{"id":36202,"date":"2014-06-10T14:52:18","date_gmt":"2014-06-10T17:52:18","guid":{"rendered":"https:\/\/fenaprf.org.br\/?p=36202"},"modified":"2014-06-10T14:52:18","modified_gmt":"2014-06-10T17:52:18","slug":"inicia-se-um-novo-ciclo-de-lutas-da-classe-trabalhadora-brasileira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/inicia-se-um-novo-ciclo-de-lutas-da-classe-trabalhadora-brasileira\/","title":{"rendered":"Inicia-se um novo ciclo de lutas da classe trabalhadora brasileira?"},"content":{"rendered":"<p>Apesar de ainda n\u00e3o terem sido divulgados os dados oficiais sobre o n\u00famero de greves ocorridas em 2013, a estimativa \u00e9 de mais de 900 paralisa\u00e7\u00f5es trabalhistas no Brasil nesse per\u00edodo, considerando que em 2012 o \u00edndice de greves foi o mais alto desde 1996, o que demonstra que elas t\u00eam sido mais frequentes, inclusive &#8220;antes das jornadas de junho&#8221;.<\/p>\n<p>Entretanto, &#8220;h\u00e1 diferentes significados nas greves que est\u00e3o ocorrendo no \u00faltimo per\u00edodo&#8221;, assinala Marcelo Badar\u00f3 Mattos, na entrevista a seguir, concedida \u00e0 IHU On-Line por e-mail. Na avalia\u00e7\u00e3o dele, as greves podem ser compreendidas a partir de dois grandes movimentos: &#8220;de um lado, sindicatos que se mantiveram ativos e combativos ao longo das duas \u00faltimas d\u00e9cadas sentiram um momento favor\u00e1vel para as mobiliza\u00e7\u00f5es grevistas ap\u00f3s as &#8216;jornadas de junho&#8217; de 2013 e no contexto pr\u00e9-Copa do Mundo e, (&#8230;) por outro lado, est\u00e3o acontecendo tamb\u00e9m muitas greves de categorias de trabalhadores que n\u00e3o se veem representadas por suas entidades sindicais, h\u00e1 muito tempo controladas por burocratas a servi\u00e7o dos patr\u00f5es e dos governos. \u00c9 o caso das greves recentes de rodovi\u00e1rios, trabalhadores da limpeza urbana e, em muitos casos, de trabalhadores da constru\u00e7\u00e3o civil&#8221;.<\/p>\n<p>Com base em dados referentes ao ano de 2011, divulgados pelo IBGE, o pesquisador destaca que &#8220;82% dos empregados no Brasil recebem at\u00e9 tr\u00eas sal\u00e1rios m\u00ednimos&#8221;, sendo que, destes, &#8220;30% recebem at\u00e9 um sal\u00e1rio m\u00ednimo&#8221;. Apesar de o n\u00famero de empregados sem carteira assinada ter diminu\u00eddo nos \u00faltimos anos, &#8220;calcula-se entre 8 e 10 milh\u00f5es o n\u00famero de trabalhadores terceirizados&#8221;. &#8220;Nestes quase 12 anos de gest\u00f5es petistas do governo federal, tanto nas fases de crescimento mais significativo no segundo mandato de Lula da Silva quanto nos per\u00edodos de quase estagna\u00e7\u00e3o do crescimento econ\u00f4mico, como hoje em dia, a maior parte dos empregos gerados no Brasil foi ancorada em baixo sal\u00e1rio&#8221;, constata. E dispara: &#8220;Os reajustes do sal\u00e1rio m\u00ednimo mal e mal o recolocaram no patamar dos anos 1980, que j\u00e1 era o ponto mais baixo da sua curva desde o final dos anos 1950&#8221;.<\/p>\n<p>Na entrevista a seguir, Mattos tamb\u00e9m comenta as propostas das esquerdas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s quest\u00f5es trabalhistas, eleitorais e a reduzida capacidade de influ\u00eancia nas manifesta\u00e7\u00f5es de junho. &#8220;Hoje, n\u00e3o apenas o desempenho eleitoral dessas for\u00e7as \u00e9 muito pouco significativo, como sua inser\u00e7\u00e3o nos movimentos sociais de base trabalhadora \u00e9 diminuta, sendo reduzida sua capacidade de influenci\u00e1-los, como ficou evidente no ano passado, em meio \u00e0s &#8220;jornadas de junho&#8221;, quando a esquerda organizada n\u00e3o conseguiu exercer um papel protag\u00f4nico nas manifesta\u00e7\u00f5es de massa, abrindo-se, inclusive, em meio aos manifestantes, durante um certo per\u00edodo, o espa\u00e7o para um recha\u00e7o, de matriz conservadora, aos partidos de forma geral&#8221;. Por outro lado, pondera, &#8220;seria, entretanto, injusto n\u00e3o reconhecer que as organiza\u00e7\u00f5es de esquerda v\u00eam cumprindo um papel importante, com todas as suas dificuldades, ao aglutinar for\u00e7as na resist\u00eancia aos ataques do capital \u00e0s conquistas da classe trabalhadora&#8221;.<\/p>\n<p>Marcelo Badar\u00f3 Mattos \u00e9 graduado em Hist\u00f3ria pela Universidade Federal do Rio de Janeiro &#8211; UFRJ, mestre e doutor em Hist\u00f3ria Social pela Universidade Federal Fluminense &#8211; UFF, onde leciona atualmente. \u00c9 autor de, entre outros, Trabalhadores e sindicatos no Brasil (S\u00e3o Paulo: Express\u00e3o Popular), O sindicalismo brasileiro ap\u00f3s 1930 (Rio de Janeiro: Zahar) e Trabalhadores em greve, pol\u00edcia em guarda (Rio de Janeiro: Bom Texto).<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; O que as greves que t\u00eam ocorrido recentemente significam, especialmente pelo fato de as categorias estarem se organizando sem a participa\u00e7\u00e3o e apoio dos sindicatos?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Marcelo Badar\u00f3 Mattos &#8211;<\/strong> Fen\u00f4menos sociais complexos, como os ciclos de greves e mobiliza\u00e7\u00f5es da classe trabalhadora, nunca podem ser explicados por um \u00fanico fator.<\/p>\n<p>Portanto, h\u00e1 diferentes significados nas greves que est\u00e3o ocorrendo no \u00faltimo per\u00edodo. De um lado, sindicatos que se mantiveram ativos e combativos ao longo das duas \u00faltimas d\u00e9cadas sentiram um momento favor\u00e1vel para as mobiliza\u00e7\u00f5es grevistas ap\u00f3s as &#8220;jornadas de junho&#8221; de 2013 e no contexto pr\u00e9-Copa do Mundo.<\/p>\n<p>Em grande medida porque, quando as manifesta\u00e7\u00f5es multitudin\u00e1rias do ano passado levantaram bandeiras como &#8220;Da Copa eu abro m\u00e3o, quero dinheiro para sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o&#8221;, ecoaram os \u00faltimos vinte anos de lutas dos trabalhadores do servi\u00e7o p\u00fablico nessas \u00e1reas, que reivindicaram n\u00e3o apenas melhores sal\u00e1rios e condi\u00e7\u00f5es de trabalho para si, mas tamb\u00e9m defenderam sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica de qualidade como direito de todos, em tempos de privatiza\u00e7\u00e3o e p\u00e9ssimas condi\u00e7\u00f5es de oferta desses direitos fundamentais. Da\u00ed porque greves no servi\u00e7o p\u00fablico de forma geral e na educa\u00e7\u00e3o em particular estejam acontecendo em grande n\u00famero, dirigidas muitas vezes por sindicatos combativos.<\/p>\n<p>Por outro lado, e acho que esse foi o ponto da pergunta, est\u00e3o acontecendo tamb\u00e9m muitas greves de categorias de trabalhadores que n\u00e3o se veem representadas por suas entidades sindicais, h\u00e1 muito tempo controladas por burocratas a servi\u00e7o dos patr\u00f5es e dos governos.<\/p>\n<p>\u00c9 o caso das greves recentes de rodovi\u00e1rios, trabalhadores da limpeza urbana e, em muitos casos, de trabalhadores da constru\u00e7\u00e3o civil. Tais situa\u00e7\u00f5es refor\u00e7am a tese de que a burocratiza\u00e7\u00e3o \u00e9 uma decorr\u00eancia da estrutura sindical brasileira, que \u00e9 em grande medida a mesma estrutura oficial (dependente do &#8220;registro&#8221; no Minist\u00e9rio do Trabalho, baseada na unicidade sindical \u2014 sindicato \u00fanico por categoria e regi\u00e3o \u2014 e ancorada na contribui\u00e7\u00e3o compuls\u00f3ria de todos(as) os(as) trabalhadores(as) para o sistema) criada nos anos 1930 e apenas levemente reformada em 1988 e depois. De qualquer forma, a exist\u00eancia de polos combativos no movimento sindical indica que esse processo n\u00e3o \u00e9 inevit\u00e1vel.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; A que o senhor atribui o fato de as greves terem quase dobrado de 2010 para 2013, tendo ocorrido 446 greves em 2010 e mais de 900 em 2013? Os protestos por conta da Copa do Mundo ajudaram?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Marcelo Badar\u00f3 Mattos &#8211;<\/strong> O n\u00famero de greves no Brasil vem crescendo, mesmo antes das &#8220;jornadas de junho&#8221; de 2013. O ano de 2012 teve o maior n\u00famero de greves desde 1996, segundo os dados do Dieese. N\u00e3o h\u00e1 ainda levantamentos divulgados para 2013, mas tudo indica que a tend\u00eancia de eleva\u00e7\u00e3o no n\u00famero de greves se manteve.<\/p>\n<p>Algumas das greves de 2012, como a dos trabalhadores da educa\u00e7\u00e3o nas institui\u00e7\u00f5es federais de ensino (que foram seguidas por outras categorias de servidores p\u00fablicos federais) podem ser vistas como impulsionadoras de reivindica\u00e7\u00f5es que reemergiram nas ruas nas vozes dos manifestantes de 2013. Por outro lado, como eu mencionei, as jornadas de junho demonstraram um elevado n\u00edvel de descontentamento e uma pauta que, embora difusa, possui um n\u00edtido sentido de classe (sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o e transporte p\u00fablico de qualidade, al\u00e9m de protesto contra a viol\u00eancia policial, cotidianamente letal nas favelas e periferias da grande cidade). Isso refor\u00e7ou a disposi\u00e7\u00e3o de diversos grupos profissionais de ir \u00e0 luta, empolgados com a nova conjuntura, que n\u00e3o apenas fizeram greves, mas tamb\u00e9m foram para as ruas, dando maior visibilidade e buscando apoio para suas causas. N\u00e3o se deve esquecer, por\u00e9m, que as greves decorrem tamb\u00e9m de um ac\u00famulo de descontentamentos relativos \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de trabalho e aos sal\u00e1rios. Por um lado, a relativa diminui\u00e7\u00e3o do n\u00edvel de desemprego atenua um pouco a inseguran\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o ao confronto grevista, por outro lado, os baixos sal\u00e1rios e condi\u00e7\u00f5es adversas de trabalho (vide o crescimento dos acidentes de trabalho e as autua\u00e7\u00f5es por trabalho an\u00e1logo \u00e0 escravid\u00e3o em canteiros das grandes obras do PAC e dos megaeventos, por exemplo) s\u00e3o fatores objetivos a impulsionar um maior volume de greves.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Quais s\u00e3o as principais reivindica\u00e7\u00f5es das categorias nessas greves?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Marcelo Badar\u00f3 Mattos &#8211;<\/strong> As principais reivindica\u00e7\u00f5es s\u00e3o reajustes salariais e melhoria das condi\u00e7\u00f5es de trabalho \u2014 o que envolve o fim da dupla fun\u00e7\u00e3o para os rodovi\u00e1rios (dirigir e cobrar passagens ao mesmo tempo), a melhoria da alimenta\u00e7\u00e3o e alojamento em canteiros de obras da constru\u00e7\u00e3o civil, valores maiores pagos para a alimenta\u00e7\u00e3o dos garis, para ficar em alguns exemplos. No caso dos servidores p\u00fablicos, predominam, al\u00e9m das demandas salariais, a reformula\u00e7\u00e3o dos planos de carreira (depois de anos de desmanche das carreiras, com a introdu\u00e7\u00e3o de gratifica\u00e7\u00f5es diferenciadas e perda da isonomia entre aposentados, ativos mais antigos e rec\u00e9m-ingressos), al\u00e9m da defesa de pol\u00edticas p\u00fablicas que atendam aos interesses da maioria da popula\u00e7\u00e3o (como na luta contra o fechamento de escolas, o crescimento do n\u00famero de alunos por turma, o encolhimento dos turnos e a n\u00e3o garantia do tempo de prepara\u00e7\u00e3o de aulas por parte dos profissionais da educa\u00e7\u00e3o).<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; A que atribuiu os baixos sal\u00e1rios, apesar do aumento do sal\u00e1rio m\u00ednimo, e a falta de avan\u00e7os dos direitos trabalhistas, considerando especialmente a terceiriza\u00e7\u00e3o no Brasil?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Marcelo Badar\u00f3 Mattos &#8211;<\/strong> A l\u00f3gica da acumula\u00e7\u00e3o capitalista explica esses fen\u00f4menos, pois as empresas e empres\u00e1rios que personificam o capital, s\u00f3 \u00e0 custa de muita luta organizada por parte da classe trabalhadora reajustam sal\u00e1rios, aceitam ampliar direitos e garantem condi\u00e7\u00f5es de trabalho minimamente dignas. Desde os anos 1980 em todo o mundo, e no Brasil especialmente a partir dos anos 1990, vive-se uma \u00e9poca de recuos hist\u00f3ricos das conquistas da classe trabalhadora e avan\u00e7o do capital sobre os limites que as lutas do s\u00e9culo XX impuseram \u00e0 explora\u00e7\u00e3o. Por tr\u00e1s desse processo est\u00e1 o esfor\u00e7o do capital para superar as v\u00e1rias crises c\u00edclicas que, por suas dimens\u00f5es cada vez mais planet\u00e1rias, indicam para muitos analistas uma crise estrutural, ou sist\u00eamica. Todos os processos de reestrutura\u00e7\u00e3o produtiva induzidos desde os anos 1970, assim como a dissemina\u00e7\u00e3o de modelos neoliberais de gest\u00e3o do Estado, criaram as condi\u00e7\u00f5es para tal avan\u00e7o do capital sobre as conquistas dos trabalhadores. Tal processo adquire caracter\u00edsticas ainda mais violentas em uma periferia capitalista tardiamente industrializada e economicamente dependente do capital externo como a brasileira, em que as conquistas da classe trabalhadora eram ainda muito limitadas e onde a necessidade de gerar lucros capazes de remunerar tanto os capitais locais quanto os for\u00e2neos tendeu a produzir sempre uma superexplora\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho (para usar o sentido dado \u00e0 express\u00e3o por Ruy Mauro Marini <strong>[1]<\/strong>).<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; O que essas greves indicam do ponto de vista do trabalho no Brasil, considerando que h\u00e1 cr\u00edticas positivas em rela\u00e7\u00e3o aos governos Lula e Dilma no sentido de aumentar o sal\u00e1rio m\u00ednimo e criarem pol\u00edticas de cr\u00e9dito para o consumo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Marcelo Badar\u00f3 Mattos &#8211;<\/strong> Nestes quase 12 anos de gest\u00f5es petistas do governo federal, tanto nas fases de crescimento mais significativo no segundo mandato de Lula da Silva quanto nos per\u00edodos de quase estagna\u00e7\u00e3o do crescimento econ\u00f4mico, como hoje em dia, a maior parte dos empregos gerados no Brasil foi ancorada em baixo sal\u00e1rio. Dados de 2011 indicam que 82% dos empregados no Brasil recebem at\u00e9 tr\u00eas sal\u00e1rios m\u00ednimos (30% recebem at\u00e9 um sal\u00e1rio m\u00ednimo). Calcula-se entre 8 e 10 milh\u00f5es o n\u00famero de trabalhadores terceirizados. O n\u00famero de empregados sem assinatura na carteira de trabalho diminuiu nos \u00faltimos anos, mas se somarmos os que n\u00e3o possuem registro aos que n\u00e3o contribuem para a previd\u00eancia e aos cerca de 7% de desempregados (segundo os dados mais recentes do IBGE), temos uma ideia do grau de precariza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es de trabalho no Brasil.<\/p>\n<p>Os aumentos do sal\u00e1rio m\u00ednimo acima da infla\u00e7\u00e3o e as facilidades do cr\u00e9dito consignado e do credi\u00e1rio no com\u00e9rcio estimularam uma amplia\u00e7\u00e3o do consumo de f\u00f4lego curto, a qual o governo tenta dar sobrevida atrav\u00e9s das isen\u00e7\u00f5es fiscais (ou seja, pagamos todos para garantir o lucro das montadoras de autom\u00f3veis e fabricantes de eletrodom\u00e9sticos e eletr\u00f4nicos, praticamente todas grandes transnacionais). Mas \u00e9 preciso lembrar que os reajustes do sal\u00e1rio m\u00ednimo mal e mal o recolocaram no patamar dos anos 1980, que j\u00e1 era o ponto mais baixo da sua curva desde o final dos anos 1950. E a facilidade do cr\u00e9dito \u00e9 tamb\u00e9m a facilidade da d\u00edvida, cujo limite \u00e9 tamb\u00e9m pouco el\u00e1stico em se tratando de trabalhadores de renda t\u00e3o baixa. As greves constituem uma das rea\u00e7\u00f5es poss\u00edveis a esse quadro.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; E o que as greves sinalizam, especificamente, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 representa\u00e7\u00e3o dos sindicatos e \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o das categorias?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Marcelo Badar\u00f3 Mattos &#8211;<\/strong> Quando diversas categorias fazem greves independentemente da orienta\u00e7\u00e3o das dire\u00e7\u00f5es sindicais, ou mesmo contra elas, estamos diante de um quadro em que um processo de reorganiza\u00e7\u00e3o sindical se faz necess\u00e1rio. A \u00faltima vez em que isso ocorreu com propor\u00e7\u00f5es significativas foi no fim da d\u00e9cada de 1970 e in\u00edcio dos anos 1980, quando das greves do chamado &#8220;novo sindicalismo&#8221;, algumas delas tendo \u00e0 frente dire\u00e7\u00f5es sindicais representativas, mas muitas constru\u00eddas por &#8220;oposi\u00e7\u00f5es sindicais&#8221;, ou mesmo por setores menos organizados de bases sindicais insatisfeitas com o perfil &#8220;pelego&#8221; de suas dire\u00e7\u00f5es. Daquelas lutas surgiu a Central \u00danica dos Trabalhadores (CUT), e mais tarde outras centrais que com ela disputaram espa\u00e7o por uma via menos combativa.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; A centrais sindicais ainda t\u00eam relev\u00e2ncia na atual situa\u00e7\u00e3o da discuss\u00e3o trabalhista no pa\u00eds?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Marcelo Badar\u00f3 Mattos &#8211;<\/strong> Aquela CUT que emergiu das lutas dos anos 1970\/80 j\u00e1 n\u00e3o existe mais. Em lugar da central sindical aut\u00f4noma em rela\u00e7\u00e3o ao governo e aos patr\u00f5es, que propunha um sindicalismo classista, combativo e constru\u00eddo pela base, se ergue hoje um imenso aparato burocr\u00e1tico, atrelado ao Estado, pois dependente da contribui\u00e7\u00e3o sindical compuls\u00f3ria e de fundos p\u00fablicos e dominada por uma concep\u00e7\u00e3o de colabora\u00e7\u00e3o de classes, que se espelha em cada posicionamento de seus dirigentes. Centrais que se apresentavam como rivais, \u00e0 direita, da CUT nos anos 1990, como a For\u00e7a Sindical, hoje praticamente se equivalem em propostas e compromissos com Estado e patr\u00f5es. Novas centrais surgiram nos \u00faltimos anos, quase todas com um objetivo claro de se credenciarem para arrecadar uma fatia do bolo da contribui\u00e7\u00e3o sindical compuls\u00f3ria. Esses aparatos burocr\u00e1ticos cumprem muito mais o papel de dique de conten\u00e7\u00e3o do que o de polo irradiador das greves e mobiliza\u00e7\u00f5es. H\u00e1, no entanto, espa\u00e7o para o surgimento de alternativas.<\/p>\n<p>As greves hoje em curso s\u00e3o fragmentadas. Em alguns momentos se tenta unificar atividades e manifesta\u00e7\u00f5es, mas na aus\u00eancia de centrais sindicais amplas e representativas dispostas a dirigir a unifica\u00e7\u00e3o das lutas (h\u00e1 quantos anos n\u00e3o ouvimos falar a s\u00e9rio da ideia de uma greve geral no Brasil?), qualquer caminho unit\u00e1rio \u00e9 mais dif\u00edcil de ser trilhado. H\u00e1 alguns esfor\u00e7os em curso na dire\u00e7\u00e3o de se constituir um polo sindical combativo e o mais significativo deles me parece ser a Central Sindical e Popular \u2013 Conlutas. Digo isso porque a CSP-Conlutas se prop\u00f5e a reunir n\u00e3o apenas sindicatos, mas tamb\u00e9m outras organiza\u00e7\u00f5es e movimentos com base social na classe trabalhadora, como movimentos de luta pela moradia, pela reforma agr\u00e1ria, pela igualdade racial e de g\u00eanero, etc.<\/p>\n<p>Em um per\u00edodo em que a classe trabalhadora se encontra profundamente fragmentada e em que uma parcela expressiva dela trabalha de maneira informal e prec\u00e1ria, n\u00e3o sendo a forma sindicato tradicional capaz de agregar todas as parcelas da classe, uma central de sindicatos e movimentos sociais pode ser uma boa sa\u00edda. H\u00e1 que se ressalvar, por\u00e9m, que embora seu processo de constru\u00e7\u00e3o j\u00e1 tenha uma d\u00e9cada, a CSP-Conlutas tem dimens\u00f5es ainda muito pequenas para dar conta dos desafios que se apresentam.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Quais t\u00eam sido as propostas das esquerdas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s discuss\u00f5es acerca do trabalho?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Marcelo Badar\u00f3 Mattos &#8211;<\/strong> As for\u00e7as pol\u00edticas de esquerda, entendidas como aquelas que reivindicam a alternativa socialista \u00e0 ordem capitalista, sofreram duramente com o recuo das lutas da classe trabalhadora, de forma an\u00e1loga ao sindicalismo combativo, e suas dificuldades s\u00e3o tamb\u00e9m um componente desse recuo. Hoje, n\u00e3o apenas o desempenho eleitoral dessas for\u00e7as \u00e9 muito pouco significativo, como sua inser\u00e7\u00e3o nos movimentos sociais de base trabalhadora \u00e9 diminuta, sendo reduzida sua capacidade de influenci\u00e1-los, como ficou evidente no ano passado, em meio \u00e0s &#8220;jornadas de junho&#8221;, quando a esquerda organizada n\u00e3o conseguiu exercer um papel protag\u00f4nico nas manifesta\u00e7\u00f5es de massa, abrindo-se, inclusive, em meio aos manifestantes, durante um certo per\u00edodo, o espa\u00e7o para um recha\u00e7o, de matriz conservadora, aos partidos de forma geral. Seria, entretanto, injusto n\u00e3o reconhecer que as organiza\u00e7\u00f5es de esquerda v\u00eam cumprindo um papel importante, com todas as suas dificuldades, ao aglutinar for\u00e7as na resist\u00eancia aos ataques do capital \u00e0s conquistas da classe trabalhadora, se postando contra as &#8220;reformas&#8221; que retiram direitos, assim como apresentando propostas de reconquista desses direitos \u2014 a redu\u00e7\u00e3o da jornada de trabalho sem redu\u00e7\u00e3o de sal\u00e1rio, o fim do fator previdenci\u00e1rio no c\u00e1lculo das aposentadorias, a anula\u00e7\u00e3o de medidas privatizantes na \u00e1rea da sa\u00fade e previd\u00eancia (como o fundo de pens\u00e3o privado para os novos servidores p\u00fablicos, FUNPRESP, e a empresa que privatiza os hospitais federais, EBSERH), entre outras.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Como avalia especificamente a gest\u00e3o dos governos Lula e Dilma em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s quest\u00f5es trabalhistas, sendo que este \u00e9 o partido dos trabalhadores?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Marcelo Badar\u00f3 Mattos &#8211;<\/strong> Os governos do Partido dos Trabalhadores possuem uma base eleitoral ancorada em setores da classe trabalhadora urbana e, cada vez mais, nas parcelas mais precarizadas e pauperizadas da popula\u00e7\u00e3o dos chamados rinc\u00f5es de pobreza do interior do pa\u00eds. No entanto, o partido que carrega os trabalhadores em seu nome, desde o primeiro mandato de Lula, n\u00e3o governa para eles, governa para o capital. Da\u00ed que, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s quest\u00f5es trabalhistas, j\u00e1 a partir de 2003, suas medidas foram sempre de retrocesso. A retirada de direitos, que vinha dos anos 1990, continuou, como ficou evidente j\u00e1 nos primeiros meses do primeiro mandato de Lula, com a sua &#8220;reforma&#8221; da previd\u00eancia, ao que se seguiram mudan\u00e7as na legisla\u00e7\u00e3o das fal\u00eancias e das pequenas e m\u00e9dias empresas na mesma dire\u00e7\u00e3o. No campo da legisla\u00e7\u00e3o sindical ocorreu um aprofundamento do atrelamento dos sindicatos ao Estado, justo no caminho oposto ao que o dirigente sindical dos metal\u00fargicos de S\u00e3o Bernardo, Lula, pregava em fins dos anos 1970.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Em rela\u00e7\u00e3o ao trabalho no Brasil, que avan\u00e7os e retrocessos \u00e9 poss\u00edvel apontar?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Marcelo Badar\u00f3 Mattos &#8211;<\/strong> Todas as respostas anteriores apontam para um balan\u00e7o em que, nas rela\u00e7\u00f5es capital-trabalho no Brasil das \u00faltimas d\u00e9cadas, as for\u00e7as do trabalho perderam muito. No entanto, no \u00faltimo per\u00edodo, a eleva\u00e7\u00e3o no n\u00edvel de conflitividade social \u2014 com as manifesta\u00e7\u00f5es massivas do ano passado e a onda de greves deste ano \u2014 parece apontar para o in\u00edcio de um novo ciclo de lutas da classe trabalhadora. S\u00f3 um movimento desse tipo poder\u00e1 reverter o processo de retirada de direitos e retrocesso no grau de organiza\u00e7\u00e3o e consci\u00eancia da classe, permitindo avan\u00e7os significativos para os trabalhadores.<\/p>\n<p>Fonte: Di\u00e1rio da Liberdade<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Apesar de ainda n\u00e3o terem sido divulgados os dados oficiais sobre o n\u00famero de greves ocorridas em 2013, a estimativa<span class=\"excerpt-hellip\"> [\u2026]<\/span><\/p>\n","protected":false},"author":6,"featured_media":36203,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[10,1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/36202"}],"collection":[{"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=36202"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/36202\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=36202"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=36202"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=36202"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}