{"id":8997,"date":"2012-04-07T22:05:56","date_gmt":"2012-04-08T01:05:56","guid":{"rendered":"https:\/\/fenaprf.org.br\/?p=8997"},"modified":"2012-04-07T22:05:56","modified_gmt":"2012-04-08T01:05:56","slug":"o-discreto-charme-da-moralidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/o-discreto-charme-da-moralidade\/","title":{"rendered":"O discreto charme da moralidade"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><em>Por *Miguel Reale J\u00fanior<\/em><\/p>\n<div id=\"attachment_8999\" style=\"width: 239px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"https:\/\/fenaprf.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/04\/miguel_reale_junior.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-8999\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-8999\" title=\"miguel_reale_junior\" src=\"https:\/\/fenaprf.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/04\/miguel_reale_junior.jpg\" alt=\"\" width=\"229\" height=\"325\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-8999\" class=\"wp-caption-text\">Miguel Reale J\u00fanior<\/p><\/div>\n<p>Vive-se uma crise na base congressual. Parlamentares e partidos reclamam da falta de atendimento de reivindica\u00e7\u00f5es e se rebelam para demonstrar sua import\u00e2ncia: n\u00e3o aprovam a indica\u00e7\u00e3o de amigo da presidente da rep\u00fablica para ag\u00eancia reguladora.<\/p>\n<p>A artificialidade da base parlamentar, com cerca de 400 deputados, era evidente, pois apenas se instaurara em torno da figura carism\u00e1tica do presidente Lula, o grande eleitor, fazedor de sua sucessora, de governadores, deputados e senadores. Essa artificialidade, verific\u00e1vel a olhos vistos, \u00e9 fruto de uma constante de nossa vida republicana: a for\u00e7a do poder carism\u00e1tico.<\/p>\n<p>Na Rep\u00fablica Velha, quando presidentes eram escolhidos unicamente pelos pr\u00f3ceres do Partido Republicano, com resultados garantidos pela fraude eleitoral, ter o candidato poder pessoal de sedu\u00e7\u00e3o era irrelevante. Rui Barbosa, gra\u00e7as \u00e0 sua intelig\u00eancia, empolgou por duas vezes a juventude e a classe m\u00e9dia: na campanha civilista de 1910 e na disputa com Epit\u00e1cio Pessoa em 1919. Suas ideias avan\u00e7adas jamais iriam, logicamente, frutificar nesse sistema pol\u00edtico conservador. Na sociedade patriarcal, como poderia ser eleito um homem que pregava, em 1919, aderir \u00e0 democracia social, propugnando pela felicidade da classe obreira, aplaudindo o socialismo no que trazia de pacificador por aproximar patr\u00f5es e trabalhadores, reivindicando maior participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da mulher e ter igualdade de remunera\u00e7\u00e3o salarial?<\/p>\n<p>Assim, Rui, j\u00e1 glorificado como a \u00c1guia de Haia, comovia e envolvia apenas a incipiente classe m\u00e9dia, pela for\u00e7a de sua intelig\u00eancia e pela modernidade de suas propostas, sem ter o estadista nenhuma nuance de sedu\u00e7\u00e3o demag\u00f3gica.<\/p>\n<p>A partir da Revolu\u00e7\u00e3o de 1930 surgem, ent\u00e3o, na vida pol\u00edtica os l\u00edderes carism\u00e1ticos. Get\u00falio Vargas, candidato derrotado \u00e0 Presid\u00eancia, traduz a exig\u00eancia, nascida no movimento tenentista, de se garantir a verdade eleitoral, mas acaba por instaurar uma ditadura. Ao falar \u00e0s massas recebe legitima\u00e7\u00e3o pelo reconhecimento entusi\u00e1stico dos trabalhadores, criando-se uma liga\u00e7\u00e3o pessoal entre o chefe de Estado e o grosso da popula\u00e7\u00e3o, sob o dom\u00ednio de afei\u00e7\u00e3o confiante. Get\u00falio, o pai dos trabalhadores, \u00e9 consagrado presidente acima das liberdades democr\u00e1ticas. Deposto em 1945, retorna em 1950 com quase maioria absoluta dos votos. J\u00e2nio Quadros \u00e9 outro l\u00edder carism\u00e1tico que, com a vassourinha, promete varrer a sujeira da pol\u00edtica brasileira. Collor, o ca\u00e7ador de maraj\u00e1s, denunciador da corrup\u00e7\u00e3o do governo Sarney, \u00e9 um l\u00edder carism\u00e1tico que, sem partido, vem a derrotar fragorosamente todos os caciques: Ulysses, Brizola, Aureliano Chaves, M\u00e1rio Covas.<\/p>\n<p>O voo do chefe carism\u00e1tico pode ser breve ou longo. Os partidos pol\u00edticos dar-lhe-\u00e3o respaldo para poderem usufruir vantajosamente a sua proximidade com o l\u00edder, como benefici\u00e1rios do prest\u00edgio do condutor das massas, enquanto houver popularidade. Se esta decresce, come\u00e7a-se a abandonar o barco. J\u00e2nio e Collor tiveram na Presid\u00eancia passagens mete\u00f3ricas, deixados \u00e0 deriva em seus devaneios de poder absoluto.<\/p>\n<p>Na nossa Hist\u00f3ria recente, dois presidentes n\u00e3o tinham o carisma dos demagogos, mas possu\u00edam charme e programa: Juscelino, o peixe vivo, com a proposta de 50 anos em 5; Fernando Henrique, o intelectual pol\u00edtico, degolador da infla\u00e7\u00e3o, trazia o plano de moderniza\u00e7\u00e3o da economia e programas iniciais de distribui\u00e7\u00e3o de renda. Sucede que em geral carisma n\u00e3o se transmite a candidatos correligion\u00e1rios, muito menos charme.<\/p>\n<p>Lula, depois de tr\u00eas derrotas, soube se preparar para ganhar e p\u00f4de encarnar a figura do l\u00edder carism\u00e1tico que \u00e9, com projeto de poder de longa dist\u00e2ncia. Adaptou-se \u00e0s necessidades de conter a infla\u00e7\u00e3o e teve como carro-chefe o programa Bolsa-Fam\u00edlia. Com ast\u00facia, navegou nas \u00e1guas turvas do mensal\u00e3o e &#8220;macunainamente&#8221; usou da &#8220;virtude&#8221; pol\u00edtica da incoer\u00eancia para se sair bem com uns e outros. No segundo mandato cresceu em popularidade, seja porque a popula\u00e7\u00e3o da classe E, gra\u00e7as ao Bolsa-Fam\u00edlia, ascendeu \u00e0 classe D, seja porque parcelas da classe C assomaram, em vista do boom econ\u00f4mico mundial, a n\u00edveis mais elevados de consumo.<\/p>\n<p>O sucesso econ\u00f4mico e o dom natural de sedu\u00e7\u00e3o de Lula o transformaram num l\u00edder cuja for\u00e7a atraiu inimigos e militantes pol\u00edticos de toda ordem, ansiosos por serem seus seguidores e virem a integrar a mesma base pol\u00edtica, com manifesto interesse eleitoral. Lula conseguiu, de forma rara, eleger a sua sucessora, uma novata na refrega eleitoral, mais gerente do que pr\u00f3cer pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Assim, Dilma herdou a Presid\u00eancia e a dita base parlamentar composta por pol\u00edticos \u00e1vidos das benesses viabilizadas para os seguidores do chefe carism\u00e1tico. Este o \u00fanico cimento a amalgamar tantos interesses contr\u00e1rios.<\/p>\n<p>O destino, todavia, fez o l\u00edder, esp\u00e9cie de missioneiro, cair doente, com duvidosa participa\u00e7\u00e3o efetiva no futuro processo pol\u00edtico. Neste quadro, sem verbas e cargos para justificar o apoio ao governo, afloram, ainda por cima, na base parlamentar ressentimentos em vista das demiss\u00f5es por corrup\u00e7\u00e3o, longe da condescend\u00eancia anterior, do per\u00edodo lulista, quando se passava a m\u00e3o na cabe\u00e7a dos &#8220;aloprados&#8221;.<\/p>\n<p>Neste momento, sem a certeza de Lula ser um protagonista no cen\u00e1rio pol\u00edtico, Dilma v\u00ea-se no meio de uma crise que poder\u00e1 acalmar no varejo com a libera\u00e7\u00e3o de verbas, como se deu para a aprova\u00e7\u00e3o da Lei da Copa. A presidente, no entanto, diz n\u00e3o pretender instalar a ades\u00e3o ao &#8220;toma l\u00e1, d\u00e1 c\u00e1&#8221;. Em suma, Dilma herdou a Presid\u00eancia, mas n\u00e3o o carisma e, ao contr\u00e1rio de Juscelino e de Fernando Henrique, n\u00e3o tem um programa de governo que empolgue.<\/p>\n<p>Sua \u00fanica arma dispon\u00edvel \u00e9 a resist\u00eancia ao sistema do &#8220;dando \u00e9 que se recebe&#8221;, que poder\u00e1 entusiasmar a classe m\u00e9dia. Mas surge a d\u00favida: ser\u00e1 suficiente, no Brasil, o discreto charme da moralidade para se conseguir governar?<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>*Advogado, professor titular da Faculdade de Direito da USP, membro da Academia Paulista de Letras, foi ministro da Justi\u00e7a<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Fonte: <a href=\"http:\/\/www.estadao.com.br\/noticias\/impresso,o-discreto-charme--da-moralidade-,858296,0.htm\" target=\"_blank\">O\u00a0Estado de S.\u00a0Paulo\u00a0<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por *Miguel Reale J\u00fanior Vive-se uma crise na base congressual. 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