{"id":9940,"date":"2012-04-30T11:16:33","date_gmt":"2012-04-30T14:16:33","guid":{"rendered":"https:\/\/fenaprf.org.br\/?p=9940"},"modified":"2012-04-30T11:16:33","modified_gmt":"2012-04-30T14:16:33","slug":"meu-brasil-brasileiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fenaprf.org.br\/novo\/meu-brasil-brasileiro\/","title":{"rendered":"Meu Brasil brasileiro"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><em><strong>Por *Marco Ant\u00f4nio Villa<\/strong><\/em><\/p>\n<div id=\"attachment_9942\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"https:\/\/fenaprf.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/04\/marco_antonio_villa1.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-9942\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-9942\" title=\"marco_antonio_villa\" src=\"https:\/\/fenaprf.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/04\/marco_antonio_villa1.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"225\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-9942\" class=\"wp-caption-text\">Marco Ant\u00f4nio Villa<\/p><\/div>\n<p>O Brasil \u00e9 um pa\u00eds, no m\u00ednimo, estranho. Em 1992, depois de grande mobiliza\u00e7\u00e3o nacional e de uma comiss\u00e3o parlamentar mista de inqu\u00e9rito (CPMI) acompanhada diariamente pela popula\u00e7\u00e3o, o ent\u00e3o presidente Fernando Collor de Mello teve o seu mandato cassado. Foi o primeiro presidente da Rep\u00fablica que teve aprovado um processo de impeachment no Pa\u00eds. De acordo com os congressistas, o presidente foi deposto por ter cometidos crimes de responsabilidade. Collor foi acusado de ter articulado com o seu antigo tesoureiro de campanha, Paulo C\u00e9sar Farias, um grande esquema de corrup\u00e7\u00e3o que teria arrecado mais de US$ 1 bilh\u00e3o. Acabou absolvido pelo Supremo Tribunal Federal por falta de provas. Passados 20 anos, o mesmo Fernando Collor, agora como senador por Alagoas, foi indicado por seu partido, o PTB, para compor a CPMI que se prop\u00f5e a investigar as a\u00e7\u00f5es de Carlinhos Cachoeira. Deixou a posi\u00e7\u00e3o de ca\u00e7a e passou a ser um dos ca\u00e7adores.<\/p>\n<p>Quem mudou: Collor ou o Brasil? Provavelmente nenhum dos dois. Algo est\u00e1 profundamente errado quando um pa\u00eds n\u00e3o consegue, depois de duas d\u00e9cadas, enfrentar a corrup\u00e7\u00e3o. Hoje, diferentemente de 1992, as den\u00fancias de corrup\u00e7\u00e3o s\u00e3o muito mais graves. Est\u00e3o nas entranhas do Estado, em todos os n\u00edveis, e em todos os Poderes. N\u00e3o se trata &#8211; o que j\u00e1 era grave &#8211; simplesmente de um esquema de corrup\u00e7\u00e3o organizado por um grupo marginal do poder, rec\u00e9m-chegado ao primeiro plano da pol\u00edtica nacional.<\/p>\n<p>Ao longo dos anos a corrup\u00e7\u00e3o foi sendo aperfei\u00e7oada. At\u00e9 adquiriu status de algo natural, quase que indispens\u00e1vel para governar. Como cabe tudo na defini\u00e7\u00e3o de presidencialismo de coaliz\u00e3o, n\u00e3o deve causar admira\u00e7\u00e3o considerar que a corrup\u00e7\u00e3o \u00e9 indispens\u00e1vel para a governabilidade, garante estabilidade, permite at\u00e9 que o Pa\u00eds possa crescer &#8211; poderia dizer algum analista de ocasi\u00e3o, da turma das Polianas que infestam o Brasil.<\/p>\n<p>Parodiando Karl Marx, corruptos de todo o Brasil, uni-vos! Essa poderia ser a consigna de algum partido j\u00e1 existente ou a ser fundado. Afinal, a nossa democracia est\u00e1 em crise, mas n\u00e3o \u00e9 por falta de partidos. \u00c9 uma constata\u00e7\u00e3o \u00f3bvia de que o Brasil n\u00e3o tem mem\u00f3ria. O jornalista Ivan Lessa escreveu que a cada 15 anos o Brasil esquecia o que tinha acontecido nos \u00faltimos 15. Lessa \u00e9 um otimista incorrig\u00edvel. O esquecimento \u00e9 muito &#8211; mas muito &#8211; mais r\u00e1pido. \u00c9 a cada 15 dias. Caso contr\u00e1rio n\u00e3o seria poss\u00edvel imaginar que Fernando Collor estivesse no Senado, presidisse comiss\u00f5es e at\u00e9 indicasse diretores de empresas estatais, como no caso da BR Distribuidora. E mais: que fosse indicado como membro permanente de uma CPMI que visa a apurar atos de corrup\u00e7\u00e3o. Indo por esse caminho, n\u00e3o vai causar nenhuma estranheza se o Congresso Nacional revogar o impeachment de 1992 e at\u00e9 fizer uma sess\u00e3o de desagravo ao ex-presidente. Como estamos no Brasil, \u00e9 bom n\u00e3o duvidar dessa possibilidade.<\/p>\n<p>Em 1992 muitos imaginavam que o Brasil poderia ser passado a limpo. Ocorreram in\u00fameros atos p\u00fablicos, passeatas; manifestos foram redigidos exigindo \u00e9tica na pol\u00edtica. At\u00e9 surgiu uma &#8220;gera\u00e7\u00e3o de caras-pintadas&#8221;. Parecia &#8211; s\u00f3 parecia &#8211; que, ap\u00f3s a promulga\u00e7\u00e3o da Constitui\u00e7\u00e3o de 1988 e a primeira elei\u00e7\u00e3o direta presidencial &#8211; depois de 29 anos -, a tr\u00edade estava completa com a queda do presidente acusado de s\u00e9rios desvios antirrepublicanos. O novo Brasil estaria nascendo e a corrup\u00e7\u00e3o, vista como intr\u00ednseca \u00e0 pol\u00edtica brasileira, seria considerada algo do passado.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio fazer nenhum balan\u00e7o exaustivo para constatar o \u00f3bvio. A derrota &#8211; de goleada &#8211; dos valores \u00e9ticos e morais republicanos foi acachapante. Nos \u00faltimos 20 anos tivemos in\u00fameras CPIs. Ficamos indignados ouvindo depoimentos em Bras\u00edlia com confiss\u00f5es p\u00fablicas de corrup\u00e7\u00e3o. Um publicit\u00e1rio, Duda Mendon\u00e7a, chegou mesmo a confessar &#8211; sem que lhe tivesse sido perguntado &#8211; na CPMI do Mensal\u00e3o que havia recebido numa conta no exterior o pagamento pelos servi\u00e7os prestados \u00e0 campanha do ent\u00e3o candidato Luiz In\u00e1cio Lula da Silva. A bomb\u00e1stica revela\u00e7\u00e3o foi recebida por alguns at\u00e9 com naturalidade. O que configurava um crime de responsabilidade, de acordo com a Constitui\u00e7\u00e3o, al\u00e9m de outros delitos, n\u00e3o gerou, por consequ\u00eancia, nenhum efeito. E, vale recordar, com a concord\u00e2ncia bovina &#8211; para lembrar Nelson Rodrigues &#8211; da oposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A aceita\u00e7\u00e3o de que pol\u00edtica \u00e9 assim mesmo foi levando \u00e0 desmoraliza\u00e7\u00e3o da democracia e de seus fundamentos. Hoje vivemos um simulacro de democracia. Ningu\u00e9m quer falar que o rei est\u00e1 nu. Democracia virou simplesmente sin\u00f4nimo de realiza\u00e7\u00e3o de elei\u00e7\u00f5es, despolitizadas, desinteressadas e com um consider\u00e1vel \u00edndice de absten\u00e7\u00e3o (mesmo com o voto obrigat\u00f3rio). Aqui, at\u00e9 as elei\u00e7\u00f5es acabaram possibilitando expandir a corrup\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Na pol\u00edtica tradicional, a bandeira da \u00e9tica \u00e9 empunhada de forma oportunista, de um grupo contra o outro. Na pr\u00f3xima CPI os pap\u00e9is podem estar invertidos, sem nenhum problema. \u00c9 um querendo &#8220;pegar&#8221; o outro. E muitas vezes o feiti\u00e7o pode virar contra o feiticeiro.<\/p>\n<p>E as condena\u00e7\u00f5es? Quem est\u00e1 cumprindo pena? Quem teve os bens, obtidos ilegalmente, confiscados? Nada. O que vale \u00e9 o espet\u00e1culo, e n\u00e3o o resultado.<\/p>\n<p>O Brasil conseguiu um verdadeiro milagre: descolou a pol\u00edtica da economia. O Pa\u00eds continua caminhando, com velocidade reduzida, por causa da m\u00e1 gest\u00e3o pol\u00edtica. Mas vai avan\u00e7ando. E por iniciativa dos simples cidad\u00e3os que desenvolvem seus neg\u00f3cios e constroem dignamente sua vida. Depois, muito depois, v\u00e3o chegar o Estado e sua burocracia. Aparentemente para ajudar, mas, como de h\u00e1bito, para tirar &#8220;alguma casquinha&#8221;, para dizer o m\u00ednimo. E a vida segue.<\/p>\n<p>N\u00e3o vai causar admira\u00e7\u00e3o se, em 2032, Dem\u00f3stenes Torres for indicado pelo seu partido para fazer parte de uma CPI para apurar den\u00fancias de corrup\u00e7\u00e3o. \u00c9 o meu Brasil brasileiro, terra de samba e pandeiro.<\/p>\n<p><em><strong>*Marco Ant\u00f4nio Villa<\/strong> &#8211; Historiador. Professor do Departamento de Ci\u00eancias Sociais da Universidade Federal de S\u00e3o Carlos. Bacharel e Licenciado em Hist\u00f3ria, Mestre em Sociologia e Doutor em Hist\u00f3ria.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por *Marco Ant\u00f4nio Villa O Brasil \u00e9 um pa\u00eds, no m\u00ednimo, estranho. 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