{"id":4180,"date":"2011-12-30T17:27:05","date_gmt":"2011-12-30T20:27:05","guid":{"rendered":"https:\/\/fenaprf.org.br\/?p=4180"},"modified":"2011-12-30T17:27:05","modified_gmt":"2011-12-30T20:27:05","slug":"sua-rotina-pode-ser-mortal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/sua-rotina-pode-ser-mortal\/","title":{"rendered":"Sua rotina pode ser mortal!"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right\">por Humberto Wendling<\/p>\n<p align=\"justify\">Imagine que voc\u00ea participou de um treinamento de autodefesa policial que incluiu estat\u00edsticas sobre policiais mortos, hist\u00f3rias terr\u00edveis sobre viol\u00eancia, e talvez um ou dois assassinatos gravados por circuitos de TV.<\/p>\n<p align=\"justify\">\nVoc\u00ea terminou o curso impressionado com o potencial de ser a pr\u00f3xima v\u00edtima do crime e da viol\u00eancia mesmo sendo um policial. Ent\u00e3o, voc\u00ea fica alerta, consciente, observa as redondezas, sendo mais cauteloso sobre pessoas que considera potencialmente suspeitas. Mas, quantos dias voc\u00ea acha que isso vai durar?<\/p>\n<p align=\"justify\">\nCom o tempo, a aus\u00eancia de consequ\u00eancias perigosas reais faz voc\u00ea relaxar. E apesar de voc\u00ea estar interessado na sua seguran\u00e7a e possuir o conhecimento do que deve ser feito, voc\u00ea n\u00e3o consegue agir adequadamente. Suas habilidades de sobreviv\u00eancia, seu estado de alerta logo come\u00e7am a desaparecer. Por qu\u00ea?<\/p>\n<p align=\"justify\">Porque o c\u00e9rebro est\u00e1 orientado para automatizar comportamentos repetitivos, pois \u00e9 a maneira como os seres vivos trabalham. Muito do comportamento humano di\u00e1rio \u00e9 automatizado, e isso acontece sem voc\u00ea perceber.<\/p>\n<p align=\"justify\">\nPsic\u00f3logos estimam que mais de 90% desse comportamento humano di\u00e1rio ocorre sem consci\u00eancia ou pensamento deliberado. Atividades repetitivas tornam-se a\u00e7\u00f5es autom\u00e1ticas para liberar sua aten\u00e7\u00e3o para coisas que s\u00e3o novas, desconhecidas ou amea\u00e7adoras. Se n\u00e3o fosse dessa maneira sua mente ficaria sobrecarregada e seria sobrepujada com a mais simples das tarefas.<\/p>\n<p align=\"justify\">Assim, pessoas expostas periodicamente a lugares altos reduzem seu medo de altura. Pessoas com dificuldade de falar em p\u00fablico sentem-se mais confiantes em frente desse p\u00fablico depois de exposi\u00e7\u00f5es habituais. Do mesmo modo, pessoas que s\u00e3o rotineiramente expostas a situa\u00e7\u00f5es potencialmente perigosas tornam-se menos cuidadosas em tais situa\u00e7\u00f5es. Isso se chama habitua\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">\n\u00c9 bem verdade que o h\u00e1bito ou a rotina facilita e p\u00f5e ordem no seu trabalho e na sua vida, pois \u00e9 sua experi\u00eancia acumulada ao longo do tempo trabalhando para voc\u00ea de modo autom\u00e1tico. Contudo, exposi\u00e7\u00f5es habituais a determinadas ocorr\u00eancias, mesmo que perigosas, entediam seu mecanismo de autodefesa. Ent\u00e3o, a rotina trabalha contra voc\u00ea quando se \u00e9 exposto muitas vezes a situa\u00e7\u00f5es potencialmente arriscadas onde nada acontece, e depois de uns 10 anos, ela mata um n\u00famero consider\u00e1vel de policiais.<\/p>\n<p align=\"justify\">\nDe acordo com os relat\u00f3rios anuais do FBI sobre policiais mortos e agredidos, o tempo m\u00e9dio de servi\u00e7o dos policiais mortos nos Estados Unidos \u00e9 de 10 anos, e a m\u00e9dia de idade desses policiais \u00e9 de 36 anos. Nem um \u201cnovinho\u201d, nem um \u201cantig\u00e3o\u201d, mas algu\u00e9m no meio da carreira, se voc\u00ea considerar que um policial brasileiro precisa ter 20 anos de servi\u00e7o estritamente policial para se aposentar.<\/p>\n<p align=\"justify\">\n\u201cNada \u00e9 rotina!\u201d, \u201cEvite a rotina!\u201d e \u201cOs maiores inimigos do policial s\u00e3o: a rotina e o excesso de confian\u00e7a!\u201d s\u00e3o algumas das frases que n\u00f3s, instrutores, repetimos desde que come\u00e7amos a falar sobre sobreviv\u00eancia policial. Mas, voc\u00ea j\u00e1 deve estar cansado de ouvir isso!<\/p>\n<p align=\"justify\">\nA realidade \u00e9 que barreiras policiais, buscas e apreens\u00f5es, pris\u00f5es, entrega de intima\u00e7\u00f5es, entrevistas e interrogat\u00f3rios, condu\u00e7\u00e3o de presos e outras ocorr\u00eancias onde nada acontece s\u00e3o, de fato, rotina. Voc\u00ea pode cham\u00e1-las do que quiser como \u201cbaixo risco\u201d, \u201calto risco\u201d, mas o nome n\u00e3o altera as mudan\u00e7as inconscientes que ocorrem dentro da sua mente quando voc\u00ea realiza tarefas sem consequ\u00eancias centenas de vezes ao longo dos anos.<\/p>\n<p align=\"justify\">\nO fato \u00e9 que palavras ou frases n\u00e3o protegem nem matam policiais. Mas, o que voc\u00ea precisa perceber \u00e9 que atividades di\u00e1rias realizadas repetidas vezes, ano ap\u00f3s ano, tornam o risco inerente cada vez mais invis\u00edvel, e quando isso acontece voc\u00ea tende a fazer uma de duas coisas: se torna complacente com os perigos dessas atividades ou aumenta sua exposi\u00e7\u00e3o ao risco para satisfazer sua necessidade natural de emo\u00e7\u00e3o. As duas coisas caminham lado a lado e se complementam. N\u00e3o \u00e9 por acaso que a complac\u00eancia e o comportamento de risco est\u00e3o diretamente ligados a um grande n\u00famero de policiais mortos n\u00e3o s\u00f3 por criminosos, mas tamb\u00e9m por acidentes.<\/p>\n<p align=\"justify\">Voc\u00ea tamb\u00e9m precisa entender que enquanto abordagens de modo geral tendem a ser a atividade mais comum, qualquer coisa pode se tornar rotina se feita muitas e muitas vezes sem que algo ocorra para estimular sua percep\u00e7\u00e3o de que qualquer opera\u00e7\u00e3o \u00e9 um evento desconhecido cheio de riscos e imprevistos.<\/p>\n<p align=\"justify\">Talvez voc\u00ea n\u00e3o acredite, mas o perigo, o risco e a incerteza s\u00e3o alguns componentes que tornam o trabalho policial atraente para muitos policiais ou pelo menos para os policiais natos. Por isso, eles t\u00eam n\u00e3o s\u00f3 certa toler\u00e2ncia ao perigo, mas uma verdadeira necessidade dele. N\u00e3o \u00e9 incomum esse tipo de policial se sentir desestimulado e \u201csem rumo\u201d ao ser designado para atividades administrativas ou consideradas sem import\u00e2ncia.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c9 fato que alguns policiais ajustam seu comportamento para manter a exposi\u00e7\u00e3o ao risco no n\u00edvel que precisam. Eu chamaria isso de regulador fatal.<\/p>\n<p align=\"justify\">\nDeste modo, se a rotina torna o risco existente na atividade policial invis\u00edvel, voc\u00ea ir\u00e1 inevitavelmente assumir riscos adicionais. E isso acontece quando voc\u00ea n\u00e3o espera o refor\u00e7o, avan\u00e7a um sinal vermelho sem diminuir a velocidade, entrega sozinho uma intima\u00e7\u00e3o, vai s\u00f3 ao encontro com um informante, algema o preso para frente ou n\u00e3o algema, dorme dentro da viatura, confia na den\u00fancia an\u00f4nima, etc. Mas a verdade \u00e9 simples: quanto maior o risco assumido, maior a chance de voc\u00ea morrer.<\/p>\n<p align=\"justify\">\nN\u00e3o estou dizendo que policiais querem ser mortos, mas eles procuram estar presentes em uma variedade de situa\u00e7\u00f5es arriscadas ou n\u00e3o se sentem policiais. Afinal de contas, eles correm em dire\u00e7\u00e3o ao perigo, e n\u00e3o ao lado da multid\u00e3o em p\u00e2nico.<\/p>\n<p align=\"justify\">O mesmo tende a ocorrer com a complac\u00eancia. Nada melhora suas habilidades de sobreviv\u00eancia quanto ter um criminoso tentando fer\u00ed-lo ou mat\u00e1-lo. O problema com este tipo de \u201cmotiva\u00e7\u00e3o\u201d \u00e9 que voc\u00ea se arrisca a ser ferido gravemente ou morto no mundo real. E essa n\u00e3o \u00e9 uma esp\u00e9cie de motiva\u00e7\u00e3o que fa\u00e7a qualquer sentido.<\/p>\n<p align=\"justify\">Portanto, \u00e9 hora das organiza\u00e7\u00f5es policiais introduzirem gradualmente treinamentos que previnam a complac\u00eancia e o comportamento de risco independentemente do tempo de servi\u00e7o dos policiais. Pois \u00e9 tarefa de cada policial se preparar para estar no auge da capacidade de sobreviv\u00eancia, n\u00e3o importando as vezes que voc\u00ea j\u00e1 atendeu o mesmo tipo de ocorr\u00eancia, na mesma cidade, no mesmo bairro, no mesmo com\u00e9rcio, procurando pelo mesmo bandido de sempre, no mesmo beco, nestes \u00faltimos 10 anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: right\" align=\"justify\"><em>*Humberto Wendling \u00e9 Agente de Pol\u00edcia Federal e Instrutor de Armamento e Tiro<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por Humberto Wendling Imagine que voc\u00ea participou de um treinamento de autodefesa policial que incluiu estat\u00edsticas sobre policiais mortos, hist\u00f3rias<span class=\"excerpt-hellip\"> [\u2026]<\/span><\/p>\n","protected":false},"author":6,"featured_media":4181,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[9,1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4180"}],"collection":[{"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4180"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4180\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4180"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4180"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4180"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}