{"id":35640,"date":"2014-05-23T22:43:02","date_gmt":"2014-05-24T01:43:02","guid":{"rendered":"https:\/\/fenaprf.org.br\/?p=35640"},"modified":"2014-05-23T22:43:02","modified_gmt":"2014-05-24T01:43:02","slug":"temos-de-aumentar-a-nossa-influencia-o-capital-se-unifica-muito-mais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/temos-de-aumentar-a-nossa-influencia-o-capital-se-unifica-muito-mais\/","title":{"rendered":"&#8216;Temos de aumentar a nossa influ\u00eancia. O capital se unifica muito mais&#8217;"},"content":{"rendered":"<div style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption alignright\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.redebrasilatual.com.br\/trabalho\/2014\/05\/felicio-temos-de-aumentar-nossa-influencia-o-capital-se-unifica-muito-mais-3913.html\/joaofelicio_Dario%20Oliveira_Futura%20Press_Folhapress.jpg\/image_preview\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"194\" \/><p class=\"wp-caption-text\">&#8220;As empresas se unificam muito mais, s\u00e3o mais unidas na explora\u00e7\u00e3o, t\u00eam recursos para isso&#8221;, diz sindicalista.<\/p><\/div>\n<p>Professor de Hist\u00f3ria da Arte na rede p\u00fablica estadual paulista, ex-presidente da Apeoesp (sindicato dos docentes do estado) e da CUT, Jo\u00e3o Fel\u00edcio foi confirmado hoje (23) como presidente da Confedera\u00e7\u00e3o Sindical Internacional (CSI), maior entidade global, com 325 filiados em 161 pa\u00edses e 176 milh\u00f5es de trabalhadores na base, no encerramento do terceiro congresso da central, em Berlim. As centrais brasileiras com presen\u00e7a na CSI \u2013 al\u00e9m da CUT, a For\u00e7a Sindical e a UGT \u2013, juntamente com a CNPL (confedera\u00e7\u00e3o dos profissionais liberais), se uniram na indica\u00e7\u00e3o de Fel\u00edcio.<\/p>\n<p>A CSI \u00e9 resultado da uni\u00e3o, em 2006, da Confedera\u00e7\u00e3o Internacional das Organiza\u00e7\u00f5es Sindicais Livres (Ciosl), que reunia concep\u00e7\u00f5es europeias e norte-americanas, com a Confedera\u00e7\u00e3o Mundial do Trabalho (CMT), de orienta\u00e7\u00e3o democrata-crist\u00e3. Surgiu com um slogan conhecido, sobre a humaniza\u00e7\u00e3o da globaliza\u00e7\u00e3o, mas dois anos depois deparou com a crise financeira internacional, que provocou aumento do desemprego, perda de direitos e enfraquecimento do movimento sindical, especialmente nas economias mais desenvolvidas. Enquanto isso, o capital se unifica e conta com o apoio das maioria dos governos, observa Fel\u00edcio.<\/p>\n<p>Para ele, uma das prioridades da pr\u00f3xima gest\u00e3o \u00e9 intensificar as a\u00e7\u00f5es globais, garantindo que as bases implementem as resolu\u00e7\u00f5es. Se a gente quiser concretizar aquilo que a esquerda sempre falou, que a classe oper\u00e1ria internacional, \u00e9 preciso ter mais lutas internacionais&#8221;, afirma. Fel\u00edcio tamb\u00e9m defende o papel da Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho (OIT), que no seu papel de humanizadora das rela\u00e7\u00f5es trabalhistas, por meio de conven\u00e7\u00f5es, estaria sofrendo ataque &#8220;brutal&#8221; de v\u00e1rios pa\u00edses, inclusive dos Estados Unidos. &#8220;A eles n\u00e3o interessa uma OIT forte.&#8221;<\/p>\n<p><strong>Na funda\u00e7\u00e3o da CSI, em 2006, o slogan era \u201chumanizar a globaliza\u00e7\u00e3o\u201d. Logo depois, em 2008, veio a crise financeira. A globaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 humaniz\u00e1vel?<\/strong><\/p>\n<p>Considero dif\u00edcil. A globaliza\u00e7\u00e3o atende muito mais ao interesse do capital. N\u00e3o que defendamos que cada pa\u00eds fique isolado, \u00e9 importante ter rela\u00e7\u00f5es comerciais, culturais, mas tamb\u00e9m rela\u00e7\u00f5es sociais, quando voc\u00ea procurar garantir direitos de forma global. A luta central que tem de ocorrer \u00e9 por direitos. N\u00e3o concordamos e nunca tivemos simpatia por tratados de com\u00e9rcio que n\u00e3o levem em considera\u00e7\u00e3o garantia de direitos, desenvolvimento, a soberania de cada pa\u00eds. Tal como tem se dado, a globaliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o respeita nada disso. Com a crise recente, os ricos ficaram mais ricos. Talvez tenha sido o per\u00edodo nos \u00faltimos 20 anos que se acentuaram rela\u00e7\u00f5es comerciais, as transnacionais se expandiram, e houve o per\u00edodo de maior concentra\u00e7\u00e3o de riqueza da hist\u00f3ria. A crise de 2008 n\u00e3o levou a uma distribui\u00e7\u00e3o de renda, ao contr\u00e1rio. Esse talvez seja um dos grandes desafios do movimento sindical internacional.<\/p>\n<p><strong>Nesse processo de internacionaliza\u00e7\u00e3o, as empresas foram mais \u00e1geis do que o movimento sindical?<\/strong><\/p>\n<p>Sem d\u00favida. Eles se unificam muito mais, s\u00e3o mais unidos na explora\u00e7\u00e3o, t\u00eam recursos para isso, se expandem com facilidade e t\u00eam uma coisa que n\u00f3s n\u00e3o temos: o apoio da maioria dos governos. Na imensa maioria dos pa\u00edses, h\u00e1 sempre uma parceria do governo com o capital, e geralmente contra n\u00f3s. Geralmente a unidade \u00e9 entre eles, o que demonstra que a maioria dos governos est\u00e1 a servi\u00e7o de uma \u00fanica classe social. Ao se constatar isso, a facilidade de o capital se deslocar e impor a sua l\u00f3gica e sua hegemonia \u00e9 muito maior. O Brasil \u00e9 um dos poucos pa\u00edses onde n\u00e3o houve reforma trabalhista e onde n\u00e3o caiu a taxa de sindicaliza\u00e7\u00e3o, um dos poucos onde houve distribui\u00e7\u00e3o de renda e a classe trabalhadora melhorou de vida. Eu n\u00e3o tenho nenhum receio de dizer que os governos perderam uma grande oportunidade de controlar o setor financeiro, que at\u00e9 hoje vive numa libertinagem total. Causaram a pior crise da hist\u00f3ria, e os governos n\u00e3o tiveram for\u00e7a pol\u00edtica para impor um controle. Socorreram o sistema financeiro, sugaram as contas p\u00fablicas. O movimento sindical, na \u00e9poca, especialmente a CUT, disseram que o Estado ia precisar recuperar recursos. Est\u00e3o fazendo as reformas em cima de quem? Do funcionalismo p\u00fablico, trabalhadores. Quando a gente, algum tempo atr\u00e1s, quando se falava em luta de classes, tinha sempre algu\u00e9m que dizia que esse discurso era atrasado. O que est\u00e1 acontecendo no mundo hoje \u00e9 a mais cabal demonstra\u00e7\u00e3o de que a luta de classes existe, e como disse um rica\u00e7o americano recentemente, existe e n\u00f3s (eles) estamos vencendo. Isso explica a enorme dificuldade que o movimento sindical tem de resistir. Toda aquela fase espetacular, a melhor fase da hist\u00f3ria, os anos 50, 60, at\u00e9 os 70, acabou.<\/p>\n<p><strong>O Estado do bem-estar social&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>De ac\u00famulo de direitos, que teve influ\u00eancia no nosso pa\u00eds. Tudo isso est\u00e1 tendo um fim. O movimento sindical est\u00e1 tendo de se adaptar. Nesse sentido, o debate sobre p4rojetos, papel do Estado, \u00e9 important\u00edssimo. O movimento sindical n\u00e3o pode apresentar uma pauta de reivindica\u00e7\u00e3o trabalhista, imediata, sem debater o mundo em que a gente vive, que sociedade a gente quer. Se a gente n\u00e3o debater esses assuntos, seremos sempre presa f\u00e1cil do capital.<\/p>\n<p><strong>H\u00e1 uma articula\u00e7\u00e3o sindical em v\u00e1rios pa\u00edses, forma\u00e7\u00e3o de redes. Aqui, ainda estamos discutindo acordos nacionais. Voc\u00ea v\u00ea a possibilidade de discutir acordos internacionais envolvendo empresas ou grupos econ\u00f4micos, em m\u00e9dio prazo?<\/strong><\/p>\n<p>Neste momento \u00e9 dif\u00edcil, mas n\u00e3o desprezamos essa possibilidade no futuro. O tema multinacional tem tomado conta de intensos debates dentro da CSI, da CSA (<em>Confedera\u00e7\u00e3o Sindical dos Trabalhadores das Am\u00e9ricas<\/em>) e do movimento sindical internacional. Porque elas cumprem um papel nefasto. Influenciam pol\u00edticas governamentais, imp\u00f5em sua l\u00f3gica, pressionam para que haja reforma trabalhista. Ao voc\u00ea debater o papel das multinacionais, debate como voc\u00ea se organiza internacionalmente. Um dos mais belos projetos que temos aqui, com apoio da FNV da Holanda e agora da DGB da Alemanha, \u00e9 a cria\u00e7\u00e3o de redes de empresas alem\u00e3s no Brasil. Queremos ter no futuro um grande n\u00famero de brasileiros nos conselhos de administra\u00e7\u00e3o dessas empresas. Ou o movimento sindical acorda e passa a debater esse assunto com mais garra, mais for\u00e7a&#8230; Nosso sonho \u00e9 esse mesmo. N\u00f3s vamos ser sempre ignorados nas estrat\u00e9gicas dessas empresas, que se deslocam pelo mundo, ficam no pa\u00eds enquanto o lucro cresce, depois v\u00e3o para outro. Influenciar as pol\u00edticas governamentais \u00e9 um gesto de defesa. Porque a maioria das empresas tem pr\u00e1tica antissindical. Inclusive algumas multinacionais brasileiras. Tivemos de fazer intensas campanhas nos Estados Unidos para que os metal\u00fargicos americanos pudessem se organizar livremente na Gerdau e na Vale, inclusive no Canad\u00e1. Multinacional \u00e9 isso, n\u00e3o importa o pa\u00eds de origem. O que eles est\u00e3o fazendo agora n\u00e3o tiveram for\u00e7a pol\u00edtica para fazer no passado. Fazer pr\u00e1tica antissindical, perseguir sindicalista, impedir a organiza\u00e7\u00e3o e retirando o direito de negocia\u00e7\u00e3o coletiva. H\u00e1 uma persegui\u00e7\u00e3o generalizada contra qualquer forma de organiza\u00e7\u00e3o. Portanto, a concep\u00e7\u00e3o de redes nas multinacionais \u00e9 uma forma de buscar sobreviv\u00eancia. E quando constitu\u00edmos redes, estamos estimulando a organiza\u00e7\u00e3o no local de trabalho. \u00c9 a melhor forma de consolidar um sindicalista de luta e de base.<\/p>\n<p><strong>Mudou de certa forma a geopol\u00edtica? Anos atr\u00e1s, o Brasil era um pa\u00eds perif\u00e9rico internacionalmente e os sindicatos brasileiros seguiam a linha norte-americana ou europeia, se alinhavam aqui ou ali. Hoje surgiu uma linha mais latino-americana, a partir dos pa\u00edses em desenvolvimento? H\u00e1 mais influ\u00eancia dos pa\u00edses que outrora tinham economia mais fraca?<\/strong><\/p>\n<p>Est\u00e1 mudando, sim. Eu diria que a CUT sempre tem uma pol\u00edtica internacional bastante ousada, conseguiu fazer parcerias bastante eficientes com centrais sindicais do Primeiro Mundo, desde a sua funda\u00e7\u00e3o. O movimento sindical europeu ajudou muito na consolida\u00e7\u00e3o da CUT, o norte-americano, canadense. \u00c9 necess\u00e1rio reconhecer que o Brasil nos \u00faltimos dez anos acabou adquirindo uma expressividade mundial. Isso (<em>a elei\u00e7\u00e3o de Lula, que se originou do movimento sindical e ajudou a criar a CUT<\/em>) acabou galvanizando maior interesse em conhecer a CUT. \u2026 Por que aqui a maioria dos acordos coletivos tem resultado em aumento real de sal\u00e1rio? At\u00e9 hoje eu sou chamado para falar em reuni\u00e3o de G20, OCDE. Ao constar isso, l\u00f3gico que muda a an\u00e1lise sobre movimento sindical e representatividade. Especialmente aqui n\u00e3o tem havido diminui\u00e7\u00e3o da sindicaliza\u00e7\u00e3o, Uruguai, Argentina a mesma coisa, a CUT do Chile recupera uma expressividade que j\u00e1 teve no passado. Houve um deslocamento, sim. Se ocorreu algo de novo no que se refere \u00e0 expressividade do movimento sindical, na participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, negocia\u00e7\u00e3o coletiva, foi aqui, no nosso continente. N\u00e3o \u00e9 nenhuma arrog\u00e2ncia nossa em dizer que nossa contribui\u00e7\u00e3o para aumentar a expressividade do movimento sindical \u00e9 enorme.<\/p>\n<p><strong>S\u00e3o os sindicatos europeus e americanos que est\u00e3o hoje na defensiva?<\/strong><\/p>\n<p>Isso \u00e9 constatado por eles mesmos. Eles est\u00e3o sofrendo um ataque brutal. Todas as conquistas est\u00e3o sendo colocadas em xeque. Por mais que eles saiam \u00e0s ruas, eles (<em>setor empresarial<\/em>) imp\u00f5em sua l\u00f3gica sobre os parlamentares, se aliam aos governos. Est\u00e3o retirando aquilo que \u00e9 sagrado na democracia, a pr\u00f3pria exist\u00eancia de um sindicato forte. N\u00e3o ficaram satisfeitos em tirar direitos, enfraqueceram o movimento sindical. Eles passam por uma fase muito dif\u00edcil, bem como o movimento sindical americano, que chegou a chegar uma taxa de sindicaliza\u00e7\u00e3o de 30% e hoje est\u00e1 em torno de 10%, 11%. Por mais que n\u00f3s sindicalistas brasileiros, especialmente os cutistas, defendem o fim da unicidade e do imposto sindical, eu n\u00e3o tenho receio de dizer que entre a estrutura sindical brasileira e a americana, fico com a brasileira. Aqui, a lei obriga o patr\u00e3o a se sentar para negociar. N\u00f3s queremos mudar, mas o que tem por a\u00ed \u00e9 muito pior que o nosso. Pelo menos aqui n\u00e3o se diminuiu a taxa de sindicaliza\u00e7\u00e3o, o movimento sindical tem obtido conquistas, tamb\u00e9m no que se refere \u00e0 democratiza\u00e7\u00e3o da cidade. Hoje, as centrais s\u00e3o protagonistas, atuam, negociam. E o mundo reconhece isso no Brasil. Quando volto de viagem, chego no Brasil e pego um jornal no aeroporto, parece que \u00e9 outro pa\u00eds.<\/p>\n<p><strong>Volta e meia, as centrais aqui t\u00eam diverg\u00eancias, mas l\u00e1 fora parece que h\u00e1 uma atua\u00e7\u00e3o conjunta, que foi decisiva para consolidar sua candidatura.<\/strong><\/p>\n<p>Houve um reconhecimento do movimento sindical internacional da import\u00e2ncia da CUT, do Brasil e do movimento sindical brasileiro. O apoio das outras centrais brasileiras foi extremamente importante, acabou demonstrando ao mundo que nessa quest\u00e3o h\u00e1 muita unidade. As centrais, apesar das diverg\u00eancias, internacionalmente atuam bem. Isso levou inclusive a ter apoio un\u00e2nime na CSA, todas as centrais americanas apoiaram.<\/p>\n<p><strong>Houve resist\u00eancia entre os europeus, n\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Tinha uma resist\u00eancia, mas n\u00e3o \u00e0 CUT. Algumas centrais acharam que tinha de ser o presidente (<em>da CUT<\/em>), que para ser presidente da CSI tem de ser presidente de uma central sindical, o que n\u00e3o \u00e9 a nossa concep\u00e7\u00e3o. Essas centrais que tinham essa vis\u00e3o acabaram entendendo que esse n\u00e3o era o \u00fanico fator a ser analisado. Sentindo tamb\u00e9m o forte apoio que acabou tendo tamb\u00e9m na \u00c1frica, \u00c1sia, e muitas centrais europeias tamb\u00e9m. Lembro de uma visita que fizemos \u00e0 TUC (<em>central inglesa<\/em>), a secret\u00e1ria-geral chegou a dizer que ser presidente ou n\u00e3o era uma quest\u00e3o secund\u00e1ria.<\/p>\n<p><strong>Tem o rod\u00edzio, mas tradicionalmente o movimento sindical era comandado a partir da Europa&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Nunca teve presidente brasileiro, latino-americano, nada. Acho que essa conquista \u00e9 uma demonstra\u00e7\u00e3o que ocupamos um cen\u00e1rio mais expressivo no cen\u00e1rio mundial. Isso demonstra, inclusive, que \u00e9 preciso estabelecer uma unidade muito maior no Norte-Sul. Queremos contribuir para que a CSI seja mais expressiva ainda.<\/p>\n<p><strong>O que pode mudar em termos de pol\u00edtica da CSI daqui para a frente? Pode mudar o eixo das pol\u00edticas, ou globalmente voc\u00ea tem de pensar em estrat\u00e9gias gerais?<\/strong><\/p>\n<p>A CSI \u00e9 uma organiza\u00e7\u00e3o que eu diria progressista. A an\u00e1lise feita tem muito apoio nosso, nos identificamos dentro da CSI com suas resolu\u00e7\u00f5es. E ela tem de ser a m\u00e9dia, tem de expressar a vontade de suas filiadas, que tem matizes ideol\u00f3gicos diferenciadas, entidades mais \u00e0 esquerda e mais conservadoras. Ela tem de ter muito jogo de cintura. Acho que o congresso e as decis\u00f5es t\u00eam conseguido estabelecer essa unidade ideol\u00f3gica. A segunda coisa, n\u00e3o \u00e9 que a CSI est\u00e1 precisando de uma mudan\u00e7a, ela precisa combinar melhor entre o lobby que \u00e9 feito nos organismos internacionais \u2013 press\u00e3o pol\u00edtica na OIT, na OMC, no G20 \u2013, onde a gente atua com desenvoltura e compet\u00eancia, mas precisa combinar isso com a concretiza\u00e7\u00e3o das a\u00e7\u00f5es que s\u00e3o decididas em suas inst\u00e2ncias. Sei que isso n\u00e3o depende somente dela, e eu quero contribui muito nessa \u00e1rea. N\u00e3o basta adotar uma resolu\u00e7\u00e3o sobre determinado assunto e orientarmos as filiadas que as a\u00e7\u00f5es s\u00e3o fundamentais. \u00c9 preciso construir as a\u00e7\u00f5es, sensibilizar as centrais em cada pa\u00eds que se a gente quiser um movimento sindical atuante \u00e9 preciso \u2026 Se a gente quiser concretizar aquilo que a esquerda sempre falou, que a classe oper\u00e1ria internacional, \u00e9 preciso ter mais lutas internacionais. Qual \u00e9 a luta que a gente faz com efici\u00eancia? \u00c9 a luta pelo trabalho decente. Mas \u00e9 necess\u00e1rio que n\u00e3o seja resolu\u00e7\u00f5es &#8220;orientativas&#8221;, mas que voc\u00ea adota e espera que a sua base esteja concretizando. E isso eu sei que n\u00e3o depende s\u00f3 da CSI. N\u00e3o adianta a dire\u00e7\u00e3o ter vontade pol\u00edtica se voc\u00ea n\u00e3o consegue sensibilizar sua base filiada. \u00c9 preciso um di\u00e1logo mais eficiente, estimular que cada central saia de seu mundo, de suas a\u00e7\u00f5es pelo pa\u00eds. N\u00e3o vamos resolver os problemas com a\u00e7\u00f5es fragmentadas. Porque o capital derruba fronteiras com muita facilidade. Determina sua l\u00f3gica, compra governos, e n\u00f3s ficamos na defensiva, na luta em cada pa\u00eds.<\/p>\n<p><strong>E falta tamb\u00e9m participa\u00e7\u00e3o nos \u00f3rg\u00e3os de decis\u00e3o internacionais? Nos encontros do G20, Mercosul, Unasul, esses acordos de livre com\u00e9rcio?<\/strong><\/p>\n<p>A imensa maioria do governos despreza as opini\u00f5es das lideran\u00e7as sindicais sobre com\u00e9rcio internacional, direito internacional. As nossas opini\u00f5es sobre o funcionamentos das organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o levadas em considera\u00e7\u00e3o. Eu diria, sem medo de errar, que acertamos muito mais que eles em nossas an\u00e1lises. O que diz\u00edamos, quando veio a crise, acabou se efetivando. \u00c9 preciso disputar hegemonia, pol\u00edtica. O movimento sindical internacional est\u00e1 passando talvez por uma das situa\u00e7\u00f5es mais cr\u00edticas de sua hist\u00f3ria. O mundo est\u00e1 perdendo direitos. Qualquer organismo internacional respeit\u00e1vel mostra que os ricos ficaram mais ricos e os pobres, mais pobres. \u00c9 dif\u00edcil a resist\u00eancia. Juntando o que representa a CSI, a FSM e os chineses, n\u00f3s temos 15% de sindicalizados no mundo. Como voc\u00ea disputa hegemonia representando 15% somente dos trabalhadores de todo mundo, 85% fora da organiza\u00e7\u00e3o internacional? Temos de aumentar nosso poder de influ\u00eancia e aumentar consideravelmente nossa base de representa\u00e7\u00e3o. Eles impedem que o trabalhador se sindicalize, organizam campanha contra sindicalista. Haja vista a imprensa brasileira. Raramente s l\u00ea uma mat\u00e9ria simp\u00e1tica ao movimento sindical. S\u00e3o depreciativas, preconceituosas, n\u00e3o reconhecem a nossa import\u00e2ncia. Porque s\u00e3o empres\u00e1rios, que n\u00e3o querem se relacionar com movimento sindical forte. \u00c9 uma disputa de classe mesmo. Estamos numa fase muito dif\u00edcil. Falando da Europa, que foi onde n\u00f3s bebemos muito, conseguimos assimilar muito a concep\u00e7\u00e3o e pr\u00e1tica do movimento sindical europeu, que teve enorme influ\u00eancia na consolida\u00e7\u00e3o da CUT. A nossa hist\u00f3ria \u00e9 muito colada \u00e0 do movimento sindical europeu, alem\u00e3o, italiano, franc\u00eas, espanhol, belga, holand\u00eas, escandinavo. Isso que est\u00e1 ocorrendo l\u00e1 \u00e9 a mais cabal demonstra\u00e7\u00e3o que at\u00e9 este momento n\u00f3s estamos perdendo. Reconhecer isso j\u00e1 \u00e9 um avan\u00e7o. Na m\u00e9dia mundial, estamos na defensiva. Precisamos ser mais competentes e eficazes na press\u00e3o pol\u00edtica sobre os organismos internacionais. Temos de disputar pol\u00edticas governamentais. Precisamos interferir na vida pol\u00edtica nacional. Por mais que nos xinguem, a CUT tem presen\u00e7a ativa e expressiva na sociedade. E queremos ver isso no mundo.<\/p>\n<p><strong>A OIT hoje \u00e9 uma aliada. Voc\u00eas conseguiram eleger (em 2012) o Guy Ryder. Houve uma mudan\u00e7a de pol\u00edtica, ou l\u00e1 tamb\u00e9m dentro das Na\u00e7\u00f5es Unidas \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o que carece de for\u00e7a?<\/strong><\/p>\n<p>A elei\u00e7\u00e3o do Guy Ryder foi uma grande novidade na OIT. Nunca um sindicalista tinha chegado a ocupar o cargo m\u00e1ximo. E a CUT teve uma participa\u00e7\u00e3o importante na elei\u00e7\u00e3o dele. Quem elege \u00e9 o conselho de administra\u00e7\u00e3o: s\u00e3o 28 votos de governo, 14 de trabalhadores e 14 de empres\u00e1rios. Ningu\u00e9m consegue se eleger sem apoio de parte dos governos. Na reta final, ficaram um empres\u00e1rio franc\u00eas (<em>Gilles de Robien<\/em>) e o Guy Ryder. Tivemos apoio do governo brasileiro, que n\u00e3o votou no empres\u00e1rio franc\u00eas, ultraconservador. Conseguimos garantir o apoio de todos os governos da Am\u00e9rica Latina, que no primeiro momento tinham votado em outro candidato, no vice-presidente da Col\u00f4mbia (<em>na OIT, as vota\u00e7\u00f5es v\u00e3o sendo feitas at\u00e9 que fiquem apenas dois candidatos<\/em>). Foi um tremendo avan\u00e7o. A OIT \u00e9 o \u00fanico organismo internacional que temos direito de participa\u00e7\u00e3o. E achamos que as conven\u00e7\u00f5es da OIT procuram humanizar o mundo do trabalho, procuram normatizar o mundo do trabalho para que ele tenha rela\u00e7\u00f5es respeitosas. Por causa disso, por ser o \u00fanico organismo em que temos o direito de falar, ela sofre um brutal ataque por parte de governos conservadores. Hoje ela passa por um momento muito dif\u00edcil onde sequer reformularam o papel da OIT, de n\u00e3o ser mais uma organiza\u00e7\u00e3o normativa, mas que recomenda diretrizes. Se um pa\u00eds \u00e9 signat\u00e1rio de uma conven\u00e7\u00e3o e n\u00e3o cumpre, cabe uma den\u00fancia \u00e0 OIT, que passa a acompanhar se aquela conven\u00e7\u00e3o est\u00e1 sendo respeitada ou n\u00e3o. N\u00f3s fizemos uma den\u00fancia contra o governo brasileiro no que se refere aos direitos dos ind\u00edgenas (em constru\u00e7\u00e3o de represas). Fruto da nossa den\u00fancia hoje est\u00e1 ocorrendo um processo de negocia\u00e7\u00e3o, que se n\u00e3o tiver resultado positivo o Brasil ter\u00e1 de se explicar diante do comit\u00ea de normas. \u00c9 uma organiza\u00e7\u00e3o que n\u00f3s respeitamos, admiramos e defendemos. Mas alguns pa\u00edses querem diminuir o papel dela, querem que ela apenas oriente, sem acompanhar, sem fiscalizar. E a\u00ed \u00e9 o mundo da selvageria. Essa press\u00e3o pol\u00edtica de alguns governos conservadores e do capital j\u00e1 existia antes da elei\u00e7\u00e3o do Guy Ryder. Com a elei\u00e7\u00e3o dele, se acentuou. As mudan\u00e7as que a OIT deveria passar \u00e9 no sentido de transform\u00e1-la num organismo com mais for\u00e7a pol\u00edtica, inclusive para impor san\u00e7\u00f5es. O que est\u00e1 acontecendo acontecendo \u00e9 o contr\u00e1rio, querem tirar o poder normativo dela, transform\u00e1-la numa ONG de baix\u00edssima efici\u00eancia.<\/p>\n<p><strong>Grandes pot\u00eancias, inclusive?<\/strong><\/p>\n<p>O or\u00e7amento da OIT, a maior fatia, quem mais paga \u00e9 o governo americano. N\u00e3o interessa para o governo americano ter uma OIT forte, com a total desregulamenta\u00e7\u00e3o que existe no mercado de trabalho naquele pa\u00eds. J\u00e1 vinha isso desde a \u00e9poca do Partido Republicano. Sempre tem amea\u00e7as de diminui\u00e7\u00e3o de verbas, que \u00e9 uma forma de diminuir o poder dela. Geralmente, muito na surdina, clandestina. No ano retrasado, o comit\u00ea de normas, que \u00e9 o mais importante, n\u00e3o funcionou porque os empres\u00e1rios n\u00e3o querem mais que os peritos da OIT fiscalizem se os pa\u00edses est\u00e3o cumprindo direito de greve. Os empres\u00e1rios acham que n\u00e3o \u00e9 papel do comit\u00ea de normas. E n\u00f3s achamos que a OIT tem o direito, \u00e9 o papel dela. \u00c9 um direito sagrado (<em>greve<\/em>), e achamos que a OIT tinha de continuar o papel de fiscaliza\u00e7\u00e3o. \u00c9 uma disputa interna permanente. E \u00e9 o \u00fanico organismo em que temos uma bancada. Cada um recua um pouco, e a\u00ed se adota uma resolu\u00e7\u00e3o. V\u00e1rios governos ditatoriais foram julgados pelo comit\u00ea de normas, e os peritos&#8230; O Brasil n\u00e3o \u00e9 signat\u00e1rio da Conven\u00e7\u00e3o 87, que garante plena liberdade e autonomia sindical. N\u00f2s n\u00e3o podemos denunciar o Brasil, porque n\u00e3o \u00e9 signat\u00e1rio. \u00c9 um dos poucos. Brasil e Estados Unidos.<\/p>\n<p><strong>As centrais est\u00e3o em campanhas por duas conven\u00e7\u00f5es, a 151 (<em>direito de greve e negocia\u00e7\u00e3o coletiva no setor p\u00fablico<\/em>) e 158 (<em>contra dispensa imotivada<\/em>). De onde vem a dificuldade?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 o Congresso Nacional. \u00c9 uma bancada de parlamentares que t\u00eam rela\u00e7\u00f5es com seus governos estaduais e prefeituras e com empres\u00e1rios. Que n\u00e3o querem nem ver a 151&#8230; H\u00e1 uma forte press\u00e3o de prefeitos e governadores que n\u00e3o querem ver essa conven\u00e7\u00e3o ser implementada, que n\u00e3o querem dar o direito de negocia\u00e7\u00e3o coletiva aos sindicatos do setor p\u00fablico. A composi\u00e7\u00e3o do Congresso hoje \u00e9 extremamente nociva ao mundo do trabalho. Se fosse pela vontade daqueles deputados, acabaria com a CLT, voltaria novamente o 618 (<em>sobre flexibiliza\u00e7\u00e3o<\/em>). Tem o projeto de terceiriza\u00e7\u00e3o que conseguimos segurar. Todas vezes que se fala em pressionar o Congresso para aprovar alguma coisa, eu fico com um p\u00e9 atr\u00e1s. Naquele Congresso l\u00e1, entra lagartixa e sai jacar\u00e9. N\u00e3o tenho a menor confian\u00e7a. Se entrar com um projeto que busque modernizar a CLT, sai qualquer coisa, sai dinossauro&#8230; Lembra daquele famoso projeto lei de economia solid\u00e1ria, o que virou depois? Acabou virando uma arma para criar empresas em que se coloca o trabalhador como s\u00f3cio para n\u00e3o pagar direito. E era uma ideia genial. Aquele Congresso \u00e9 isso.<\/p>\n<p><strong>No 1\u00ba de Maio, a CUT debateu mudan\u00e7as no setor de comunica\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m se avaliou que o movimento sindical precisa se adaptar \u00e0s novas linguagens, novas m\u00eddias. Essa tamb\u00e9m \u00e9 uma preocupa\u00e7\u00e3o na CSI, de como o movimento sindical se relaciona com sua base, principalmente os jovens?<\/strong><\/p>\n<p>J\u00e1 participei de in\u00fameros debates na CSI sobre ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o, como inovar. O movimento sindical em todos os pa\u00edses vive problemas parecidos com os nossos, claro que n\u00e3o com tanta intensidade como aqui. Na Europa, a imprensa n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o nociva ao movimento sindical. Lembro da uma vez que eu fui \u00e0 Noruega, participar de um congresso da LO (<em>Confedera\u00e7\u00e3o Norueguesa de Sindicatos<\/em>) e fiquei espantado quando vi o principal jornal em Oslo noticiar a abertura na capa, como se fosse um acontecimento social. \u00c9 um desafio. Se a gente for ficar esperando a imprensa brasileira divulgar as a\u00e7\u00f5es sindicais, isso jamais ir\u00e1 ocorrer. Eles nunca analisam os erros de um governo tucano. Uma imprensa que se comporta desse jeito \u00e9 antidemocr\u00e1tica, \u00e9 de classe. Numa sociedade em que os ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o se comportam dessa maneira e uma parte teve compromisso com ditaduras, se fomos ficar esperando vamos ver o retorno de ditaduras sem nenhum resist\u00eancia. Se n\u00e3o souber uma nova linguagem, um novo jeito de falar, ela se preocupa com outros assuntos. N\u00e3o vamos comunicar com jovens com aqueles boletins horrorosos, foto e aquele texto, \u201cfala do presidente\u201d. Se o movimento n\u00e3o se ativer a isso, continuar achando que vai se comunicando com boletim, vamos perder a disputa. \u00c0 exce\u00e7\u00e3o de alguns, a linha editorial (<em>dos principais ve\u00edculos<\/em>) \u00e9 um atentado \u00e0 democracia. N\u00e3o somos n\u00f3s que queremos censurar, eles que nos censuram no dia a dia.<\/p>\n<p>Fonte: RBA<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Professor de Hist\u00f3ria da Arte na rede p\u00fablica estadual paulista, ex-presidente da Apeoesp (sindicato dos docentes do estado) e da<span class=\"excerpt-hellip\"> [\u2026]<\/span><\/p>\n","protected":false},"author":6,"featured_media":13162,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[10,1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/35640"}],"collection":[{"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=35640"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/35640\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=35640"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=35640"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=35640"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}