriza\u00e7\u00e3o do trabalho, o investimento em novas tecnologias e na qualifica\u00e7\u00e3o profissional, com amplia\u00e7\u00e3o dos direitos do trabalhador brasileiro. Cabe ao movimento sindical a responsabilidade de organizar e mobilizar os trabalhadores contra qualquer ofensiva que vise flexibilizar e precarizar as rela\u00e7\u00f5es de trabalho em nome de avan\u00e7os atrav\u00e9s dos processos de negocia\u00e7\u00e3o. Longe de ser moderno, o modelo atual de negocia\u00e7\u00e3o coletiva que a classe dominante nos prop\u00f5e \u00e9 selvagem, destrutivo e tem por objetivo reduzir custos atrav\u00e9s da retirada de direitos.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso enfrentar sem concess\u00f5es a quest\u00e3o da distribui\u00e7\u00e3o de renda. Segundo o fil\u00f3sofo esloveno, Slavoj Zizek, o tempo para a chantagem liberal e moralista chegou ao fim, n\u00e3o h\u00e1 mais m\u00e1scaras. O poder econ\u00f4mico se sustenta sobre uma l\u00f3gica suicida e nos levar\u00e1 para o abismo se este ciclo de concentra\u00e7\u00e3o de renda n\u00e3o for encerrado, pois se sustenta sobre uma din\u00e2mica de produ\u00e7\u00e3o e de consumo que n\u00e3o leva em conta a sustentabilidade, apenas a acumula\u00e7\u00e3o da riqueza. N\u00e3o existem bons mo\u00e7os como a constru\u00e7\u00e3o de um Estado de Bem Estar Social nos fez crer. Diante da amea\u00e7a de distribui\u00e7\u00e3o da riqueza, todas as nossas conquistas nos s\u00e3o retiradas como se fossem uma concess\u00e3o. N\u00e3o existe auto-regula\u00e7\u00e3o; a ideologia liberal prova seu fracasso diante de um planeta que pede socorro. A Confer\u00eancia do Trabalho Decente no Brasil, a primeira a ser realizada em todo o mundo, terminou com gosto de fracasso com a bancada patronal se retirando da plen\u00e1ria final, demonstrando qual a real perspectiva de di\u00e1logo com os empres\u00e1rios no nosso pa\u00eds quando se trata de avan\u00e7ar em direitos para a classe trabalhadora.<\/p>\n<p>Estamos vivendo no Brasil do futuro que nosso pa\u00eds e av\u00f3s nos falaram. Esta \u00e9 a oportunidade que tanto esperamos de construir um Brasil desenvolvido, com trabalho digno, educa\u00e7\u00e3o e sa\u00fade para todos, com acesso \u00e0 cultura e a uma cidade sem viol\u00eancia. Ningu\u00e9m defender\u00e1 nossos interesses, sen\u00e3o o trabalhador organizado. Por fim, cito novamente Zizek: &#8220;N\u00f3s somos aqueles por quem est\u00e1vamos esperando&#8221;.<\/p>\n<p>Fonte: DIAP<\/p>\n<p>Autor: Jacy Afonso, Banc\u00e1rio, secret\u00e1rio de Organiza\u00e7\u00e3o da CUT Nacional e membro do CDES (Conselho de Desenvolvimento Econ\u00f4mico e Social)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A absurda concentra\u00e7\u00e3o de renda contrasta com a igualmente absurda da mis\u00e9ria que ainda existe no mundo e desafia a<span class=\"excerpt-hellip\"> [\u2026]<\/span><\/p>\n","protected":false},"author":6,"featured_media":6886,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[9],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23423"}],"collection":[{"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=23423"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23423\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=23423"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=23423"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=23423"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}