{"id":57960,"date":"2018-07-30T14:49:57","date_gmt":"2018-07-30T17:49:57","guid":{"rendered":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/?p=57960"},"modified":"2018-07-30T14:49:57","modified_gmt":"2018-07-30T17:49:57","slug":"entrevista-w-marques-autor-de-pesquisa-sobre-a-vitimizacao-de-prfs","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/entrevista-w-marques-autor-de-pesquisa-sobre-a-vitimizacao-de-prfs\/","title":{"rendered":"ENTREVISTA &#8211; W. Marques, autor de pesquisa sobre a vitimiza\u00e7\u00e3o de PRFs"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 pouco mais de cinco anos, Wanderley Marques Martins mudou a trajet\u00f3ria de sua vida. Graduado em matem\u00e1tica, o segundo sargento do Ex\u00e9rcito no batalh\u00e3o de infantaria de fronteira em Corumb\u00e1\/MS foi nomeado como policial rodovi\u00e1rio federal. Sua miss\u00e3o passou a ser proteger as rodovias brasileiras em Porto Velho, capital de Rond\u00f4nia, tamb\u00e9m regi\u00e3o fronteiri\u00e7a. Sob o nome de guerra de W. Marques, o policial conheceu uma realidade diferente e resolveu fazer algo para mudar o cen\u00e1rio.<\/p>\n<p>Ao ver colegas PRFs serem mortos em situa\u00e7\u00e3o evit\u00e1veis, Marques utilizou seu conhecimento em matem\u00e1tica para levantar dados sobre as causas que levam policiais rodovi\u00e1rios federais a morrerem em plena atividade. Os resultados do estudo surpreendem e assustam. Em um recorte, de janeiro de 2017 a julho de 2018, 40% das mortes de PRFs aconteceram em decorr\u00eancia de acidentes de tr\u00e2nsito durante o trabalho, outras 30% por suic\u00eddio.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 uma pesquisa que caso queira aprofundar, tem muito o que oferecer. S\u00f3 o fato de ela ter acendido essa luz entre os policiais j\u00e1 me deixa satisfeito, o fato de fazer os policiais pensarem sobre suas atividades j\u00e1 me deixa feliz. Com esse estudo, voc\u00ea tem uma base concreta dos n\u00fameros da vitimiza\u00e7\u00e3o dos policiais rodovi\u00e1rios federais, n\u00e3o ficamos mais no achismo&#8221;, defendeu o pesquisador.<\/p>\n<p>A Federa\u00e7\u00e3o Nacional dos Policiais Rodovi\u00e1rios Federais (FenaPRF) aproveitou que W. Marques estava em Bras\u00edlia para uma miss\u00e3o e o convidou para um bate-papo sobre o trabalho de excel\u00eancia feito pelo policial. Acompanhe abaixo a entrevista com Wanderley.<\/p>\n<p><strong>&#8211; A partir do momento que ingressou na Pol\u00edcia, a atividade de policiamento na estrada era muito mais complexa do que a ideia que voc\u00ea tinha? Algo te assustou nesse in\u00edcio de caminhada?<\/strong><br \/>\nOs dois primeiros plant\u00f5es foram surpreendentes. Todos os policiais que haviam acabado de formar foram ao posto para conhecer. Foi interessante que teve uma ocorr\u00eancia que disseram haver uma mo\u00e7a engatinhando na rodovia. Ao chegar l\u00e1, na verdade, n\u00e3o era uma mo\u00e7a. Se tratava de um travesti que estava totalmente drogado andando na pista de quatro p\u00e9s. Ele foi levado ao posto na ca\u00e7amba de uma caminhonete por um usu\u00e1rio.<\/p>\n<p>Pouco tempo depois, est\u00e1vamos eu e um colega, os dois novinhos. Nos deparamos na situa\u00e7\u00e3o de embriaguez ao volante. O motorista se envolveu em um acidente com um mototaxista. Os outros mototaxistas estavam querendo linchar ele, por estar b\u00eabado. Nessa situa\u00e7\u00e3o pensamos, e agora? N\u00f3s dois inexperientes, o que a gente vai fazer aqui? O pessoal queria linchar o cara, t\u00ednhamos que lev\u00e1-lo preso e o motociclista tinha que ser levado ao hospital. S\u00e3o coisas que n\u00e3o aprendemos na academia, al\u00e9m de termos que tomar a decis\u00e3o ali na hora. Meu colega olhava para mim e falava: &#8220;e agora, cara?&#8221; E eu s\u00f3 dizia: vamos ter que resolver.\u00a0 Trabalhar em Porto Velho\/RO foi uma escola, em quatro meses vivemos situa\u00e7\u00f5es que muita gente n\u00e3o passa em uma carreira. Estupro, roubo, sequestro, atendemos de tudo.<\/p>\n<p><strong>&#8211; Como voc\u00ea teve a ideia de fazer a coleta dos dados das mortes dos Policiais Rodovi\u00e1rios Federais, o que motivou?<\/strong><br \/>\nSurgiu a oportunidade de fazer essa especializa\u00e7\u00e3o, um curso promovido pela Secretaria Nacional de Seguran\u00e7a P\u00fablica (SENASP) em parceria com a Universidade Federal da Bahia (UFBA), eu pensava na quest\u00e3o da abordagem policial, um procedimento te\u00f3rico para fazer a abordagem, a melhor maneira. Durante o decorrer do curso aconteceram duas mortes de colegas PRFs, a do Hamilton Safira, instrutor de tiro do Departamento; e um m\u00eas depois aconteceu uma outra morte em circunst\u00e2ncias muito parecidas, do colega chamado Carib\u00e9, que era lotado em Porto Velho\/RO e foi passar f\u00e9rias na Bahia. Com a diferen\u00e7a de um m\u00eas perdemos dois colegas em situa\u00e7\u00f5es muito parecidas e isso me motivou a mudar a vertente da pesquisa. Eu queria de alguma maneira mostrar para os colegas o modo que a gente estava morrendo e que poderia ser evitado com mudan\u00e7as de h\u00e1bitos. Foi isso que me motivou, a morte de dois colegas, um bastante experiente, com mais de 20 anos de pol\u00edcia e o outro inexperiente, com pouco mais de um ano de pol\u00edcia.<\/p>\n<p><strong>&#8211; Voc\u00ea acha que o estudo poder\u00e1 ter algum impacto no planejamento do trabalho dos PRF por parte dos superintendentes e dos diretores do DPRF?<\/strong><br \/>\nA gente conversa a\u00ed Brasil afora com os colegas em postos, opera\u00e7\u00f5es que participo e vi que alguns j\u00e1 mudaram seus h\u00e1bitos. Eu mesmo j\u00e1 mudei o meu. \u00c0s vezes a gente quer andar armado junto da fam\u00edlia achando que vai dar uma prote\u00e7\u00e3o e muitas vezes n\u00e3o \u00e9 isso que acontece. Ao inv\u00e9s de estarmos provendo a seguran\u00e7a estamos na verdade diminuindo a nossa pr\u00f3pria seguran\u00e7a. O objetivo da pesquisa n\u00e3o \u00e9 que o policial ande desarmado mas sim que ele esteja atento quando estiver portando sua arma, prestando aten\u00e7\u00e3o \u00e0s novas modalidades de crimes, que n\u00e3o s\u00e3o feitos mais em duplas mas em trios. O policial tem que estar atento o tempo todo.<\/p>\n<p><strong>&#8211; Como foi a recep\u00e7\u00e3o deste estudo por parte dos policiais que est\u00e3o na pista, em atendimento direto \u00e0 popula\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nA primeira rea\u00e7\u00e3o do pessoal \u00e9 de admira\u00e7\u00e3o, ficam surpresos com os dados. Muitos n\u00e3o sabem da quantidade. Essa pesquisa \u00e9 pioneira, eu n\u00e3o conhecia nada que versasse sobre a vitimiza\u00e7\u00e3o fatal de PRFs. Pesquisei bastante na internet, em livros e n\u00e3o vi nada relacionado ao assunto. Ent\u00e3o, primeiro eles ficam admirados com a motiva\u00e7\u00e3o dessas mortes e depois eles parabenizam.<\/p>\n<p>A maioria afirma: parab\u00e9ns pelo seu trabalho, \u00e9 importante a gente saber como que n\u00f3s policiais temos sidos vitimizados para talvez mudarmos esse cen\u00e1rio. E de alguma maneira, se verificarmos em 2016, que foi quando encerrei a pesquisa, morreram nove policiais e 2017 foram cinco, ent\u00e3o houve uma queda de quase 50%, \u00e9 um n\u00famero relevante. N\u00e3o sei se a pesquisa teve alguma coisa a ver com isso mas fico feliz com a diminui\u00e7\u00e3o deste n\u00famero.<\/p>\n<p><strong>&#8211; Os resultados do estudo, com o alto n\u00famero de mortes de policiais no tr\u00e2nsito, te assustou em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s outras causas?<\/strong><br \/>\nSe a gente conversasse mais sobre essa vitimiza\u00e7\u00e3o poderia haver essa mudan\u00e7a de procedimentos. Nos \u00faltimos dois anos, 2017 e 2018, foram 10 mortes de policiais rodovi\u00e1rios federais, dessas, quatro mortes foram em decorr\u00eancia de acidentes de tr\u00e2nsito em servi\u00e7o. Quem sabe a gente conversando mais sobre isso, sobre latroc\u00ednio, homic\u00eddio, quem sabe a gente n\u00e3o conseguisse evitar uma morte que seja, n\u00e9?!<\/p>\n<p><strong>&#8211; Estamos perto de um concurso. Voc\u00ea pretende dar continuidade nesta pesquisa instruindo o pessoal ainda no curso de forma\u00e7\u00e3o, mostrando os dados coletados?<\/strong><br \/>\nEu acho que n\u00e3o teria problema nenhum em ser apresentado. Antes deve ser submetido \u00e0 divis\u00e3o pertinente na pol\u00edcia e acho que n\u00e3o teria problema. \u00c9 importante, \u00e9 uma forma de divulgar. Eles ser\u00e3o os novos policiais e t\u00eam que saber onde correm os maiores riscos. Somos os respons\u00e1veis por prover a seguran\u00e7a no tr\u00e2nsito e temos morrido de acidentes de tr\u00e2nsito. Tanto a pesquisa que come\u00e7ou com os dados de 2007 a 2016 mostram que mais de 50% das mortes ocorrem de acidentes de tr\u00e2nsito. Estes n\u00fameros se confirmaram em 2017 e 2018, continuam mais de 50% das mortes de PRFs ocasionadas por acidentes de tr\u00e2nsito. Sendo que os acidentes em servi\u00e7o aumentaram em rela\u00e7\u00e3o aos ocorridos fora de servi\u00e7o.<\/p>\n<p><strong>&#8211; Esse alto \u00edndice de morte de policiais no tr\u00e2nsito te assustou, voc\u00ea sendo um policial jovem na carreira?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o imagin\u00e1vamos que o n\u00famero n\u00e3o seria t\u00e3o alto assim, principalmente em servi\u00e7o. Quando olhamos o percentual de 2007 a 2016 \u00e9 de 26% de vitimiza\u00e7\u00f5es fatais relacionados a acidentes de tr\u00e2nsito em servi\u00e7o. A probabilidade aumenta pelo fato de estarmos sempre dirigindo ou dentro de uma viatura. J\u00e1 em 2017 e 2018 o n\u00famero aumentou bastante, aumentou para 40%. Isso acende uma luz vermelha. Ser\u00e1 que estamos agindo corretamente quando entramos nas viaturas? Estamos inspecionando-as? Estamos utilizando o cinto de seguran\u00e7a? Ser\u00e1 que nossas viaturas possuem os equipamentos necess\u00e1rios para nossa seguran\u00e7a? A ideia \u00e9 que a pesquisa sirva para estimular at\u00e9 na escolha na hora da pol\u00edcia comprar novos ve\u00edculos e equipamentos.<\/p>\n<p><strong>&#8211; O estudo apontou o suic\u00eddio como uma das principais causas de mortes de PRFs. Qual medida voc\u00ea acha que poderia ser tomada para que haja diminui\u00e7\u00e3o deste n\u00famero?<\/strong><br \/>\nEu tenho um amigo que \u00e9 m\u00e9dico, trabalha comigo na delegacia de Petrolina que \u00e9 um entusiasta na quest\u00e3o da preven\u00e7\u00e3o de suic\u00eddios, tanto ele quanto outras pessoas que trabalham na preven\u00e7\u00e3o do suic\u00eddio afirmam que a melhor maneira \u00e9 conversar, ver se a pessoa est\u00e1 passando alguma dificuldade, avaliar se ela est\u00e1 com algum comportamento fora do normal. Eu acredito que podemos fazer alguma coisa, conversar mais sobre isso, fazer palestras. \u00c9 um tema muito pouco abordado. Queremos direcionar a pesquisa agora para saber se a atividade do profissional interfere na causa do suic\u00eddio ou n\u00e3o. Acreditamos que possa ter alguma coisa a ver, at\u00e9 porque 100% dos casos de PRFs que cometeram suic\u00eddio foi com a arma funcional.<\/p>\n<p><strong>&#8211; Na sua opini\u00e3o, h\u00e1 falta de interesse do Governo em lidar com os suic\u00eddios entre policiais? H\u00e1 um tabu nesta pauta?<\/strong><br \/>\nO tabu na verdade n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 por parte do Governo, \u00e9 da sociedade em um todo. Os pr\u00f3prios casos de suic\u00eddio n\u00e3o s\u00e3o divulgados, n\u00e3o h\u00e1 notas, reportagens que falem sobre isso. A imprensa acredita que isso possa estimular. Se conversa pouco sobre o suic\u00eddio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>&#8211; <a href=\"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/pesquisa_vitimizacao_prf.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><em>Clique aqui<\/em><\/a> e confira na \u00edntegra a pesquisa realizada pelo PRF.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 pouco mais de cinco anos, Wanderley Marques Martins mudou a trajet\u00f3ria de sua vida. 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