{"id":37635,"date":"2014-08-05T12:04:01","date_gmt":"2014-08-05T15:04:01","guid":{"rendered":"https:\/\/fenaprf.org.br\/?p=37635"},"modified":"2014-08-05T12:04:01","modified_gmt":"2014-08-05T15:04:01","slug":"comunicacao-ferramenta-estrategica-para-a-luta-dos-trabalhadores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/comunicacao-ferramenta-estrategica-para-a-luta-dos-trabalhadores\/","title":{"rendered":"Comunica\u00e7\u00e3o: Ferramenta estrat\u00e9gica para a luta dos trabalhadores"},"content":{"rendered":"<p>Muito se fala e se debate sobre a import\u00e2ncia da comunica\u00e7\u00e3o nos sindicatos. \u00c9 algo que fica ainda mais evidenciado quando as entidades, nos planejamentos de gest\u00e3o, refletem um pouco mais sobre sua atua\u00e7\u00e3o e insufici\u00eancias. A comunica\u00e7\u00e3o \u2013 ou a falta dela \u2013, em geral, aparece como um problema a ser enfrentado e solucionado. Nota-se, tamb\u00e9m, uma enorme dificuldade nas dire\u00e7\u00f5es sindicais quanto \u00e0 identifica\u00e7\u00e3o das medidas necess\u00e1rias e do caminho a seguir para enfrentar o problema.<\/p>\n<p>H\u00e1 duas quest\u00f5es que s\u00e3o decisivas para seguir adiante: a decis\u00e3o pol\u00edtica da dire\u00e7\u00e3o sindical visando \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de uma pol\u00edtica de comunica\u00e7\u00e3o que realmente fa\u00e7a a diferen\u00e7a e, consequentemente, a disposi\u00e7\u00e3o para a sua realiza\u00e7\u00e3o com o investimento necess\u00e1rio. Neste sentido, \u00e9 imprescind\u00edvel que a comunica\u00e7\u00e3o deixe de ser encarada como uma atividade meramente instrumental.<\/p>\n<p>O que se almeja, na verdade, \u00e9 a exist\u00eancia de uma pol\u00edtica de comunica\u00e7\u00e3o capaz de refletir as principais decis\u00f5es da organiza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores. Deve ser atualizada e ter a capacidade de operar segundo as melhores pr\u00e1ticas e t\u00e9cnicas e precisa ser bem resolvida quanto \u00e0 forma e ao conte\u00fado. Ou seja, para que de fato fa\u00e7a a diferen\u00e7a na disputa pela hegemonia, a comunica\u00e7\u00e3o deve ser feita com um alto n\u00edvel de qualidade. Cabe \u00e0 entidade sindical, portanto, ter estruturas e profissionais adequados e um plano de comunica\u00e7\u00e3o bem definido.<\/p>\n<p><strong>Um cen\u00e1rio que exige mais comunica\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>O mundo, assim como o Brasil, mudou muito nas \u00faltimas d\u00e9cadas e a luta social e pol\u00edtica dos trabalhadores e seus sindicatos t\u00eam sido fundamentais para isso. Mas esses mesmos sindicatos, que s\u00e3o comprometidos com um projeto transformador baseado na vis\u00e3o dos trabalhadores, necessitam de reposicionamento permanente diante dos novos desafios da luta de classes neste contexto contempor\u00e2neo.<\/p>\n<p>O sindicalismo dos anos de 1980, que foi marcado pela combatividade e impulsionado pela luta democr\u00e1tica e as grandes greves, teve sua import\u00e2ncia hist\u00f3rica fundamental, mas hoje n\u00e3o \u00e9 mais adequado como padr\u00e3o. Assim como o sindicalismo dos anos de 1990, que foi caracterizado pela luta de resist\u00eancia ao neoliberalismo. Nos anos de 2000, com a derrota do neoliberalismo e o advento de governos vinculados ao campo da esquerda \u2013 os governos de Lula e, agora, de Dilma \u2013, um novo cen\u00e1rio se colocou: impulsionar a luta transformadora, aprofundando conquistas e garantindo as mudan\u00e7as que o pa\u00eds precisa, tendo intr\u00ednseco o sentido estrat\u00e9gico que \u00e9 aproximar a na\u00e7\u00e3o daquele projeto hist\u00f3rico da classe \u2013 o socialismo.<\/p>\n<p>O novo padr\u00e3o da luta sindical para o momento atual \u00e9 dos mais desafiadores: trata-se de uma a\u00e7\u00e3o sindical que precisa ser combativa, independente, moderna e, ao mesmo tempo, ter a capacidade de criar novos espa\u00e7os de rela\u00e7\u00e3o com os trabalhadores, suas fam\u00edlias e dialogar mais amplamente com a sociedade. A comunica\u00e7\u00e3o se imp\u00f5e como ferramenta essencial e estrat\u00e9gica nesta jornada.<\/p>\n<p>Igualmente, acentuou-se muito nas \u00faltimas d\u00e9cadas, ao lado da evolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica das comunica\u00e7\u00f5es, a concentra\u00e7\u00e3o e o poder da \u201cgrande m\u00eddia\u201d, que passou a se comportar, cada vez mais, como \u201cpartido da direita\u201d, em sintonia com os setores conservadores e com a manuten\u00e7\u00e3o dos interesses hegem\u00f4nicos do capital.<\/p>\n<p><strong>Superar a defasagem<\/strong><\/p>\n<p>As entidades sindicais foram, no entanto, ficando para tr\u00e1s. Ainda debatem pouco a comunica\u00e7\u00e3o social, sua legisla\u00e7\u00e3o, entraves e limita\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas. De outro lado, desenvolveram pouco seus sistemas pr\u00f3prios de comunica\u00e7\u00e3o, que est\u00e3o desatualizados. Enquanto as tecnologias da comunica\u00e7\u00e3o deram passos largos nesses \u00faltimos anos, s\u00e3o rar\u00edssimos os exemplos de sindicatos que realmente aprofundaram a reflex\u00e3o sobre a comunica\u00e7\u00e3o no seu dia a dia e que valorizam e investem na \u00e1rea.<\/p>\n<p>Em geral, as entidades sindicais ainda subestimam o papel da comunica\u00e7\u00e3o como elemento fundamental na luta de ideias e mobilizadora da classe e da sociedade. H\u00e1 pouca clareza acerca das caracter\u00edsticas pr\u00f3prias deste tipo de comunica\u00e7\u00e3o (a comunica\u00e7\u00e3o alternativa ou contra-hegem\u00f4nica) e seu potencial. Como h\u00e1 pouco investimento, os setores de comunica\u00e7\u00e3o das entidades s\u00e3o prec\u00e1rios estruturalmente e o resultado, por \u00f3bvio, tamb\u00e9m \u00e9 limitado. N\u00e3o se d\u00e1 o tratamento t\u00e9cnico adequado e as mensagens possuem pouca qualidade formal. Al\u00e9m disso, padecem de conte\u00fado truncado, ou seja, a mensagem n\u00e3o \u00e9 atraente e n\u00e3o estabelece uma real conex\u00e3o com o que realmente importa: a pol\u00edtica da entidade.<\/p>\n<p>Mesmo para efeitos de compara\u00e7\u00e3o, ao examinar o padr\u00e3o de investimento e qualidade de produ\u00e7\u00e3o da m\u00eddia hegem\u00f4nica no Brasil, e mesmo o padr\u00e3o da comunica\u00e7\u00e3o empresarial, n\u00e3o restam d\u00favidas: cabe aos trabalhadores superar o atraso e desenvolver mais e melhor suas pol\u00edticas de comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Na medida em que a sociedade se complexifica, com os novos perfis de trabalhadores, isso se torna cada vez mais imprescind\u00edvel. \u00c9 necess\u00e1rio, por meio de pesquisas, conhecer melhor estes trabalhadores e identificar como a sociedade percebe a entidade sindical e suas bandeiras de luta. A partir da\u00ed, trabalhar a imagem da entidade frente \u00e0 sua base e \u00e0 sociedade de maneira planejada, posicionando-a e estabelecendo metas de crescimento e influ\u00eancia, assim como estabelecer canais de comunica\u00e7\u00e3o democr\u00e1ticos, que permitam o reconhecimento e a participa\u00e7\u00e3o ativa dos trabalhadores e da sociedade, entre outras quest\u00f5es. Portanto, no mundo atual, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel pensar em um sindicalismo \u201ccombativo\u201d sem que haja investimento em comunica\u00e7\u00e3o. Hoje em dia, para a consecu\u00e7\u00e3o da luta dos trabalhadores, tamb\u00e9m \u00e9 necess\u00e1rio se levar em conta o alto grau de sofistica\u00e7\u00e3o dos processos de constru\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica existentes na sociedade, em especial no mundo do trabalho.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que uma pol\u00edtica de comunica\u00e7\u00e3o mais avan\u00e7ada \u2013 de car\u00e1ter estrat\u00e9gico \u2013 depende da capacidade e do n\u00edvel de combatividade da dire\u00e7\u00e3o sindical e sua sintonia com os desafios dos trabalhadores num cen\u00e1rio cada vez mais din\u00e2mico: dia ap\u00f3s dia, os trabalhadores exigem\u00a0 mais respostas aos seus interesses imediatos, por sal\u00e1rios, empregos mais duradouros e direitos. Uma conjuntura que tamb\u00e9m \u00e9 marcada pela ascend\u00eancia ao poder pol\u00edtico da na\u00e7\u00e3o de um governo mais identificado com as lutas dos trabalhadores. Em meio a tudo isso, outro tra\u00e7o fundamental deste per\u00edodo \u00e9 a crise do capitalismo. S\u00e3o componentes que ampliam a responsabilidade das organiza\u00e7\u00f5es sindicais que precisam dar respostas \u00e0s lutas imediatas e aos objetivos hist\u00f3ricos da classe. S\u00f3 h\u00e1 o que comunicar se houver fato, uma a\u00e7\u00e3o sindical adequada, atualizada e necess\u00e1ria a este momento hist\u00f3rico.<\/p>\n<p>O economista M\u00e1rcio Pochmann, no 4\u00ba Encontro Nacional de Comunica\u00e7\u00e3o da Fenajufe (Federa\u00e7\u00e3o Nacional dos Trabalhadores do Judici\u00e1rio Federal e Minist\u00e9rio P\u00fablico da Uni\u00e3o), em mar\u00e7o de 2008, criticou o modo de organiza\u00e7\u00e3o sindical atual. Para ele, o sindicalismo de hoje \u00e9 a representa\u00e7\u00e3o do passado e assume uma postura patrimonialista mais do que de agente transformador do modo de vida dos trabalhadores. Para ele, num pa\u00eds em que n\u00e3o existe &#8220;opini\u00e3o p\u00fablica&#8221;, mas opini\u00e3o &#8220;publicada&#8221;, estamos perdendo o jogo. \u201cA comunica\u00e7\u00e3o \u00e9 chave, a disputa pela opini\u00e3o \u00e9 chave. Na d\u00e9cada de 80, os sindicatos concorriam com os Correios em credibilidade, hoje os sindicatos (e os Correios, inclusive) perderam a credibilidade e os empres\u00e1rios (que antes n\u00e3o tinham) ganham credibilidade. N\u00e3o podemos continuar reproduzindo o passado.&#8221; Para Pochmann, os sindicatos devem investir mais na disputa pelo tempo livre do trabalhador, com a cria\u00e7\u00e3o de centros de sociabilidade, e ter uma imprensa sindical mais integrada, que realmente assuma uma pauta de interesse da classe. Em outras palavras, trata-se de disputar a subjetividade da classe, que est\u00e1 permanentemente &#8220;bombardeada&#8221; pela grande m\u00eddia e o apelo do consumo em &#8220;shopping centers com ar refrigerado&#8221;.<\/p>\n<p>Seguindo essa mesma linha, o soci\u00f3logo Giovanni Alves, doutor em Ci\u00eancias Sociais pela Unicamp, considera que com o toyotismo (modo de organiza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o capitalista origin\u00e1rio do Jap\u00e3o, surgido nas f\u00e1bricas da montadora de autom\u00f3vel Toyota, quer tinha como elemento principal a flexibiliza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o) tende a ocorrer uma racionaliza\u00e7\u00e3o do trabalho que, por se instaurar sob o capitalismo manipulat\u00f3rio, constitui-se, em seus nexos essenciais, por meio da inser\u00e7\u00e3o engajada do trabalho assalariado na produ\u00e7\u00e3o do capital: o chamado \u201cengajamento estimulado\u201d. Ocorre uma nova orienta\u00e7\u00e3o na constitui\u00e7\u00e3o da racionaliza\u00e7\u00e3o do trabalho, com a produ\u00e7\u00e3o capitalista, sob as injun\u00e7\u00f5es da mundializa\u00e7\u00e3o do capital, exigindo, mais do que nunca, a captura integral da subjetividade oper\u00e1ria (o que explica, portanto, os impulsos desesperados \u2013 e contradit\u00f3rios \u2013 do capital para conseguir a parceria com o trabalho assalariado).<\/p>\n<p>Ainda segundo Alves, m\u00faltiplas formas de fetichiza\u00e7\u00f5es e reifica\u00e7\u00f5es poluem e permeiam o mundo do trabalho, com repercuss\u00f5es enormes na vida fora do trabalho, na esfera da reprodu\u00e7\u00e3o societal, na qual o consumo de mercadorias, materiais ou imateriais, tamb\u00e9m est\u00e1 em enorme medida estruturado pelo capital. Dos servi\u00e7os p\u00fablicos cada vez mais privatizados, at\u00e9 o turismo, no qual o \u201ctempo livre\u201d \u00e9 instigado a ser gasto no consumo dos shopping centers, s\u00e3o enormes as evid\u00eancias do dom\u00ednio do capital na vida fora do trabalho, que colocam obst\u00e1culos ao desenvolvimento de uma subjetividade aut\u00eantica, ou seja, uma subjetividade capaz de aspirar a uma personalidade n\u00e3o mais particular nem meramente reduzida \u00e0 sua \u201cparticularidade\u201d. A aliena\u00e7\u00e3o\/estranhamento e os novos fetichismos que permeiam o mundo do trabalho tendem a impedir a autodetermina\u00e7\u00e3o da personalidade e a multiplicidade de suas qualidades e atividades.<\/p>\n<p>Mas o que \u00e9 mesmo que a comunica\u00e7\u00e3o tem a ver com isso? Tudo, pois cabe aos meios de comunica\u00e7\u00e3o de massa refor\u00e7ar os valores que interessam \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o do sistema e seu \u201cstatus quo\u201d, o est\u00edmulo permanente ao consumo desenfreado e \u00e0 disputa individualista pelo &#8220;sucesso&#8221; e a manuten\u00e7\u00e3o\/refor\u00e7o de estere\u00f3tipos que desvalorizam minorias e setores sociais.<\/p>\n<p>Estes meios envolvem as pessoas com uma presen\u00e7a de que \u00e9 dif\u00edcil escapar. Televis\u00e3o, r\u00e1dio, jornal, internet, an\u00fancios de rua, em shopping ou supermercado. Dentro de casa ou no espa\u00e7o p\u00fablico, a m\u00eddia oferece servi\u00e7os com uma const\u00e2ncia que se imp\u00f5e como necessidade indispens\u00e1vel. Essa onipresen\u00e7a s\u00f3 potencializa a influ\u00eancia da m\u00eddia como veiculadora de valores, prioridades e perspectivas hegem\u00f4nicas.<\/p>\n<p><strong>Comunica\u00e7\u00e3o sindical \u00e9 m\u00eddia alternativa<\/strong><\/p>\n<p>As corpora\u00e7\u00f5es mundiais e locais da m\u00eddia n\u00e3o s\u00f3 agilizam a difus\u00e3o de not\u00edcias no mundo e no pa\u00eds, como elegem os temas e assuntos e editam o material jornal\u00edstico que vai para o ar, de maneira que o que est\u00e1 sendo noticiado n\u00e3o est\u00e1 mais, necessariamente, atendendo uma exig\u00eancia de uma regi\u00e3o, ou de um pa\u00eds, ou at\u00e9 de um continente. Vive-se, portanto, um momento em que se faz necess\u00e1rio discutir um pouco mais sobre a import\u00e2ncia e o potencial de meios de comunica\u00e7\u00e3o alternativos \u2013 entre eles a m\u00eddia sindical \u2013 e a reflex\u00e3o acerca do papel que desempenham como articuladores de um processo novo, ao mesmo tempo social, est\u00e9tico, cognitivo e tecnol\u00f3gico que pode e deve dar voz \u00e0queles que nunca tiveram, que sempre foram tratados como meros consumidores pela m\u00eddia comercial.<\/p>\n<p>Neste cen\u00e1rio, a comunica\u00e7\u00e3o sindical se d\u00e1 \u2013 dentro do campo geral das comunica\u00e7\u00f5es \u2013 como comunica\u00e7\u00e3o alternativa ou contra-hegem\u00f4nica. Ou seja, est\u00e1 posicionada ao lado dos trabalhadores e dos movimentos sociais na luta contra a hegemonia do capital, na defesa de uma sociedade mais justa e culturalmente superior. Uma m\u00eddia alternativa que deve buscar quebrar o sil\u00eancio, refutar as mentiras propagadas pela grande m\u00eddia do capital e trazer \u00e0 tona a verdade. Um tipo de comunica\u00e7\u00e3o que deve utilizar de todos os meios poss\u00edveis para exercer o seu papel de fornecer ao p\u00fablico os fatos que lhe s\u00e3o negados. E, al\u00e9m disso, tamb\u00e9m pesquisar novas formas de desenvolver uma perspectiva de questionamento do processo hegem\u00f4nico e fortalecer o sentimento de confian\u00e7a da classe em seu poder de engendrar mudan\u00e7as construtivas.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m \u00e9 um tipo de comunica\u00e7\u00e3o que trabalha com o conceito de audi\u00eancia ativa, ou seja, cultura n\u00e3o se comp\u00f5e apenas de textos e outros artefatos, mas tamb\u00e9m do modo como s\u00e3o recebidos e utilizados. Assim como a ideia de que a constru\u00e7\u00e3o de sentido das mensagens da m\u00eddia alternativa se d\u00e1 a partir de uma cultura de oposi\u00e7\u00e3o, intrinsecamente ligada \u00e0 cultura popular, e que esta influencia e \u00e9 influenciada pela cultura de massa.<\/p>\n<p>Outro aspecto importante que deve ser levado em conta para o tipo de comunica\u00e7\u00e3o que as entidades sindicais realizam \u00e9 a no\u00e7\u00e3o de opini\u00e3o p\u00fablica. Neste caso, a compreens\u00e3o de que n\u00e3o h\u00e1 apenas uma opini\u00e3o p\u00fablica, e sim v\u00e1rias opini\u00f5es que podem estar ligadas a determinados segmentos, espa\u00e7os geogr\u00e1ficos, classes etc. Portanto, \u00e9 preciso relativizar certa imposi\u00e7\u00e3o que h\u00e1 na sociedade de que a opini\u00e3o repetida exaustivamente pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o do capital refletem por si uma verdade universalizante, que permeia toda a sociedade. Ali\u00e1s, n\u00e3o s\u00e3o raros os casos em que o real interesse p\u00fablico n\u00e3o bate com as opini\u00f5es da grande m\u00eddia. Claro que esta abordagem n\u00e3o nega a exist\u00eancia de uma esfera p\u00fablica burguesa, um conjunto de elementos culturais e simb\u00f3licos dominantes na sociedade que s\u00e3o constru\u00eddos historicamente.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, tamb\u00e9m \u00e9 poss\u00edvel dizer que, em meio \u00e0 complexidade de interesses existentes na sociedade, principalmente num campo tensional entre o Estado, o capital e as for\u00e7as produtivas, surge a necessidade de constru\u00e7\u00e3o de uma verdadeira esfera p\u00fablica, que atenda aos interesses de uma maioria, ou seja, todos os que vivem do trabalho e est\u00e3o exclu\u00eddos do poder e da propriedade dos grandes meios de produ\u00e7\u00e3o e de comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Enfrentando o problema<\/strong><\/p>\n<p>A mudan\u00e7a de padr\u00e3o requer que a comunica\u00e7\u00e3o sindical seja compreendida como \u00e1rea priorit\u00e1ria, ou seja, deve estar presente e acompanhar o processo de debates na dire\u00e7\u00e3o do sindicato, fazendo parte da cadeia de decis\u00f5es. Al\u00e9m disso, deve ser configurada em um plano de comunica\u00e7\u00e3o. Este ser\u00e1 o guia de a\u00e7\u00f5es do setor, com a implementa\u00e7\u00e3o de uma pol\u00edtica de comunica\u00e7\u00e3o planejada, ligada \u00e0 estrat\u00e9gia global da entidade.<\/p>\n<p>O plano, na sua dimens\u00e3o t\u00e1tica, precisa configurar um sistema de atua\u00e7\u00e3o, ou seja, um conjunto de procedimentos t\u00e9cnicos que ser\u00e3o executados de maneira integrada garantindo a unidade das diversas \u00e1reas da comunica\u00e7\u00e3o \u2013 jornalismo, publicidade e rela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas \u2013 e de discursos, para que todos os canais falem a mesma linguagem e se complementem com estrat\u00e9gia de comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Uma pol\u00edtica de comunica\u00e7\u00e3o, definida e executada com um plano estrat\u00e9gico, confere \u00e0 \u00e1rea outra realidade: ela deixa de ser apenas um instrumento secund\u00e1rio, do qual se lan\u00e7a m\u00e3o quando \u00e9 necess\u00e1rio fazer o cartaz de uma determinada campanha ou o jornal daquele m\u00eas ou semana. Nessas condi\u00e7\u00f5es, a comunica\u00e7\u00e3o passa a ter uma condi\u00e7\u00e3o superior, integrada na gest\u00e3o estrat\u00e9gica e na fixa\u00e7\u00e3o de atributos de imagem de maneira controlada, sintonizada com a identidade do sindicato, sua hist\u00f3ria, posicionamento e caracter\u00edsticas pol\u00edticas da sua dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Elementos que conferem dimens\u00e3o estrat\u00e9gica \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o das entidades sindicais:<\/strong><\/p>\n<p>&#8211;\u00a0 <em>Inser\u00e7\u00e3o da comunica\u00e7\u00e3o na cadeia de decis\u00f5es<\/em><\/p>\n<p>Requisito que serve para orientar a an\u00e1lise de situa\u00e7\u00f5es e cen\u00e1rios implicados na a\u00e7\u00e3o da entidade; \u00e9 fundamental para a ado\u00e7\u00e3o de mecanismos que considerem a consecu\u00e7\u00e3o dessas a\u00e7\u00f5es. \u00c9 claro que o envolvimento da comunica\u00e7\u00e3o no processo de decis\u00f5es decorre do entendimento da alta dire\u00e7\u00e3o sobre a sua fun\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica na gest\u00e3o da organiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0 <em>Tratamento processual da comunica\u00e7\u00e3o<\/em><\/p>\n<p>A comunica\u00e7\u00e3o deve ser vista como um processo cumulativo na constru\u00e7\u00e3o da identidade e da imagem da entidade.<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0 <em>Comunica\u00e7\u00e3o integrada<\/em><\/p>\n<p>Deve ser integrada nos subcampos do jornalismo, publicidade e propaganda e rela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas. Cada \u00e1rea possui suas especificidades. Estas precisam ser geridas de maneira integrada \u2013 com unidade \u2013 no sentido de garantir alta qualidade nos processos, na forma e no conte\u00fado das mensagens.<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0 <em>Pesquisas<\/em><\/p>\n<p>Ado\u00e7\u00e3o de pesquisas qualitativas e quantitativas para um conhecimento mais preciso e profundo da conjuntura, do ambiente e dos p\u00fablicos atingidos: os trabalhadores e a sociedade.<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0 <em>Uso sistem\u00e1tico do planejamento<\/em><\/p>\n<p>O alinhamento e o apoio efetivo da comunica\u00e7\u00e3o aos objetivos e estrat\u00e9gias da entidade requerem intencionalidade e sistematiza\u00e7\u00e3o, pautados em um planejamento estrat\u00e9gico e programas de a\u00e7\u00e3o\/rotinas de trabalho que assegurem a sinergia dessa rela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>A realiza\u00e7\u00e3o de uma pol\u00edtica de comunica\u00e7\u00e3o sindical moderna deve ter algumas caracter\u00edsticas:<\/strong><\/p>\n<p>&#8211; <em>Investimento em canais pr\u00f3prios e meios alternativos<\/em><\/p>\n<p>Significa dizer que cabe \u00e0s entidades sindicais possuir fortes canais pr\u00f3prios de comunica\u00e7\u00e3o, al\u00e9m de empreender a constru\u00e7\u00e3o de canais alternativos conjuntos, com os demais sindicatos e organiza\u00e7\u00f5es sociais aliadas, por exemplo, r\u00e1dios e TVs comunit\u00e1rias, portais na web, blogs.<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0 <em>Pol\u00edtica para utiliza\u00e7\u00e3o da m\u00eddia de massas<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 necess\u00e1rio ter pol\u00edtica de comunica\u00e7\u00e3o de alto impacto para atingir os trabalhadores e\/ou a sociedade como um todo, j\u00e1 que h\u00e1 momentos em que se requer a generaliza\u00e7\u00e3o de conte\u00fados e ampla mobiliza\u00e7\u00e3o de massas. Por outro lado, ao se investir na cria\u00e7\u00e3o de conte\u00fados independentes ligados aos interesses da classe trabalhadora para ve\u00edcula\u00e7\u00e3o na m\u00eddia comercial, \u00e9 poss\u00edvel estabelecer la\u00e7os com os trabalhadores destes meios (no caso jornalistas, editores etc.) e at\u00e9 neutralizar movimentos conservadores oriundos destas empresas. Como diz a letra da can\u00e7\u00e3o \u201cSue\u00f1o con Serpientes\u201d, de Milton Nascimento: &#8220;<em>Esta afin me enguye, y mientras por su esofago. Paseo, voy pensando en qu\u00e9 vendr\u00e1. Pero se destruye cuando llego a su estomago. Y planteo con un verso una verdad<\/em>&#8220;.<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0 <em>Luta pela democratiza\u00e7\u00e3o da comunica\u00e7\u00e3o<\/em><\/p>\n<p>Mobiliza\u00e7\u00e3o em torno da luta por uma nova configura\u00e7\u00e3o legal para o sistema de comunica\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. O Brasil vive um momento em que se faz necess\u00e1ria a reorganiza\u00e7\u00e3o do sistema de m\u00eddia, seja porque as mudan\u00e7as tecnol\u00f3gicas exigem isso, seja tamb\u00e9m porque parece ter in\u00edcio um processo de distanciamento entre os interesses dos grandes meios de comunica\u00e7\u00e3o do capital e os reais interesses e necessidades do p\u00fablico. E os trabalhadores s\u00e3o os maiores interessados em um sistema de m\u00eddia mais democr\u00e1tico no Brasil.<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0 <em>Web e suas potencialidades democr\u00e1ticas<\/em><\/p>\n<p>H\u00e1 um enorme universo de comunica\u00e7\u00e3o a ser explorado pelo movimento sindical, que vai das experi\u00eancias das p\u00e1ginas, blogs, microblogs, r\u00e1dio e TV na web, at\u00e9 a utiliza\u00e7\u00e3o de celulares e outros meios digitais. \u00c9 uma nova cultura da comunica\u00e7\u00e3o que cresce exponencialmente, ainda sob o princ\u00edpio da liberdade, algo que deve ser muito mais utilizado al\u00e9m de ser defendido e incorporado entre as bandeiras de luta dos trabalhadores.<strong><\/strong><\/p>\n<p><strong>Conclus\u00f5es<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 uma necessidade que se imp\u00f5e com cada vez mais for\u00e7a nas entidades sindicais dos trabalhadores: superar a n\u00edtida defasagem em que se encontram no campo da comunica\u00e7\u00e3o. Est\u00e1 chegando ao mercado de trabalho em novo tipo de trabalhador, cada vez mais bem preparado tecnicamente, mais exigente, voltado para o consumo e mais conectado ao mundo das comunica\u00e7\u00f5es, sobretudo na internet.<\/p>\n<p>Somente a partir de uma vis\u00e3o mais clara sobre o papel atual e estrat\u00e9gico da comunica\u00e7\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel mudar a compreens\u00e3o errada de que esta significa custo, de que \u00e9 gasto improdutivo. Comunica\u00e7\u00e3o \u00e9 investimento cumulativo que refor\u00e7a o esfor\u00e7o global da entidade na realiza\u00e7\u00e3o dos seus principais objetivos, de curto, m\u00e9dio e longo prazos. Uma pol\u00edtica de comunica\u00e7\u00e3o bem executada tem papel decisivo no posicionamento da marca da entidade e da sua dire\u00e7\u00e3o no cen\u00e1rio social, seja diante das categorias de trabalhadores representados, seja na sociedade como um todo. Isso refor\u00e7a, e muito, a luta transformadora da classe.<\/p>\n<p>Este investimento deve ser o suficiente para permitir a constru\u00e7\u00e3o de uma pol\u00edtica de comunica\u00e7\u00e3o com a\u00e7\u00f5es efetivas, claramente definidas, planejadas e executadas por profissionais valorizados, tendo por base uma ferramenta pr\u00e1tica de trabalho: o plano estrat\u00e9gico de comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A comunica\u00e7\u00e3o sindical pode configurar-se em um espa\u00e7o vivo e criativo. Mas isso depende da compreens\u00e3o das dire\u00e7\u00f5es sindicais e de uma nova atitude que vise o fortalecimento do sindicato e da luta contra-hegem\u00f4nica frente ao capital, e por uma sociedade mais justa, socialista.<\/p>\n<p>Clomar Porto &#8211; Jornalista<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Muito se fala e se debate sobre a import\u00e2ncia da comunica\u00e7\u00e3o nos sindicatos. \u00c9 algo que fica ainda mais evidenciado<span class=\"excerpt-hellip\"> [\u2026]<\/span><\/p>\n","protected":false},"author":6,"featured_media":37300,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[9,1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/37635"}],"collection":[{"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=37635"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/37635\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=37635"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=37635"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=37635"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}