{"id":36335,"date":"2014-06-13T08:54:21","date_gmt":"2014-06-13T11:54:21","guid":{"rendered":"https:\/\/fenaprf.org.br\/?p=36335"},"modified":"2014-06-13T08:54:21","modified_gmt":"2014-06-13T11:54:21","slug":"voce-esta-a-favor-ou-contra-a-copa-do-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/voce-esta-a-favor-ou-contra-a-copa-do-mundo\/","title":{"rendered":"Voc\u00ea est\u00e1 a favor ou contra a Copa do Mundo?"},"content":{"rendered":"<p>Uma parte influente da grande imprensa no Brasil tem conduzido o debate sobre a Copa a partir de uma vis\u00e3o de mundo manique\u00edsta, estabelecendo dois polos em torno dos quais todos os leitores, ouvintes ou espectadores devem se posicionar: ou a) \u00e9 um evento imaculado, capaz de despertar os melhores sentimentos nas pessoas e cuja realiza\u00e7\u00e3o traz uma s\u00e9rie de benef\u00edcios para o Pa\u00eds \u2013 portanto, \u00e9 um privil\u00e9gio que deve ser recebido sem reservas; ou b) \u00e9 um evento obscuro, controlado por uma institui\u00e7\u00e3o corrupta que imp\u00f5e exig\u00eancias descabidas, marcado por propaganda enganosa e gasto irrespons\u00e1vel de dinheiro p\u00fablico \u2013 portanto, \u00e9 um engodo cuja conta est\u00e1 sendo paga pelos contribuintes.<\/p>\n<p>Essa maneira simplista de colocar a quest\u00e3o \u2013 opondo argumentos retirados de uma interpreta\u00e7\u00e3o estilizada dos fatos e separando a opini\u00e3o p\u00fablica entre aqueles que se declaram totalmente a favor da Copa e aqueles que assumem uma postura absolutamente contr\u00e1ria ao evento \u2013 p\u00f5e em d\u00favida a inten\u00e7\u00e3o dos formadores de opini\u00e3o. Em alguns casos, fica em segundo plano o respeito \u00e0 diversidade de opini\u00f5es \u2013 fundamento do debate p\u00fablico que deveria animar as democracias modernas \u2013, predominando a manipula\u00e7\u00e3o das discuss\u00f5es para direcionar a insatisfa\u00e7\u00e3o de amplas parcelas da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso reconhecer a contribui\u00e7\u00e3o da grande imprensa na difus\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es que oferecem maior transpar\u00eancia para os projetos e a\u00e7\u00f5es do governo federal, dos governos estaduais e das prefeituras envolvidas na prepara\u00e7\u00e3o da infraestrutura requerida para a realiza\u00e7\u00e3o do torneio no Brasil. Mas, \u00e9 necess\u00e1rio qualificar melhor o debate que est\u00e1 sendo travado, cuja repercuss\u00e3o pol\u00edtica em ano eleitoral \u00e9 bastante evidente.<\/p>\n<p>Semanalmente, s\u00e3o mencionados os projetos inscritos na Matriz de Responsabilidades, os impactos esperados e o legado prometido da Copa, que presumidamente deveria estimular a atividade econ\u00f4mica e a moderniza\u00e7\u00e3o da infraestrutura de transporte, gerar empregos e melhorar a mobilidade nas cidades-sede. Ainda que algumas obras importantes tenham sido realizadas e que alguns segmentos econ\u00f4micos tenham sido estimulados, prevalece a frustra\u00e7\u00e3o com o adiamento de alguns projetos ou o atraso na entrega de outros, prevalecem as den\u00fancias sobre o superfaturamento de algumas obras e a falta de investimentos em \u00e1reas sociais priorit\u00e1rias. O problema maior parece ser a expectativa criada em torno dos benef\u00edcios que o torneio traria para o pa\u00eds.<\/p>\n<p>A origem de todo o mal-entendido sobre o legado econ\u00f4mico da Copa do Mundo pode ser encontrada na estrat\u00e9gia adotada pela FIFA para difundir a ideia de que vale a pena sediar o torneio. Principalmente, quando a entidade decidiu voltar a realizar a Copa em pa\u00edses em desenvolvimento, que n\u00e3o contam com a infraestrutura necess\u00e1ria. Como a produ\u00e7\u00e3o do espet\u00e1culo requer as melhores condi\u00e7\u00f5es para o desempenho dos atletas em campo, para o conforto dos torcedores nas arenas e para o trabalho dos jornalistas, as candidaturas precisam demonstrar que s\u00e3o capazes de propiciar instala\u00e7\u00f5es modernas, confort\u00e1veis e seguras. E precisam provar que o pa\u00eds se compromete a fazer os investimentos requeridos, o que implica destinar bilh\u00f5es de d\u00f3lares para viabilizar o megaevento.<\/p>\n<p>Ou seja, uma candidatura n\u00e3o se sustenta sem a participa\u00e7\u00e3o efetiva do Estado e a aloca\u00e7\u00e3o de recursos p\u00fablicos. Por isso, em contrapartida, a sociedade local deveria ser recompensada por meio do legado deixado pela Copa. Por isso, a entidade recomenda que sejam feitos estudos para projetar os impactos econ\u00f4micos potenciais do gasto p\u00fablico previsto e seus benef\u00edcios para a popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A Copa \u00e9 um neg\u00f3cio altamente lucrativo: proporciona receitas bilion\u00e1rias para a FIFA, assim como um retorno de m\u00eddia garantido para os patrocinadores e um faturamento elevado para empresas de comunica\u00e7\u00e3o. Portanto, \u00e9 essencial a garantia dos governos nacionais de que todas as exig\u00eancias do Caderno de Encargos ser\u00e3o cumpridas, incluindo o compromisso de que nenhum imprevisto vai amea\u00e7ar a realiza\u00e7\u00e3o do torneio e que todos os interesses comerciais envolvidos ser\u00e3o preservados.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, qual a raz\u00e3o de argumentar que a Copa \u00e9 um bom neg\u00f3cio para o pa\u00eds que hospeda o torneio? Uma avalia\u00e7\u00e3o baseada no c\u00e1lculo \u201ccusto x benef\u00edcio\u201d \u2013 ou seja, numa racionalidade estritamente econ\u00f4mica e numa \u00e9tica utilit\u00e1ria \u2013 tende a restringir os termos do debate. O ponto a destacar \u00e9 que, em princ\u00edpio, seria poss\u00edvel sediar a Copa com um volume menor de investimentos p\u00fablicos, mas a promessa de elevado retorno econ\u00f4mico justifica um aporte maior de recursos. A responsabilidade assumida pelo governo federal, pelos governos estaduais e pelas prefeituras, em especial no que diz respeito ao prazo de entrega das obras, pressiona as autoridades a aceitarem aumentos nos custos estimados. E a aprova\u00e7\u00e3o de um regime diferenciado de contra\u00e7\u00e3o p\u00fablica para projetos relacionados com a prepara\u00e7\u00e3o do torneio talvez estimule a inclus\u00e3o de itens que n\u00e3o seriam fundamentais.<\/p>\n<p>H\u00e1 outros argumentos mais convincentes para legitimar o esfor\u00e7o deliberado de obter esse \u201cprivil\u00e9gio\u201d, pelo menos em pa\u00edses onde a popula\u00e7\u00e3o tem paix\u00e3o pelo futebol. \u00c9 verdade que a Copa poderia propiciar um \u201clegado intang\u00edvel\u201d bastante positivo, no Brasil, em termos de know-how nas \u00e1reas de turismo e arquitetura, de amplia\u00e7\u00e3o de rela\u00e7\u00f5es culturais com outras na\u00e7\u00f5es, de fortalecimento da autoestima do povo brasileiro, entre outros. Por sua vez, parece evidente que o principal legado intang\u00edvel se encontra no pr\u00f3prio campo futebol\u00edstico: as novas arenas aumentam a capacidade de faturamento de alguns clubes, alteram a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as existente e tendem a elitizar o p\u00fablico que frequenta os est\u00e1dios.<\/p>\n<p>Desde o ano passado, diferentes segmentos sociais t\u00eam questionado o modo como foram realizados os investimentos p\u00fablicos destinados a alcan\u00e7ar o padr\u00e3o de qualidade exigido pela FIFA, diante da prec\u00e1ria situa\u00e7\u00e3o do transporte p\u00fablico e da qualidade das escolas e hospitais nas cidades-sede. As manifesta\u00e7\u00f5es de rua amea\u00e7am fazer erodir uma parte do legado esperado pelas autoridades governamentais. E, ao contradizer o discurso articulado pela entidade, refor\u00e7am as den\u00fancias de que os dirigentes da FIFA se preocupam apenas em defender seus pr\u00f3prios interesses. \u00c9 preciso entender que n\u00e3o se trata da \u201cCopa do Brasil\u201d e sim da \u201cCopa da FIFA\u201d no Brasil.<\/p>\n<p>Conv\u00e9m lembrar que a vit\u00f3ria da candidatura, em 2007, gerou uma onda de euforia no pa\u00eds e que houve uma grande mobiliza\u00e7\u00e3o de governos estaduais e prefeitos para a participa\u00e7\u00e3o no torneio. Entre o empresariado, havia a opini\u00e3o un\u00e2nime de que os gastos com a Copa trariam bom retorno ao longo do tempo. Na \u00e9poca, sete anos parecia ser um prazo suficiente para a prepara\u00e7\u00e3o. At\u00e9 2010, prevalecia a ideia de que o pa\u00eds estava mudando para melhor e que a Copa contribuiria para gerar um clima de otimismo na economia nacional, para impulsionar o turismo internacional e para resolver alguns dos graves problemas de transporte a\u00e9reo e mobilidade urbana, ao menos nas cidades-sede.<\/p>\n<p>Mas, o planejamento foi mal executado, o in\u00edcio das obras foi tardio, v\u00e1rios fatores retardaram a execu\u00e7\u00e3o dos projetos, a participa\u00e7\u00e3o do setor privado se retraiu. N\u00e3o \u00e9 de estranhar que muitos analistas tenham mudado suas opini\u00f5es sobre o megaevento. Hoje, a impress\u00e3o prevalecente \u00e9 de que muitas promessas n\u00e3o foram cumpridas e a oportunidade foi desperdi\u00e7ada. Contudo, apenas depois de encerrado o torneio ser\u00e1 poss\u00edvel fazer uma avalia\u00e7\u00e3o sensata e abrangente do processo como um todo, identificar os erros e acertos de cada esfera decis\u00f3ria e, quem sabe, retirar li\u00e7\u00f5es valiosas dessa experi\u00eancia.<\/p>\n<p>O debate sobre o significado da Copa e seus legados tem contribu\u00eddo para um aprendizado social importante: sobre a delimita\u00e7\u00e3o de uma linha divis\u00f3ria entre os interesses particulares e os interesses coletivos; sobre as formas de colabora\u00e7\u00e3o entre o setor privado e o setor p\u00fablico; e sobre a diferen\u00e7a entre a legitimidade das pol\u00edticas governamentais e a avalia\u00e7\u00e3o de seus resultados.<\/p>\n<p>A Copa coloca em evid\u00eancia o que o pa\u00eds tem de melhor e traz \u00e0 tona seus principais problemas. \u00c9 preciso aproveitar a oportunidade para estabelecer f\u00f3runs apropriados para um debate democr\u00e1tico e construtivo. Ao mesmo tempo, desfrutar a experi\u00eancia \u00fanica que s\u00f3 um megaevento esportivo proporciona \u2013 no caso, a intera\u00e7\u00e3o festiva de delega\u00e7\u00f5es e torcedores de 32 na\u00e7\u00f5es, que v\u00e3o enriquecer os espa\u00e7os de conviv\u00eancia e oferecer refer\u00eancias para contrastar a realidade econ\u00f4mica, social e pol\u00edtica do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Na discuss\u00e3o sobre a Copa, raz\u00e3o e paix\u00e3o precisam estar divorciadas? \u00c9 poss\u00edvel conciliar o pensamento cr\u00edtico e o sentimento emocionado? Evitar o manique\u00edsmo ajuda a examinar os fatos com isen\u00e7\u00e3o. Perceber que a Copa n\u00e3o poderia resolver os graves problemas sociais ajuda a torcer sem culpa para nossa sele\u00e7\u00e3o ser campe\u00e3.<\/p>\n<p><em><strong>(*)<\/strong> O autor deste artigo, Marcelo Proni \u00e9 economista formado pela Unicamp, mestre em Ci\u00eancias Econ\u00f4micas e doutor em Educa\u00e7\u00e3o F\u00edsica, tamb\u00e9m pela Unicamp.<\/em><\/p>\n<p><em><\/em>Fonte: Carta Maior<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma parte influente da grande imprensa no Brasil tem conduzido o debate sobre a Copa a partir de uma vis\u00e3o<span class=\"excerpt-hellip\"> [\u2026]<\/span><\/p>\n","protected":false},"author":6,"featured_media":30713,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[9,1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/36335"}],"collection":[{"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=36335"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/36335\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=36335"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=36335"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=36335"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}