{"id":23692,"date":"2013-05-31T14:15:07","date_gmt":"2013-05-31T17:15:07","guid":{"rendered":"https:\/\/fenaprf.org.br\/?p=23692"},"modified":"2013-05-31T14:15:07","modified_gmt":"2013-05-31T17:15:07","slug":"o-ipva-e-as-sancoes-politicas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/o-ipva-e-as-sancoes-politicas\/","title":{"rendered":"O IPVA e as san\u00e7\u00f5es pol\u00edticas"},"content":{"rendered":"<p>Encerrado o primeiro trimestre e com ele o vencimento das parcelas do IPVA, inicia-se o prazo para obten\u00e7\u00e3o do novo Certificado de Registro e Licenciamento do Ve\u00edculo (CRLV), cuja emiss\u00e3o pressup\u00f5e o pagamento do referido imposto, al\u00e9m de multas vinculados ao autom\u00f3vel, nos termos do artigo 131, par\u00e1grafo 2\u00ba, do C\u00f3digo de Tr\u00e2nsito Brasileiro.<\/p>\n<p>Com isso, intensifica-se a fiscaliza\u00e7\u00e3o estadual por meio das t\u00e3o conhecidas &#8220;blitz&#8221;, em que as autoridades de tr\u00e2nsito, verificando que o condutor n\u00e3o est\u00e1 de porte do CRLV do exerc\u00edcio ou, na sua falta, constatando que n\u00e3o foram quitados o imposto e as demais multas administrativas, procedem \u00e0 apreens\u00e3o e remo\u00e7\u00e3o do ve\u00edculo.<\/p>\n<p>A pr\u00e1tica de apreens\u00e3o veicular tem sido utilizada, inclusive, como instrumento na &#8220;guerra fiscal&#8221; entre Estados, como se pode verificar da denominada &#8220;Opera\u00e7\u00e3o de Olho na Placa&#8221;, realizada no Estado de S\u00e3o Paulo, onde foram apreendidos centenas de ve\u00edculos, principalmente os de propriedade de empresas locadoras de autom\u00f3veis que registraram seus ve\u00edculos e recolheram o IPVA correlato em ente diverso da Federa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No entanto, a apreens\u00e3o de autom\u00f3veis e o \u00f3bice \u00e0 emiss\u00e3o do CRLV exclusivamente em virtude do n\u00e3o recolhimento do IPVA constituem verdadeiras san\u00e7\u00f5es pol\u00edticas impostas pelo Fisco, posto que visam compelir o pagamento de tributo, em claro desrespeito \u00e0s garantias fundamentais do contribuinte.<\/p>\n<p>Aqui, n\u00e3o se nega que os atos da administra\u00e7\u00e3o tribut\u00e1ria sejam atribu\u00eddos de imperatividade, qualidade pela qual aquele se imp\u00f5e a terceiros, independentemente da concord\u00e2ncia destes.<\/p>\n<p>Constatando-se a subsun\u00e7\u00e3o entre o evento e a hip\u00f3tese de incid\u00eancia, o Fisco, independentemente da aceita\u00e7\u00e3o do contribuinte, deve constituir a obriga\u00e7\u00e3o tribut\u00e1ria, conferindo exigibilidade ao cr\u00e9dito tribut\u00e1rio, habilitando-a a exigi-lo de terceiros.<\/p>\n<p>A exigibilidade, por\u00e9m, n\u00e3o se confunde com a executoriedade que, por sua vez, traduz-se na capacidade do aparato administrativo obter o cumprimento das obriga\u00e7\u00f5es independentemente da interven\u00e7\u00e3o do Judici\u00e1rio. Enquanto, na executoriedade, a administra\u00e7\u00e3o est\u00e1 habilitada a satisfazer-se diretamente das obriga\u00e7\u00f5es impostas ao administrado (coa\u00e7\u00e3o material), a exigibilidade permite apenas a utiliza\u00e7\u00e3o de meios indiretos para seu cumprimento (coa\u00e7\u00e3o indireta).<\/p>\n<p>As decis\u00f5es da administra\u00e7\u00e3o tribut\u00e1ria, portanto, n\u00e3o gozam de executoriedade, mas apenas de exigibilidade, podendo o Fisco valer-se t\u00e3o-somente de meios que tenham por objetivo impelir, indiretamente, o cumprimento da obriga\u00e7\u00e3o (como exemplo o \u00f3bice \u00e0 emiss\u00e3o de certid\u00f5es de regularidade fiscal e a inscri\u00e7\u00e3o em cadastro de devedores).<\/p>\n<p>A apreens\u00e3o de ve\u00edculos e o \u00f3bice \u00e0 emiss\u00e3o do CRLV em virtude do n\u00e3o recolhimento do IPVA s\u00e3o san\u00e7\u00f5es pol\u00edticas<\/p>\n<p>Contudo, mesmo os instrumentos de coa\u00e7\u00e3o indireta encontram limites na ordem constitucional, n\u00e3o podendo o Fisco utilizar-se de medidas que restrinjam ou impe\u00e7am, direta ou indiretamente, o direito de propriedade de um determinado bem, para obter pagamento de seus cr\u00e9ditos. Em exemplo citado na doutrina, seria o mesmo que retirar o contribuinte de sua resid\u00eancia em caso de inadimplemento do IPTU.<\/p>\n<p>\u00c9 que, dentre as garantias constitucionais do contribuinte em face do abuso do Estado, t\u00e3o pr\u00f3digo na cobran\u00e7a de seus tributos, est\u00e3o o direito de propriedade, o do devido processo legal, consubstanciado no direito \u00e0 ampla defesa e ao contradit\u00f3rio, e a veda\u00e7\u00e3o \u00e0 limita\u00e7\u00e3o do tr\u00e1fego de bens e pessoas por meio de tributos.<\/p>\n<p>Assim, cabe \u00e0 administra\u00e7\u00e3o fazend\u00e1ria formalizar a exig\u00eancia da obriga\u00e7\u00e3o por meio de lan\u00e7amento fiscal e, em seguida, notificar o contribuinte para que, querendo, apresente impugna\u00e7\u00e3o administrativa. N\u00e3o sendo apresentada defesa ou sobrevindo decis\u00e3o irrecorr\u00edvel na esfera administrativa, constitui-se definitivamente o cr\u00e9dito tribut\u00e1rio, o qual dever\u00e1 ser inscrito em d\u00edvida ativa para instruir a Execu\u00e7\u00e3o Fiscal a ser proposta. Paralelamente, poder\u00e1 o Fisco inscrever o devedor em cadastro de inadimplentes e negar-lhe o fornecimento de certid\u00e3o e regularidade fiscal.<\/p>\n<p>Ora, se a Fazenda P\u00fablica disp\u00f5e de procedimentos espec\u00edficos para a cobran\u00e7ado cr\u00e9dito tribut\u00e1rio &#8211; que, ali\u00e1s, goza de relevantes garantias e privil\u00e9gios -, n\u00e3o lhe \u00e9 facultado o emprego de instrumentos outros que constrinjam o contribuinte ao recolhimento do tributo.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a apreens\u00e3o de ve\u00edculos e o \u00f3bice \u00e0 emiss\u00e3o de CRLV como forma de cobran\u00e7a do IPVA passam ao largo do teste de razoabilidade e proporcionalidade, que investiga a necessidade, adequa\u00e7\u00e3o e pertin\u00eancia dos meios utilizados para invadir o patrim\u00f4nio do contribuinte.<\/p>\n<p>Vale ressaltar, ademais, que a utiliza\u00e7\u00e3o das malsinadas &#8220;san\u00e7\u00f5es pol\u00edticas&#8221; como meio de coa\u00e7\u00e3o para o pagamento de tributos j\u00e1 foi recha\u00e7ada pelo Supremo Tribunal Federal, tal como entendimento consolidado nas S\u00famulas de n\u00fameros 70, 323 e 457.<\/p>\n<p>Atento a isso, o Tribuna de Justi\u00e7a de Minas Gerais (TJ-MG) j\u00e1 decidiu que o ordenamento jur\u00eddico vigente veda a imposi\u00e7\u00e3o de san\u00e7\u00e3o pol\u00edtica visando ao recolhimento de tributos uma vez que disp\u00f5e o ente p\u00fablico de meios leg\u00edtimos e eficazes para cobrar seus cr\u00e9ditos, sem que, para isso, venha a bloquearou mesmo restringir, direta ou indiretamente, o direito de propriedade do ve\u00edculo (Ap. Civ. n\u00ba. 1.0245.02.003219-0\/001).<\/p>\n<p>No mesmo sentido, o TJ de S\u00e3o Paulo vem entendendo que as &#8220;medidas coercitivas aplicadas na &#8220;Opera\u00e7\u00e3o de Olho na Placa&#8221; afrontam os princ\u00edpios do contradit\u00f3rio e da ampla defesa. A apreens\u00e3o de bem de particular reclama pr\u00e9vio procedimento com a observa\u00e7\u00e3o das garantias constitucionais do devido processo legal (&#8230;)&#8221;.(Ap. Civ. n\u00ba 994.09.249738-2).<\/p>\n<p>Cabe, portanto, aos contribuintes que se sentirem prejudicados, buscar no Judici\u00e1rio o restabelecimento dos seus direitos e impedir tais pr\u00e1ticas abusivas.<\/p>\n<p>Fonte: Valor Econ\u00f4mico<br \/>\nAutor: Luiz Henrique Nery Massara<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Encerrado o primeiro trimestre e com ele o vencimento das parcelas do IPVA, inicia-se o prazo para obten\u00e7\u00e3o do novo<span class=\"excerpt-hellip\"> [\u2026]<\/span><\/p>\n","protected":false},"author":6,"featured_media":16658,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[9],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23692"}],"collection":[{"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=23692"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23692\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=23692"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=23692"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=23692"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}