{"id":42125,"date":"2015-01-30T12:06:48","date_gmt":"2015-01-30T14:06:48","guid":{"rendered":"https:\/\/fenaprf.org.br\/?p=42125"},"modified":"2015-01-30T12:06:48","modified_gmt":"2015-01-30T14:06:48","slug":"a-policia-o-bem-e-o-mal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/a-policia-o-bem-e-o-mal\/","title":{"rendered":"A pol\u00edcia, o bem e o mal"},"content":{"rendered":"<p>Pode ser uma coisa que muita gente acha desagrad\u00e1vel ouvir, e por isso \u00e9 melhor dizer logo, para n\u00e3o gastar o tempo do leitor com prosa sem recheio. \u00c9 o seguinte: os brasileiros fariam um grande favor a si mesmos se tomassem a decis\u00e3o de ficar, com o m\u00e1ximo de clareza e na frente de todo mundo, a favor da pol\u00edcia. Isso mesmo: a favor da pol\u00edcia, e da ideia de que cabe exclusivamente a ela, numa democracia que queira continuar viva, o direito de usar a for\u00e7a bruta para manter a ordem, cumprir a lei e proteger o cidad\u00e3o. Tem, tamb\u00e9m, a obriga\u00e7\u00e3o legal de fazer tudo isso. Algum problema? \u00c9 exatamente assim em todos os regimes democr\u00e1ticos. Eis a\u00ed, na verdade, uma afirma\u00e7\u00e3o evidente em si mesma; pode ser entendida sem a menor dificuldade ap\u00f3s um minuto de reflex\u00e3o. Mas estamos no Brasil, e no Brasil o que parece ser um c\u00edrculo, por exemplo, \u00e9 muitas vezes considerado um tri\u00e2ngulo, ou um quadrado, ou qualquer outra coisa que n\u00e3o seja o diabo do c\u00edrculo.<\/p>\n<p>No momento, justamente, passamos por um desses surtos de tumulto mental. Segundo o entendimento de boa parte daquilo que se considera o \u201cBrasil pensante\u201d, \u201ccivilizado\u201d ou \u201cmoderno\u201d, nosso grande problema n\u00e3o \u00e9 o crime, mas a pol\u00edcia. Parece bem esquisito pensar uma coisa dessas, num pa\u00eds com mais de 50 000 assassinatos por ano e \u00edndices de criminalidade que est\u00e3o entre os piores do mundo. Onde esses pensadores est\u00e3o vendo o problema de que tanto falam? Vai saber. Os verdadeiros mist\u00e9rios desse mundo n\u00e3o s\u00e3o as coisas invis\u00edveis, e sim as que se podem ver muito bem. No caso, o que se pode ver com a clareza do meio-dia \u00e9 a f\u00e9 autom\u00e1tica de boas almas e mentes num mandamento que ouvem desde crian\u00e7as: o criminoso brasileiro \u00e9 sempre \u201cv\u00edtima das desigualdades sociais\u201d, e o policial est\u00e1 errado, por princ\u00edpio, quando usa a for\u00e7a contra ele. Seu dever, como agente do Estado, seria tratar os bandidos como cidad\u00e3os que precisam de ajuda, para que tenham oportunidade de entender por que n\u00e3o deveriam matar, roubar, estuprar e assim por diante. Ser\u00e1 que esse jeito de pensar \u00e9 alguma tara que nos sobrou do regime militar, quando pol\u00edcia e liberdade eram coisas opostas? De novo: n\u00e3o se sabe.<\/p>\n<p>Praticamente todos os dias h\u00e1 exemplos claros desse curto-circuito geral na capacidade de separar o certo do errado. O cidad\u00e3o \u00e9 assaltado, brutalizado, ferido ? e no dia seguinte l\u00ea, ouve ou v\u00ea mais uma reportagem denunciando a pol\u00edcia por algum erro, real ou imagin\u00e1rio. Ainda h\u00e1 pouco, o pa\u00eds teve oportunidade de testemunhar pol\u00edticos, intelectuais e \u201ccelebridades\u201d em geral, com a colabora\u00e7\u00e3o maci\u00e7a da m\u00eddia, colocando a pol\u00edcia no banco dos r\u00e9us por reprimir bandos de marginais que v\u00e3o para a rua decididos, treinados e equipados para destruir. Segundo essas excelentes cabe\u00e7as, a pol\u00edcia cria um \u201cclima de viol\u00eancia\u201d e de \u201cprovoca\u00e7\u00e3o\u201d que \u201cfor\u00e7a os ativistas\u201d a se defenderem \u201cpreviamente\u201d. Para isso, veem-se obrigados a incendiar bancas de jornal, destruir carros, quebrar vitrines de loja e por a\u00ed afora. Esse tipo de julgamento vai se tornando mais e mais aceit\u00e1vel no Brasil de hoje. Deve ser maior do que se pensa o n\u00famero de pessoas que n\u00e3o querem ter a tranquilidade de sua f\u00e9 perturbada por fatos ou por conhecimentos; al\u00e9m disso, cabe\u00e7as em que n\u00e3o h\u00e1 ideias s\u00e3o sempre as mais resistentes a deixar alguma ideia entrar nelas. Quanto \u00e0 imprensa, r\u00e1dio e TV, acreditem: o que mais gostam de fazer \u00e9 falar as mesmas coisas, pois se sentem mais seguros quando um repete o outro e todos atiram nos mesmos alvos. Algu\u00e9m j\u00e1 viu, por exemplo, algum jornalista arrasando o t\u00e9cnico do Olaria?<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 sete lados nesse debate. S\u00f3 h\u00e1 dois, um que est\u00e1 a favor da lei e o outro que est\u00e1 contra ? e a\u00ed o cidad\u00e3o precisa dizer qual dos dois ele realmente apoia. O primeiro \u00e9 a pol\u00edcia. O segundo \u00e9 o que leva o crime para a rua. A \u00fanica pergunta relevante, num pa\u00eds que tem uma Constitui\u00e7\u00e3o em vigor, \u00e9: de que lado voc\u00ea est\u00e1? N\u00e3o vale dizer \u201cdepende\u201d, ou declarar-se a favor da ordem, desde que a tropa se comporte com altos n\u00edveis de civilidade, seja muito bem-educada, fale ingl\u00eas e n\u00e3o bata nunca em ningu\u00e9m, nem cause nenhum inc\u00f4modo f\u00edsico a quem esteja jogando coquet\u00e9is molotov na sua cara, ou sacando armas contra ela. A quest\u00e3o real \u00e9 apoiar hoje a pol\u00edcia brasileira que existe hoje ? n\u00e3o d\u00e1 para chamar a pol\u00edcia da Dinamarca, por exemplo, para substituir a nossa, ou tirar a PM da rua e s\u00f3 cham\u00e1-la de volta daqui a alguns anos, quando estiver suficientemente treinada, preparada e capacitada a ser infal\u00edvel. \u00c9 mais do que sabido que a pol\u00edcia do Brasil tem todos os v\u00edcios registrados no dicion\u00e1rio, de A a Z. Mas, da mesma maneira como n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel fechar todos os hospitais p\u00fablicos que funcionam mal, e s\u00f3 reabri-los quando forem uma maravilha, temos de conviver com a realidade que est\u00e1 a\u00ed. \u00c9 indispens\u00e1vel transform\u00e1-la, mas n\u00e3o d\u00e1 para exigir, j\u00e1, uma corpora\u00e7\u00e3o armada que precise ter virtudes superiores \u00e0s nossas.<\/p>\n<p>A pol\u00edcia, por piores que sejam as condutas individuais dos seus agentes e seus n\u00edveis de compet\u00eancia, \u00e9 uma pe\u00e7a essencial para manter a democracia no Brasil e impedir a tirania daqueles que s\u00f3 admitem as pr\u00f3prias raz\u00f5es. \u00c9 a pol\u00edcia, na verdade, o que a popula\u00e7\u00e3o brasileira tem hoje de mais concreto na garantia de seus direitos. Algu\u00e9m pode citar alguma for\u00e7a mais eficaz para impedir que o Congresso, o STF e o pr\u00f3prio Pal\u00e1cio do Planalto sejam invadidos, metidos a saque e incendiados? A PM est\u00e1 do lado do bem ? goste-se ou n\u00e3o disso. No mundo das realidades, \u00e9 ela a principal defesa que o cidad\u00e3o tem para proteger sua vida, sua integridade f\u00edsica, sua propriedade, sua liberdade de ir e vir, o direito \u00e0 palavra e tudo o mais que a lei lhe assegura. A autoridade policial j\u00e1 erra o suficiente quando falha ao cumprir quaisquer dessas tarefas. N\u00e3o faz nexo critic\u00e1-la nas ocasi\u00f5es em que acerta.<\/p>\n<p>N\u00e3o serve a nenhum prop\u00f3sito \u00fatil, igualmente, dar conforto ao inimigo ? o que nossa elite pensante, como dito anteriormente, faz o tempo todo. O inimigo n\u00e3o vai deixar de ser seu inimigo; voc\u00ea n\u00e3o ganhar\u00e1 sua admira\u00e7\u00e3o, nem ser\u00e1 deixado em paz. \u00c9 um desafio \u00e0 l\u00f3gica, neste sentido, achar que delinquentes teriam a licen\u00e7a de armar-se para assegurar seu direito de \u201cleg\u00edtima defesa\u201d contra a repress\u00e3o policial. A lei brasileira, com todas as letras, diz que s\u00f3 a pol\u00edcia tem o direito de portar armas, e de utiliz\u00e1-las no combate ao crime e na defesa do cidad\u00e3o ? salvo em casos excepcionais, que exigem licen\u00e7a espec\u00edfica. Dura lex sed lex, claro. Mas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma quest\u00e3o legal. Tra\u00adta-se de simples sensatez. No caso dos atos de protesto ? qual o prop\u00f3sito de levar para a rua mochilas com bombas incendi\u00e1rias, estiletes, barras de ferro e outros artefatos desenhados unicamente para machucar? Por que algu\u00e9m precisaria de qualquer dessas coisas para expressar suas opini\u00f5es em pra\u00e7a p\u00fablica?<\/p>\n<p>O Brasil vem se acostumando nos \u00faltimos anos \u00e0 ideia doente de que mostrar simpatia diante da delinqu\u00eancia e hostilidade diante da pol\u00edcia \u00e9 uma quest\u00e3o de princ\u00edpio ? uma atitude socialmente avan\u00e7ada e politicamente progressista. Quem n\u00e3o pensa assim \u00e9 visto como um homem das cavernas, extremista e inimigo da democracia. Mas \u00e9 o contr\u00e1rio: opor-se ao crime e apoiar a pol\u00edcia \u00e9 ficar a favor da liberdade. Est\u00e1 na moda denunciar, com apoio da caixa de amplifica\u00e7\u00e3o da imprensa, delitos como a \u201cprega\u00e7\u00e3o do \u00f3dio\u201d, \u201capologia do crime\u201d ou \u201cincentivo ao racismo\u201d. Esse mesmo tribunal, entretanto, aplaude como uma forma superior de cultura popular os rappers que pregam abertamente, em suas m\u00fasicas, o assassinato de policiais. H\u00e1 alguma coisa muito errada nisso a\u00ed. Est\u00e1 na hora de deixar claro: \u00e9 falso acusar de \u201chisteria\u201d e outros pecados mortais quem n\u00e3o acredita, simplesmente, que no Brasil de hoje existe algum assaltante que rouba e mata porque est\u00e1 com fome ou tem de sustentar sua fam\u00edlia; o que h\u00e1 \u00e9 gente que quer satisfazer todos os seus desejos sem ter de trabalhar ou de respeitar o direito alheio. Em Cuba, regime-modelo para nosso governo, s\u00e3o chamados de sociopatas e enterrados na cadeia mais pr\u00f3xima, sem que a \u201csociedade\u201d seja chamada a \u201cdebater\u201d coisa nenhuma.<\/p>\n<p>Deus n\u00e3o precisou da ajuda dos brasileiros para criar o Brasil. Mas, como diria Santo Agostinho, s\u00f3 poder\u00e1 nos salvar se tiver o nosso consentimento.<\/p>\n<p><strong>Publicado na edi\u00e7\u00e3o impressa de VEJA<\/strong><\/p>\n<p><em><strong>J. R. GUZZO<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Fonte: Revista Veja<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pode ser uma coisa que muita gente acha desagrad\u00e1vel ouvir, e por isso \u00e9 melhor dizer logo, para n\u00e3o gastar<span class=\"excerpt-hellip\"> [\u2026]<\/span><\/p>\n","protected":false},"author":6,"featured_media":26390,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[9,2,1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/42125"}],"collection":[{"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=42125"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/42125\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=42125"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=42125"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=42125"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}