{"id":27950,"date":"2013-11-12T17:29:41","date_gmt":"2013-11-12T19:29:41","guid":{"rendered":"https:\/\/fenaprf.org.br\/?p=27950"},"modified":"2013-11-12T17:29:41","modified_gmt":"2013-11-12T19:29:41","slug":"nao-basta-ter-policia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/nao-basta-ter-policia\/","title":{"rendered":"N\u00e3o basta ter pol\u00edcia"},"content":{"rendered":"<p>Ela precisa ter equipamentos mais eficazes, usar t\u00e9cnicas modernas de intelig\u00eancia e evitar erros grosseiros \u2013 porque, mais do que nunca, a pol\u00edcia \u00e9 essencial<\/p>\n<p>O estudante Douglas Rodrigues morava no Ja\u00e7an\u00e3, bairro de S\u00e3o Paulo eternizado por versos de Adoniran Barbosa. Tinha 17 anos. \u00c0 noite, cursava o 3\u00ba ano do ensino m\u00e9dio. Durante o dia, trabalhava numa lanchonete em Pinheiros, na Zona Oeste da capital paulista. Acordava \u00e0s 4h30. \u201cTrabalhava, voltava para casa, tirava uma sonequinha e ia estudar\u201d, diz sua m\u00e3e, Rossana de Sousa. Na segunda-feira, dia 28 de outubro, o bairro de Douglas estava em p\u00e9 de guerra. Centenas de pessoas tomavam as ruas do Ja\u00e7an\u00e3 para protestar contra a est\u00fapida a\u00e7\u00e3o policial que, no dia anterior, tirara sua vida. Os protestos se tornaram violentos e inclu\u00edram ataques a ve\u00edculos e ao com\u00e9rcio na regi\u00e3o. A Rodovia Fern\u00e3o Dias, que liga S\u00e3o Paulo a Belo Horizonte, foi fechada, e o vandalismo se espalhou. \u00d4nibus e caminh\u00f5es foram incendiados e lojas saqueadas.<\/p>\n<p>A primeira conclus\u00e3o \u00f3bvia, diante das cenas de batalha campal num pacato bairro de classe m\u00e9dia de S\u00e3o Paulo, \u00e9 que Douglas n\u00e3o deveria ter morrido. Segundo a Pol\u00edcia Militar, dois policiais \u201catendiam ocorr\u00eancia de perturba\u00e7\u00e3o de sossego, quando suspeitaram de dois indiv\u00edduos e decidiram fiscaliz\u00e1-los\u201d. Um deles era Douglas, atingido no t\u00f3rax por um tiro disparado pelo PM Luciano Pinheiro Bispo \u2013 que Bispo alega ter sido acidental. O que a pol\u00edcia ainda n\u00e3o conseguiu explicar \u00e9 como uma abordagem, que deveria ser simples e ter como objetivo a seguran\u00e7a dos moradores, terminou em trag\u00e9dia.<br \/>\nO caso sintetiza \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o o momento vivido pelas pol\u00edcias no Brasil, por alguns motivos: a) a forma como a pol\u00edcia se relaciona com a popula\u00e7\u00e3o, especialmente nas periferias das grandes cidades, est\u00e1 ultrapassada; b) a pol\u00edcia n\u00e3o conseguiu conter de maneira eficaz os protestos no bairro porque ainda n\u00e3o aprendeu a lidar com esse tipo de ocorr\u00eancia; c) a aus\u00eancia de coordena\u00e7\u00e3o com a Pol\u00edcia Rodovi\u00e1ria Federal para a r\u00e1pida libera\u00e7\u00e3o da Rodovia Fern\u00e3o Dias exp\u00f4s a dist\u00e2ncia existente entre as diversas for\u00e7as policiais; d) a onda de protestos que, desde junho, assola o pa\u00eds criou uma oportunidade para o crime organizado realizar crimes, desgastar a pol\u00edcia e emparedar os governantes. \u00c9 um cen\u00e1rio que precisa, rapidamente, mudar. Num per\u00edodo marcado tanto por protestos leg\u00edtimos como por vandalismo indiscriminado, nunca o Brasil precisou tanto de for\u00e7as policiais modernas, eficazes, inteligentes e respeitadas pela popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Segundo apurou \u00c9POCA, a Secretaria de Seguran\u00e7a P\u00fablica de S\u00e3o Paulo tem elementos que sugerem a participa\u00e7\u00e3o do crime organizado nos protestos do Ja\u00e7an\u00e3, em resposta \u00e0 tentativa do Estado de tentar enviar para o Regime Disciplinar Diferenciado (RDD) l\u00edderes da fac\u00e7\u00e3o criminosa PCC que est\u00e3o em pres\u00eddios paulistas. Desde os protestos de junho pelo pa\u00eds, v\u00e1rias foram as demonstra\u00e7\u00f5es de in\u00e9pcia policial para lidar com as passeatas e os black blocs \u2013 mascarados que destroem bancos, esta\u00e7\u00f5es de metr\u00f4, telefones p\u00fablicos, \u00f4nibus e o que mais estiver pela frente. As a\u00e7\u00f5es das for\u00e7as de seguran\u00e7a n\u00e3o foram capazes de conter a viol\u00eancia. Somente no Rio de Janeiro, o preju\u00edzo total chegou a R$ 1,3 bilh\u00e3o. De acordo com a Federa\u00e7\u00e3o Brasileira de Bancos (Febraban), os bancos gastaram pelo menos R$ 140 milh\u00f5es para recuperar ag\u00eancias depredadas em todo o pa\u00eds.<\/p>\n<p>No in\u00edcio da onda de protestos, a PM paulista acreditou que apenas a repress\u00e3o resolveria. O resultado: at\u00e9 gente que nem participava das manifesta\u00e7\u00f5es foi atingida pela viol\u00eancia policial. Isso abalou a imagem da pol\u00edcia. Acuada, num segundo momento a PM, em S\u00e3o Paulo e em outros Estados, passou a se omitir em manifesta\u00e7\u00f5es e a\u00e7\u00f5es das mais diversas naturezas. No \u00faltimo dia 18, 178 cachorros da ra\u00e7a beagle foram furtados por ativistas do Instituto Royal, em S\u00e3o Roque, no interior paulista. Os c\u00e3es eram usados em testes de medicamentos para doen\u00e7as como c\u00e2ncer e diabetes, autorizados pelos \u00f3rg\u00e3os respons\u00e1veis. Em vez de prender os ativistas, que invadiam de forma ilegal uma propriedade privada, a pol\u00edcia foi complacente. \u201cNo meu entendimento, os policiais erraram. N\u00e3o podiam ter deixado acontecer. N\u00e3o consegue prender todo mundo? Prende quem puder\u201d, diz o coronel Jos\u00e9 Vicente da Silva Filho, ex-secret\u00e1rio nacional de Seguran\u00e7a P\u00fablica. Ele cita um exemplo da pol\u00edcia americana. \u201cTodo mundo pulava a catraca do metr\u00f4 em Nova York, e a pol\u00edcia achava que n\u00e3o podia fazer nada. Um dia passaram a prender quantos conseguissem. Depois de dois meses, ningu\u00e9m mais pulava.\u201d<br \/>\nApesar de ter chocado a popula\u00e7\u00e3o paulistana, casos como o de Douglas s\u00e3o comuns em favelas cariocas, segundo o coordenador do Laborat\u00f3rio de An\u00e1lise da Viol\u00eancia da Uerj, Ign\u00e1cio Cano. \u201cEsse epis\u00f3dio de comunidade se revoltando \u00e9 bastante comum no Rio de Janeiro. S\u00e3o muitos os casos parecidos, com meninos feridos e mortos em comunidades cariocas. A pol\u00edcia acaba dizendo que foi o tr\u00e1fico. A comunidade diz que a pol\u00edcia abusou da for\u00e7a. Isso n\u00e3o gera um di\u00e1logo construtivo\u201d, diz Cano. Ele cita um caso recente no Rio, em Manguinhos. Segundo a pol\u00edcia, um garoto morreu sob efeitos de drogas. De acordo com a fam\u00edlia, ele foi espancado at\u00e9 morrer. No caso do Ja\u00e7an\u00e3, ao que tudo indica, o policial falhou no manuseio da arma. \u201cO policial n\u00e3o pode fazer uma abordagem com uma arma engatilhada e apontada para a pessoa que ser\u00e1 abordada. O procedimento-padr\u00e3o n\u00e3o foi respeitado. Erros assim desmoralizam o trabalho de qualquer pol\u00edcia e mostram quanto \u00e9 complexo o processo de forma\u00e7\u00e3o de um bom policial\u201d, diz Leandro Carneiro, especialista em seguran\u00e7a p\u00fablica da USP.<\/p>\n<p>O coronel Jos\u00e9 Vicente reconhece o erro do policial no Ja\u00e7an\u00e3, mas considera a prepara\u00e7\u00e3o da pol\u00edcia paulista uma das melhores do mundo. Na academia de pol\u00edcia de S\u00e3o Paulo, diz ele, um PM d\u00e1 mais de 700 tiros durante seu per\u00edodo de treinamento. Em Nova York, s\u00e3o em torno de 500. \u201cN\u00e3o \u00e9 s\u00f3 quest\u00e3o de quantidade, mas de qualidade do treinamento. Como abordar pessoas ou um ve\u00edculo de forma segura? Como abordar um indiv\u00edduo a p\u00e9? Existe procedimento para tudo isso\u201d, diz. Um milh\u00e3o de pessoas s\u00e3o abordadas por m\u00eas em S\u00e3o Paulo. Em 2011, foram 12,3 milh\u00f5es de abordagens no Estado. Uma fatalidade como a de Douglas ocorre a cada 100 mil abordagens.<\/p>\n<p>Sua morte deu-se num momento j\u00e1 tenso na rela\u00e7\u00e3o entre policiais e a popula\u00e7\u00e3o. Nas manifesta\u00e7\u00f5es organizadas por melhorias no servi\u00e7o p\u00fablico ou em apoio a grevistas, como a paralisa\u00e7\u00e3o de professores do Rio de Janeiro, a Pol\u00edcia Militar \u00e9 vista por muitos como inimiga. Baderneiros e depredadores perderam o medo de enfrentar a for\u00e7a policial \u2013 e mostram-se prontos para atac\u00e1-la sem piedade, caso a oportunidade apare\u00e7a. Foi o que ocorreu quando o coronel Reynaldo Rossi, de 48 anos, da PM paulista, viu-se cercado por mascarados, durante um protesto por tarifa zero no transporte p\u00fablico, no centro de S\u00e3o Paulo, na noite do dia 25, sexta-feira. Ele foi agredido seguidamente por manifestantes, enquanto outros incentivavam uma esp\u00e9cie de linchamento. Rossi sofreu fraturas nas omoplatas e les\u00f5es na perna, no abdome e na cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel que algu\u00e9m d\u00ea uma pedrada num policial e responda por les\u00e3o leve, como se fossem duas pessoas comuns brigando\u201d, diz o secret\u00e1rio da Seguran\u00e7a de S\u00e3o Paulo, Fernando Grella Vieira. Dia 31 de outubro, reunidos em Bras\u00edlia, Grella, o ministro da Justi\u00e7a, Jos\u00e9 Eduardo Cardozo, e Jos\u00e9 Mariano Beltrame, secret\u00e1rio da Seguran\u00e7a do Rio, decidiram pedir \u00e0 Justi\u00e7a, via Supremo Tribunal Federal, que discipline as manifesta\u00e7\u00f5es de rua no Brasil. Querem instaurar a obrigatoriedade de notifica\u00e7\u00e3o antecipada de dia, hora e trajeto dos protestos pelos organizadores das manifesta\u00e7\u00f5es. Isso j\u00e1 \u00e9 exigido em muitos pa\u00edses, como o Reino Unido.<\/p>\n<p>O problema, como se sabe, n\u00e3o \u00e9 exclusivo do Brasil. Grandes manifesta\u00e7\u00f5es \u2013 rea\u00e7\u00f5es explosivas como a originada pela morte de Douglas ou as passeatas organizadas em junho pelo Brasil \u2013 acontecem no mundo inteiro. Em 2005, uma grande onda de vandalismo tomou conta de Paris e de outras partes da Fran\u00e7a, depois que dois jovens morreram eletrocutados, enquanto fugiam da pol\u00edcia. Filhos de imigrantes argelinos, vivendo \u00e0 margem da sociedade local, se revoltaram. Quase 9 mil ve\u00edculos foram incendiados durante v\u00e1rias noites, e o governo decretou estado de emerg\u00eancia. \u201cSempre existem eclos\u00f5es de comportamento coletivo destrutivo, isso acontece em qualquer lugar do mundo\u201d, diz o coronel Jos\u00e9 Vicente. Ele defende mudan\u00e7as na legisla\u00e7\u00e3o para aumentar as penas para crimes semelhantes no Brasil. \u201cO crime de vandalismo d\u00e1 de um a seis meses de deten\u00e7\u00e3o. Se houver dano ao patrim\u00f4nio p\u00fablico, pode chegar a tr\u00eas anos. \u00c9 muito pouco. O sujeito paga uma fian\u00e7a e volta para a rua.\u201d<\/p>\n<p>Em 2011, no Reino Unido, a pol\u00edcia de Londres matou, em circunst\u00e2ncias suspeitas, Mark Duggan, um negro de 29 anos, pai de quatro filhos. A revolta da popula\u00e7\u00e3o local foi tremenda. Manifestantes cercaram um posto policial e queimaram duas viaturas. Seguiram-se protestos e manifesta\u00e7\u00f5es que duraram cinco dias, com atos de vandalismo e saques em v\u00e1rias partes da Inglaterra. Os dist\u00farbios foram duramente reprimidos pela pol\u00edcia. Resultaram em mais de 3 mil pris\u00f5es, mais de 1.000 indiciamentos e penas severas de pris\u00e3o pela Justi\u00e7a. No Brasil, as autoridades afirmam que a legisla\u00e7\u00e3o n\u00e3o permite esse tipo de a\u00e7\u00e3o e defendem uma mudan\u00e7a que possibilite deten\u00e7\u00f5es mais prolongadas.<\/p>\n<p>A atua\u00ad\u00e7\u00e3o da pol\u00edcia nas manifesta\u00e7\u00f5es de rua brasileiras pode melhorar \u2013 e muito. No caso de protestos programados, a pol\u00edcia tem buscado novas formas de se preparar, buscando conhecer melhor o perfil da manifesta\u00e7\u00e3o, por meio de informa\u00e7\u00f5es em redes sociais. Falta ainda aprimorar o cruzamento de informa\u00e7\u00f5es de bancos de dados sobre manifestantes j\u00e1 fichados pela pol\u00edcia ap\u00f3s protestos anteriores. Como manifestantes ainda n\u00e3o s\u00e3o obrigados a informar as autoridades detalhes de seu protesto, esse preparo permite fazer conex\u00e3o com poss\u00edveis outras lideran\u00e7as dos movimentos para entrar em contato e negociar com elas dias, hor\u00e1rios e itiner\u00e1rios. Permite tamb\u00e9m entender melhor como os manifestantes podem se comportar nas ruas. Durante o protesto, \u00e9 essencial que a pol\u00edcia aja com cautela, autoridade e intelig\u00eancia para garantir tanto o direito leg\u00edtimo da manifesta\u00e7\u00e3o como a seguran\u00e7a dos que circulam pela \u00e1rea e a integridade do patrim\u00f4nio. A pol\u00edcia diz que seu cuidado evitou mortes em confrontos com policiais \u2013 morreram aproximadamente 20 pessoas nas passeatas pelo Brasil, mas nenhuma v\u00edtima da atua\u00e7\u00e3o policial.<\/p>\n<p>N\u00e3o basta, por\u00e9m, o esfor\u00e7o humano. \u00c9 preciso investir em tecnologia, como na instala\u00e7\u00e3o de c\u00e2meras de v\u00eddeo pelas ruas. \u201cAcompanhamos essa experi\u00eancia em Nova York, onde eles t\u00eam 4 mil c\u00e2meras. Faremos o mesmo em S\u00e3o Paulo. O local de instala\u00e7\u00e3o ser\u00e1 com base no banco de dados. Tudo estar\u00e1 integrado\u201d, diz o secret\u00e1rio Grella Vieira. Segundo ele, um novo sistema de cruzamento de dados tamb\u00e9m ser\u00e1 instalado. Sem mecanismos como esses, \u00e9 quase imposs\u00edvel investigar e descobrir quem s\u00e3o os manifestantes respons\u00e1veis por atos violentos, se eles agem em bandos ou sozinhos e se t\u00eam alguma liga\u00e7\u00e3o com o crime organizado. Na Fran\u00e7a, um comit\u00ea de autoridades colabora na organiza\u00e7\u00e3o das manifesta\u00e7\u00f5es programadas. \u00c9 composto de um juiz, um representante do Minist\u00e9rio P\u00fablico, entidades de direitos civis e pol\u00edcia. O grupo analisa local, dia e hor\u00e1rio. Sugest\u00f5es s\u00e3o apresentadas ao grupo de planejamento operacional da pol\u00edcia. Nem todo local e hor\u00e1rio \u00e9 autorizado para os protestos.<\/p>\n<p>O Brasil n\u00e3o \u00e9 a Fran\u00e7a e vive uma realidade nova, com meses de seguidos protestos, quase di\u00e1rios, em v\u00e1rias partes das grandes cidades do pa\u00eds. Para o pesquisador Cano, com o aumento no tamanho e na frequ\u00eancia das manifesta\u00e7\u00f5es, foram usados policiais despreparados para lidar com a multid\u00e3o. A t\u00e9cnica da pol\u00edcia paulista em manifesta\u00e7\u00f5es \u00e9 a mesma usada em Nova York. \u00c9 chamada de \u201cenvelopamento\u201d. Procura-se manter uma dist\u00e2ncia dos manifestantes, de 2 ou 3 metros, para criar um espa\u00e7o de manobra e seguran\u00e7a para a pol\u00edcia. Se ela estiver muito pr\u00f3xima, e houver alguma manifesta\u00e7\u00e3o mais agressiva, os policiais podem se envolver em confrontos rapidamente. Eles postam-se dos dois lados da manifesta\u00e7\u00e3o e no final. Na frente, faz-se um v\u00e9rtice. No Rio de Janeiro e na Fran\u00e7a, costuma-se acompanhar a passeata ao lado dos manifestantes e, para o policial se defender de um poss\u00edvel ataque, ele tem de reagir com o que tiver \u00e0s m\u00e3os. Por isso, na Fran\u00e7a e na Coreia do Sul faz-se uso frequente de cassetetes. \u201cAs unidades especiais t\u00eam de ser usadas para a finalidade que motivou sua cria\u00e7\u00e3o e manuten\u00e7\u00e3o: situa\u00e7\u00f5es cr\u00edticas e especiais\u201d, diz o secret\u00e1rio Grella. \u201cVoc\u00ea tem nas manifesta\u00e7\u00f5es o exemplo do cord\u00e3o de policiais para proteger os manifestantes e, a uma dist\u00e2ncia muito pr\u00f3xima, o pelot\u00e3o de choque e a For\u00e7a T\u00e1tica. Cada um tem um papel a cumprir, dependendo do quadro.\u201d<\/p>\n<p>V\u00e1rios aspectos podem influenciar a qualifica\u00e7\u00e3o da pol\u00edcia. \u201cTreinamento, doutrina, pagar melhor. Nossos policiais ainda ganham muito pouco\u201d, diz Cano. \u201cExiste uma tend\u00eancia no Estado de contratar mais, em vez de pagar melhor. O investimento em corregedoria tamb\u00e9m \u00e9 muito fraco, n\u00e3o se fiscaliza a atua\u00e7\u00e3o da pol\u00edcia. H\u00e1 dificuldade no recrutamento, pouco investimento.\u201d O fato de termos um regime democr\u00e1tico ainda jovem, com v\u00edvida lembran\u00e7a da trucul\u00eancia do regime militar, tamb\u00e9m colabora com certa leni\u00eancia das autoridades com abusos em recentes manifesta\u00e7\u00f5es de rua. \u201cContinuamos pagando um pre\u00e7o alto por termos tido um regime militar autorit\u00e1rio\u201d, diz Leandro Carneiro, da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP). \u201cTalvez, por isso, o treinamento da Pol\u00edcia Militar para a\u00e7\u00f5es de controle de dist\u00farbio tenha sido enfraquecido nas \u00faltimas d\u00e9cadas, e a Pol\u00edcia Civil e a Justi\u00e7a sejam claramente negligentes na condu\u00e7\u00e3o de inqu\u00e9ritos e processos contra ativistas pol\u00edticos violentos.\u201d<\/p>\n<p>A falta de recursos para a \u00e1rea de seguran\u00e7a p\u00fablica ainda \u00e9 um problema, num pa\u00eds violento como o Brasil. Uma melhor gest\u00e3o dos investimentos no setor \u00e9 fundamental. \u201cEm muitos Estados do Nordeste, os mais violentos do pa\u00eds, a Pol\u00edcia Militar \u00e9, em geral, muito mal preparada e, principalmente, muito mal empregada\u201d, diz Carneiro. \u201cPraticamente serve como uma for\u00e7a de prote\u00e7\u00e3o de autoridades p\u00fablicas. Desembargadores, ju\u00edzes, secret\u00e1rios de Estado, prefeitos, praticamente toda autoridade p\u00fablica tem um motorista ou um seguran\u00e7a que \u00e9 um policial militar.\u201d Como consequ\u00eancia dessa \u201cprivatiza\u00e7\u00e3o\u201d, Carneiro afirma que o policiamento ostensivo \u00e9 falho. \u201cA Pol\u00edcia Civil pouco investiga e atende mal as v\u00edtimas nas delegacias. N\u00e3o \u00e9 por falta de qualifica\u00e7\u00e3o que isso acontece.\u201d Como exemplos bem-sucedidos, ele cita o caso do Rio de Janeiro, onde o secret\u00e1rio Beltrame mudou a pol\u00edtica de seguran\u00e7a, com foco na pacifica\u00e7\u00e3o das comunidades mais carentes. \u201cBeltrame n\u00e3o mudou as pol\u00edcias do Rio, mudou a pol\u00edtica de seguran\u00e7a. Montou uma estrutura de gest\u00e3o eficiente e centralizada ao criar as Unidades de Pol\u00edcia Pacificadora (UPPs), que lentamente t\u00eam transformado as pol\u00edcias.\u201d<\/p>\n<p>Para Carneiro, outro exemplo positivo \u00e9 o programa Pacto pela Vida, do governo de Pernambuco. Ele obteve resultados significativos de redu\u00e7\u00e3o da criminalidade. \u201cAntes de investir na qualifica\u00e7\u00e3o, \u00e9 preciso investir em instrumentos de gest\u00e3o que permitam avaliar desempenho e definir metas. Boas pr\u00e1ticas de gest\u00e3o podem revelar bons policiais e facilitar a identifica\u00e7\u00e3o de policiais corruptos e ineptos.\u201d Grella, secret\u00e1rio de S\u00e3o Paulo, defende o balan\u00e7o de a\u00e7\u00f5es em seu Estado. \u201cA Pol\u00edcia Pacificadora do Rio assemelha-se \u00e0 Pol\u00edcia Comunit\u00e1ria que desenvolvemos aqui em S\u00e3o Paulo. \u00c9 uma estrat\u00e9gia de policiamento, em que o policial se integra \u00e0 comunidade, \u00e9 conhecido, e isso tem dado excelentes resultados\u201d, afirma.<\/p>\n<p>N\u00e3o se pode falar em seguran\u00e7a no Brasil hoje sem pensar nos grandes eventos esportivos que se aproximam: a Copa do Mundo, no ano que vem, e a Olimp\u00edada, em 2016. A situa\u00e7\u00e3o em algumas capitais merece aten\u00e7\u00e3o especial. \u201cSe voc\u00ea tiver uma manifesta\u00e7\u00e3o ruidosa e perigosa no dia de um jogo dos Estados Unidos, em Manaus, Cuiab\u00e1 ou Natal, o que faz uma sele\u00e7\u00e3o? Ela n\u00e3o joga. As condi\u00e7\u00f5es nessas capitais s\u00e3o muito limitadas\u201d, diz o coronel Jos\u00e9 Vicente. Segundo ele, a Copa das Confedera\u00e7\u00f5es deveria ter sido aproveitada para a realiza\u00e7\u00e3o de um \u201cteste de estresse\u201d num sistema j\u00e1 preparado. Isso n\u00e3o ocorreu. Uma das maiores necessidades para a Copa, diz ele, ser\u00e1 um refinado sistema de radiocomunica\u00e7\u00e3o. Informa\u00e7\u00e3o, afinal, \u00e9 a base para um planejamento eficaz de seguran\u00e7a. Mais do que nunca, ela \u00e9 necess\u00e1ria para as a\u00e7\u00f5es policiais no Brasil. Mais do que nunca, o pa\u00eds precisa de a\u00e7\u00f5es policiais eficazes e justas, que garantam os direitos individuais, entre eles o leg\u00edtimo direito \u00e0 manifesta\u00e7\u00e3o, e a integridade do patrim\u00f4nio, p\u00fablico e privado. Nesta \u00e9poca de desafios, o Brasil n\u00e3o pode se contentar com menos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Fonte: \u00c9poca<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ela precisa ter equipamentos mais eficazes, usar t\u00e9cnicas modernas de intelig\u00eancia e evitar erros grosseiros \u2013 porque, mais do que<span class=\"excerpt-hellip\"> [\u2026]<\/span><\/p>\n","protected":false},"author":6,"featured_media":27951,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27950"}],"collection":[{"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=27950"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27950\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=27950"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=27950"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=27950"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}